Brocador. Oito letras. Do dicionário, aquele que corta ou derruba mato. Mas derruba mais. Faz mais. 31 gols na temporada, para ser mais preciso. Quase metade deles – 14 – em 12 jogos no novo Maracanã. O que é preciso para ser adorado por uma multidão quase em transe, que repete seu nome como um mantra que ecoa no mítico estádio? Hernane explica.
Três toques a apoteose do Brocador, o artilheiro de uma Nação.
O jeito desembestado não está restrito só aos gols. Ele gesticula, anda meio torto, agradece à torcida, pede mais vibração. Parece não se conter em si de tanta energia. Deseja explodir, cair nos braços de uma nação que o empurra diante do grande rival. Hernane é assim.
Capaz de cunhar o próprio apelido, Brocador, e atrelar a si quase como que um sobrenome. Hernane Brocador. Simples, direto, curto, objetivo. Até grosso. Mas artilheiro. A bola corre de um lado para o outro. Passeia de pé em pé. Parece buscar o camisa 9, pronta para receber um toque só para abraçar a rede. Na noite de 23 de outubro foram três.
O primeiro em um chute mascado. A bola viaja à área, Marcelo Mattos afasta de cabeça. Hernane finge que vai rumo ao gol. E volta, espera. Parece pressentir. Em milésimos de segundo a bola bate em Rafael Marques, o artilheiro rival. E se oferece para o Brocador. Era muito abuso.
Ali, serelepe na pequena área, a redonda implorava pra ser chutada. O chute saiu mesmo mascado. E daí? Em um mergulho triunfal, a bola beijou a rede. Um toque, um gol. Hernane, o Brocador.
A energia inflama a arquibancada que rege o time como um maestro comanda sua orquestra. Hernane está elétrico. Quer a bola. E a recebe, com carinho, de Carlos Eduardo. O camisa arranca desde o meio de campo, leva para direita, gira, perde a passada e a entrega nas mãos de Jefferson. Por um instante, desanima. Abaixa a cabeça. E logo a levanta. Hernane não desiste.
Porque lá na esquerda passa Paulinho. No chute, a bola encontra Jefferson. No rebote do goleiro, a redonda, de novo, se oferece para o Brocador. Na meia-lua, ele trota como se estivesse no quintal de casa. No fundo está. O pé, de novo, é o esquerdo. Azar? Oportunismo puro. A bola mergulha, de novo, para o fundo da rede. Êxtase. Dancinha, imitações de choro. Provocação doída ao rival, seja intenacional ou não.
Mas a apoteose não está completa. Na segunda metade do jogo há tempo para mais. E lá vai de novo Paulinho pela esquerda. Mas a honra é cedida a André Santos, que cruza no capricho. Em seu espaço preferido, a grande área, o Brocador mostra que também sabe dançar. Um passo para frente, outro para trás. Dória, o marcador, se perde. A bola vem de encontro à cabeça de Hernane e termina, de novo, no fundo da rede de Jefferson após um toque só. Uma, duas, três vezes. Brocador, de fato. Artilheiro, por direito. A caminho dos braços da torcida, literalmente.
A sede de artilheiro, no entanto, teve de ser contida. Em passe açucarado de Carlos Eduardo, Hernane recebe a bola e fica frente a frente com Jefferson. No segundo toque na pelota, Dória o derruba. Pênalti, tentação imensa para qualquer camisa 9. Mas Hernane aquieta o instinto do Brocador. Bola nas mãos, um presente para o aniversariante Léo Moura, que assinala o quarto gol da noite. O camisa 2 ganha os parabéns da arquibancada. Mas a noite tem dono. Camisa 9. Hernane. Brocador. Oito letras. Artilheiro de uma nação.
Fonte: ESPN
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