Ao contrário do campeonato por pontos corridos, em que o efeito de um jogo pode ser modificado na próxima rodada, o Botafogo x Flamengo de quarta-feira, pela Copa do Brasil, produzirá um resultado definitivo não apenas para a pretensão dos clubes. Embora o uso doméstico do novo Maracanã já tenha passado por sete clássicos, o próximo anuncia o grande teste, pelo interesse e pela dramaticidade que um jogo eliminatório traz ao estádio. Entre a dificuldade que o torcedor derrotado tem para lidar com as provocações e a facilidade para se aproximar do campo, apenas uma mureta separa o novo padrão da velha rivalidade.
Flamengo x Botafogo servirá para decisão dos moldes de gestão do Maracanã.
Dos 71.361 ingressos postos à venda, a maior oferta desde que o Maracanã passou a ser administrado pelo consórcio, 35 mil já tinham sido negociados até o início da noite de segunda-feira. O Setor Norte, destinado à torcida rubro-negra, está esgotado.
Nos 31 jogos realizados no estádio sob operação privada, o maior público, de 53.538 presentes, foi registrado na vitória do Flamengo por 1 a 0 sobre o Cruzeiro, pela Copa do Brasil. Entre os clássicos regionais, o empate em 1 a 1 entre Flamengo e Botafogo, no Brasileiro, foi o que levou mais gente (52.361 pagantes) e obteve a maior renda (R$ 3.082.555). Diante do Cruzeiro, a diretoria do Flamengo priorizou os resultados esportivos aos financeiros, baixando o valor dos ingressos, o que não aconteceu para o jogo de amanhã, em que os preços variam de R$ 80 a R$ 200, com direito à meia-entrada.
No conceito que transforma o estádio em um grande centro comercial e prioriza o torcedor pelo poder aquisitivo, é a manifestação mais popular que tem pagado a conta. Na faixa central, a ideia de atrair famílias e consumidores qualificados ainda não passou de um projeto virtual, enquanto a paixão que sustentava o velho Maracanã e a identidade dos clubes resiste, confinada ao setores atrás dos gols. Diante do sistemático vazio nas áreas mais nobres, o jogo de amanhã, por seu caráter decisivo, servirá para medir se essa nova demanda elitizada existe além das projeções de lucro dos clubes e dos concessionários que dividem as receitas.
Junto com 350 policiais, 500 seguranças atuarão dentro do estádio. Mesmo que os torcedores e o novo Maracanã estejam diante de um jogo único, este será mais um na rotina do Grupamento Especial de Policiamento nos Estádios (Gepe), que usa a operação de rotina para minimizar o desafio.
— Já fizemos vários clássicos. O único que ainda não houve foi entre Vasco e Flamengo, pela opção dos clubes por jogar em Brasília — disse o tenente-coronel João Fiorenti, comandante do Gepe, lembrando que a reconfiguração do estádio tem sido acompanhada por novos hábitos. — Desde a Copa das Confederações, não tivemos nenhum registro de tentativa de invasão de campo.
Pedido para chegar cedo
A nova cultura ainda esbarra nas contradições de um modelo que mistura a livre inciativa com o controle do estado. Enquanto os gestores tratam o futebol como braço forte da indústria do entretenimento, a proibição da venda de cerveja dentro do estádio faz o torcedor aproveitar a liberação até a última gota do lado de fora. Assim como a saideira, hábito de pedir mais uma dose, sabendo que não será a última, as filas se prolongam nos minutos que antecedem o início do jogo.
— A gente pede que o torcedor chegue cedo. Pelo registro das catracas, a gente sabe que 60% do público entra nos últimos 30 minutos antes da partida. Nas duas primeiras horas, não entra praticamente ninguém — disse o tenente-coronel, lembrando que o fluxo intenso é obstruído pela obrigação de revistar cada torcedor. — Para entrar, todo torcedor tem que consentir com a revista. Isso é claro no Estatuto do Torcedor, embora a gente enfrente muitos problemas com pessoas que não admitem a abordagem.
Enquanto alguns aceitam melhor as mudanças em nome do conforto e da segurança, outros ainda lamentam a perda da linhas originais do estádio e do acesso comum pelas rampas monumentais, hoje exclusivas dos setores mais caros. Mesmo que o impacto da chegada tenha se perdido, o caráter decisivo do jogo de amanhã vai dizer se o Maracanã e a rivalidade ainda conservam a magia de de outrora.
Fonte: O Globo
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