Jayme de Almeida tem pressa. Deseja deixar o Ninho do Urubu o quanto antes para visitar no hospital a neta Pietra, operada subitamente por conta de apendicite. Ainda assim, ele caminha calmamente pelo terreno irregular do centro de treinamento rubro-negro. O técnico finalista da Copa do Brasil é assim.
Educado, elegante, respeita compromissos previamente acertados. Em 19 minutos de conversa com a reportagem do ESPN.com.br, sentado em uma cadeira sob a sombra de uma árvore, Jayme deu mostras de como conseguiu levar o desacreditado Flamengo a uma final nacional. De pele rubro-negra, contemporâneo de Zico, ele entende como poucos o funcionamento da engrenagem traiçoeira do Flamengo e não se ilude. Mas se emociona.
Não só pelo apoio da família, mas dos amigos. Ao saber que tinha sido defendido por Andrade, ele leva a mão ao rosto, aperta os óculos com o propósito quase escondido de conter lágrimas. Os olhos estão levemente marejados. Sim, Jayme de Almeida não se ilude, mas se emociona com frequência aos 60 anos. Com o Flamengo, com o momento, com a vida. E não se arrepende. Em tom sereno, as palavras saem da boca de forma suave, mas de forma bem direta:
“Prefiro me emocionar a passar a vida em preto e branco”, disse o técnico rubro-negro.
Daqui a dois dias, este ex-zagueiro que dedicou anos ao clube que aprendeu a amar graças ao pai, também um Jayme de Almeida, senta no banco de reservas para tentar escrever mais um capítulo em sua história. E, claro, preparado para muita emoção. Confira a entrevista.
Em entrevista ao ESPN.com.br, Andrade garantiu que muitos nomes vão surgir, mas a hora é de Jayme no Flamengo. Ele está certo?
Acho que essa função…não é que caiu no colo, mas eu não esperava. Não esperava que o Mano fosse sair. Foi um momento difícil para todos aqui no clube, não foi fácil. A saída dele deixou todo mundo assim…meio assustado. A responsabilidade foi colocada na minha mão, na comissão que ficou, no Cantarelle, que deixou de ser técnico de goleiros para me ajudar. A gente está conseguindo os objetivos principais no clube. Estou feliz por terem confiado em mim e por chegarmos a uma final da Copa do Brasil. O meu combinado com a diretoria é até o final do ano. Aí a gente. vê Tenho 60 anos e experiência no futebol. Nada é eterno. Vivo meu dia a dia.
Há um ano você provavelmente não esperava ser agora técnico do Flamengo. Há meses não se cogitava a chance de o time ser campeão da Copa do Brasil. O que era mais inesperado?
O Flamengo tem uma força muito grande e sempre se acredita e trabalha para chegar na final. Em relação a eu ser técnico, nenhuma. Como falei, a gente não sabe o que vai acontecer. Como falo para jogadores, temos de estar preparados o melhor possível. No meu caso foi uma responsabilidade muito grande. Estou conseguindo com a ajuda dos jogadores. É uma coisa que eu nem sonhava, para ser bem honesto, ser técnico do Flamengo. Nunca passou pela minha cabeça. É coisa de Papai NOel (risos).
A sua chegada ao comando provocou mudanças no time e em jogadores, como o Paulinho. Ao que se deveu isso?
Esse bom momento dele (Paulinho) coincidiu com uma coisa de confiança. É um jogador que veio de time pequeno e todo jogo tem de provar. Ele jogava bem um jogo, mal o outro e o tiravam. Jogador tem de ter segurança. A partir do momento que ele viu que podia fazer as jogadas, a gente deu muita liberdade. Ele é bom no drible. Futebol hoje em dia tem pouco isso. Falei para ele sempre procurar jogar e, mesmo com as funções táticas, procurar fazer. Ele está conseguindo jogar sem a preocupação de que, se errar, vão tirar. E a torcida do Flamengo adora um garoto como ele, que é atacante, volta e ajuda. Foi com certeza um dos jogadores que mais ajudou a chegar nessa final.
O que aconteceu com Andrade, demitido depois de ser campeão brasileiro, mexe com você?
Já falei sobre isso. Eu não consigo entender um cara que foi campeão brasileiro e, não só isso, foi eleito melhor técnico em 2009. Aí depois ele saiu em março de 2010 do Flamengo e nunca foi contactado por nenhuma equipe da Primeira Divisão do futebol brasileiro. É coisa que não entendo. Não consigo uma resposta para minha inteligência. É um exemplo negativo que a gente percebe que tem nesse país. Não me iludo. Sei que posso ganhar ou perder a Copa do Brasil. Posso continuar ganhando ou perdendo. Tenho muito os pés no chão. O principal que tínhamos proposto fazer estamos tentando fazer. Isso me dá tranquilidade. Quando vou para casa fico com paz no coração. O futuro a gente não sabe. Mostro meu trabalho.
O futebol vive uma era em que os treinadores têm ar até arrogante por vezes, são chamados de professores. Você tem outra postura, mais simples, com fala mais serena. Esse é o Jayme até internamente?
Eu procuro ser bem educado, bem ponderado. Até na formação da equipe eu procuro trocar ideias. Não posso dizer para o jogador fazer isso se ele não se sente bem. Lógico que na beira do campo a gente fica mais exaltado. É normal. Eu não grito muito porque os estádios ficam cheios, você vai ficar igual a um maluco e ninguém te olha. Eu já joguei futebol. A tensão é tão grande, é tão intenso que ninguém vai parar de jogar para ouvir. E não escutam nada mesmo. Você vai ficar igual a um maluco para ninguém te entender nada? A gente procura evitar e conversa alguma coisa com os jogadores que estão nas laterais. Fico só olhando, assistindo para, no intervalo, dar a instrução para melhorar a equipe.
Você utiliza algum método para estudar o futebol. Qual sua análise sobre o momento do futebol brasileiro?
Mudou muito. A parte física e tática ficou muito maior. Nosso futebol era mais de lampejo, com jogadas de excelência. Isso está acabando. Você vê o Paulinho, um jogador que dribla. Isso quase não tem mais. Não sei, mas acho que o Brasil se preocupou muito com as partes tática e física e, tecnicamente, nossos jogadores caíram. Você vê um ou outro, o Neymar. Antigamente era melhor. Ficamos padronizados, parecidos com os europeus. Antigamente era o contrário. A nossa criatividade está sendo tolida. É fácil culpar as categorias de base porque se não chega, você não cria.
Você costuma se emocionar muito com o Flamengo e com a família. Como faz para manter a postura de liderança diante disso?
Eu me emocionar não tira a minha responsabilidade e o que tenho de fazer. Emociona na hora, mas ao mesmo tempo eu sei o que tem de ser feito. Os jogadores já perceberam e me conhecem bem. Sabem que sou um cara muito emotivo. O relacionamento é bacana, de respeito. Essas emoções acho legais, não me atrapalham nada. É bom senti-las, a gente está vivo, acho bacana. Prefiro me emocionar a passar a vida em preto e branco. É legal, o Maracanã com a torcida do Flamengo. Então de vez em quando me emociono
Seu pai, ex-zagueiro do clube, vem à cabeça?
Não, eu me emociono no momento. É bonito. Eu não esperava naquele Flamengo x Botafogo. A gente já sabia, mas quando eu entro e era (a torcida) tão maior…A confiança deles me emocionou. Eu falei: ‘Hoje temos de deixar esses caras felizes’. Foi um dia fantástico e antes de começar fiquei muito emocionado ao ver a energia que passavam para a gente.
Desde que você parou de jogar é, profissionalmente, seu momento mais feliz?
Não. Já tive momentos muito felizes. Não no Flamengo, mas muita coisa boa e com carinho que aconteceu na minha vida.
Quando você foi efetivado recebeu apoio de ex-jogadores, até o Zico postou uma foto em sua homenagem. Como foi?
Depois do jogo do Náutico ainda se tentou o Abel (Braga), ele não aceitou. Aí o Flamengo resolveu me efetivar. Recebi um carinho enorme, de muita gente. Não só os famosos. Muita gente que me ligou e deu apoio muito grande. Foi um momento bonito da minha vida porque foi muita gente que eu não via há muito tempo, que eu tinha conhecido quando passado por vários lugares. E nesse momento difícil, com o Flamengo na situação que estava, me apoiando. Não foi só o Zico. O Adílio, o Andrade, o Leandro, o Julinho (Uri Geller)…
Pouca gente sabe, mas você já foi campeão como treinador, em 92, pela Desportiva Capixaba com um time que tinha Andrade e Washington, atacante do Fluminense na década de 80. Como foi?
O Flamengo tinha quatro atletas estourados nos juniores e emprestaram para a Desportiva, que disputava o Brasileiro. Aí o Isaías (Tinoco, supervisor), que estava sempre em contato com o presidente da Desportiva, falou que tinha o Jayme. Aí ele me contratou, foi uma coisa linda. E conseguimos classificar para a Primeira Divisão do Brasileiro. Convidei o Andrade para disputar o campeonato capixaba. Ele aceitou e foi nosso comandante, jogou de camisa 10. E o Washington estava vindo de Salvador para o Rio, parou em Vitória e os amigos comentaram. Conversamos e ele aceitou. Fomos campeões. 92 foi um ano muito legal na carreira.
Qual o momento-chave para que o Flamengo fosse um dos finalistas da Copa do Brasil?
Foi a proposta de serem mais humildes. Reconhecerem que para vencer tinham de ser mais humildes. Todo mundo. E acho que eles entenderam isso. Procurar trabalhar mais, ser mais humilde, não achar que está acima de tudo. E se doar mais pelo objetivo. Acho que deu certo, fizeram isso com muita propriedade. Estamos nessa final justamente por isso.
E o que é necessário para encarar uma decisão desse porte?
Final? Tem de de ser forte, guerreiro. Confiante também. Sem confiança a gente não chega a nada. Mas, acima de tudo, não perder essa humildade.
Fonte: ESPN

