A recente passagem de Ronaldo Fenômeno no Corinthians, a permanência de Neymar no Santos durante mais tempo que o esperado e a vinda do holandês Seedorf para o Botafogo dizem muito sobre a recente condição econômica brasileira. O Brasil aliou a tradição no mercado da bola à boa condição econômica para se consolidar entre os principais mercados do mundo, principalmente em comparação com os vizinhos sul-americanos.
De acordo com o relatório Global Transfer Market, publicado anualmente pela Fifa, os clubes nacionais – durante anos os maiores exportadores de talentos – passaram a ser também os principais importadores do futebol mundial. Ano passado, enquanto 618 atletas foram enviados para fora, 696 chegaram de outros países.
“O futebol brasileiro foi fortemente impactado nos últimos cinco anos pela macroeconomia e pelo redesenho da geografia mundial. Os valores de patrocínio subiram exponencialmente, bem como receitas de TV e de sócios”, afirma o especialista em direito esportivo internacional e presidente da Associação Sul-Americana dos Advogados de Futebol, Eduardo Carlezzo.
Nesse novo cenário, diversos jogadores de nome voltaram da Europa ao país recentemente, enquanto outros retardaram uma saída precoce. “No passado, esses atletas já estariam na Europa há muito tempo”. Por outro lado, o advogado alerta que esses atletas vieram jogar no Brasil com remuneração semelhante às que recebiam na Europa, o que não é saudável para os clubes. “Os salários pagos aos jogadores foram altamente – e desproporcionalmente – inflacionados. Não é algo sustentável, inclusive no curto prazo, considerando as pesadas dívidas que os clubes carregam.”
A venda precoce de atletas acaba sendo a saída muitas vezes. Um exemplo é o atacante Vitinho, do Botafogo. Revelado no Campeonato Brasileiro deste ano, ele foi negociado poucos meses após virar titular da equipe e assinou com o CSKA, da Rússia. O clube carioca, que contratou o holandês Seedorf por uma salário anual de R$ 7,5 milhões (segundo estimativas da Pluri), sofre com problemas de atraso de salários, questão que os próprios jogadores tornaram pública durante a campanha deste ano.
Para Carlezzo, alguns times que possuem situação financeira mais estável, como Corinthians, São Paulo e Internacional, têm condições de fazer altos investimentos e segurar suas revelações por mais tempo. Eles são exceção. “São inúmeros os clubes grandes que necessitam vender atletas para manter os salários dos demais em dia”, diz.
Porém, a época das cifras altas parece estar com os dias contatos. Com a movimentação do Bom Senso FC, grupo de jogadores que tem entre suas demandas, o fair play financeiro no futebol brasileiro. Além dos atletas, dirigentes também estão se organizando para ter mais representatividade na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Após reunião na última quinta-feira (17/10) com o vice-presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, e dirigentes de Flamengo, Internacional e Vitória, o presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, foi enfático aos jornalistas ao deixar a sede da CBF, no Rio de Janeiro: “Os salários milionários vão acabar”.
Fonte: Época

