No último domingo, o Brasil tinha um torcedor especial nas arquibancadas do Maracanã. Era Marcelo Moreno, centroavante do Flamengo. Nascido em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, o jogador faz questão de explicar que não vestiu a camisa da seleção brasileira, mas torceu, sim, pelo time de Felipão na final da Copa das Confederações. E, como todos no estádio, ficou emocionado com o Hino cantado pelos torcedores.
— É uma sensação boa, porque eu também já estive na seleção brasileira. Me emocionei bastante com o Hino, assim como todo brasileiro — conta.
Brasileiro, o pai de Moreno é ex-jogador de futebol. Já a mãe é boliviana. O atacante consultou a família ao decidir jogar pela seleção boliviana após passar pelas categorias sub-17 e sub-20 do Brasil. O que classifica como “questão de oportunidade” o fez pular etapas e escolher a seleção principal de seu país. Apesar dos objetivos menos pretensiosos, garante não estar arrependido. Com a Bolívia na vice-lanterna das Eliminatórias, fica triste apenas por, provavelmente, ter de ver a Copa do Mundo do ano que vem, mais uma vez, da arquibancada.
— Meu sonho era chegar ao Mundial aqui no Brasil, mas agora, infelizmente, está bem complicado — lamenta. — Mas sou o segundo maior artilheiro da seleção e pretendo ultrapassar o (Joaquín) Botero, que é o primeiro. Faltam três gols. Estou só com 26 anos e acho que vou conseguir superá-lo.
Ao fazer história na seleção boliviana, Moreno dá ares cinematográficos para um trajeto que começou cercado de dificuldades. Com o sonho de se tornar um jogador de futebol, o garoto se viu obrigado a conciliar diversos trabalhos para bancar as passagens para treinar no Oriente Petrolero, um dos maiores clubes do pobre futebol boliviano. No Estádio Ramón Tahuichi Aguilera, em Santa Cruz de la Sierra, Moreno vendia refrigerantes e coxinhas nas arquibancadas.
— Já fiz um monte de coisa para ganhar a vida e poder treinar, que era uma dificuldade — conta, com orgulho. — São essas coisas que vão ficar sempre na minha memória. Espero que todo garoto tenha essa consciência de que é preciso valorizar o que tem.
Cigano da bola
Do Oriente Petrolero, o boliviano cruzou a fronteira e, depois de um ano de peneiras, finalmente foi aprovado no Vitória, com 17 anos. Apesar do momento de vacas magras no rubro-negro baiano, entre 2005 e 2007, quando o time viveu entre a Série B e C, Moreno conseguiu mostrar seu faro de artilheiro e foi negociado com o Cruzeiro. No clube mineiro, teve sua melhor fase e chegou à artilharia da Libertadores de 2008. No mesmo ano, iniciou de vez a vida de cigano do futebol.
Valorizado, foi vendido para o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, e acabou emprestado ao Werder Bremen, da Alemanha, e ao Wigan, da Inglaterra. Sem jamais ter repetido os gols do início da carreira, voltou ao Brasil no ano passado para jogar no Grêmio, antes de fechar com o Flamengo no fim de abril.
Fonte: O Globo

