Domingo é dia de inauguração do novo Mané Garrincha. Santos e Flamengo serão os protagonistas do início de uma nova era no estádio brasiliense, modernizado e agora com capacidade para 71 mil pessoas. Na próxima quarta-feira, serão completos 30 anos de uma final histórica: com um acachapante 3 a 0, o Rubro-Negro passou pelo Peixe e se sagrou tricampeão brasileiro no Maracanã diante de 155.253 pagantes, recorde absoluto da competição. Para se ter uma noção da façanha, o Novo Maraca comportará no máximo 78.838 torcedores. Ou seja, o público da decisão de 1983 quase iguala o dobro da atual capacidade (157.676).
Autor do segundo gol rubro-negro na partida em questão, Leandro, lateral-direito e expoente daquele time, disse ter ficado em êxtase ao se deparar com a impressionante plateia:
– Quando entramos em campo, tinha gente na marquise do Maracanã. Eu olhava para aquilo e dizia :”Que é isso, gente? Que loucura!”. Devia ter umas 180 mil pessoas, não é possível. Sempre digo que não sinto tanta falta do futebol, mas sinto daquele grito de “Mengooo”.
Saudade também é o o sentimento do ex-camisa 2 em relação à antiga capacidade do Maraca, que, segundo ele, não existe mais. Reaberto em jogo festivo entre amigos de Bebeto e Ronaldo no último 27 de abril, o novo Maracanã voltará a receber uma partida oficial em 2 de junho, quando Brasil e Inglaterra se enfrentarão em amistoso.
– Maracanã já foi Maracanã. Hoje é outro estádio com o mesmo nome, não tem mais aquele carisma. Mas, quando estiver cheio, vai dar aquela emoção. Espero que o Maracanã volte a viver grandes jogos, é para isso que eu torço – lamentou.
Maior ídolo do Flamengo, Zico ficou muito emocionado com a presença da torcida naquele jogo, principalmente por garantir que só havia rubro-negros no estádio. Situação parecida ele diz ter vivido em 29 de abril de 1979, quando o Fla entrou em campo já com o bicampeonato carioca garantido para enfrentar o Botafogo. A partida terminou em 2 a 2 e o público foi de 158.477 pagantes.
– A gente sentiu a diferença pela ocupação do Flamengo ter sido toda. Tinha acontecido uma vez contra o Botafogo, se não me engano em 79. O Flamengo foi campeão e no último jogo, já com o título, a torcida tomou o estádio inteiro quase. A gente não estava acostumado a ver o Flamengo tomar o estádio inteiro, foi emocionante – recordou.
Diferentemente de Leandro, o Galinho acredita que o poder de emocionar do Maracanã, mesmo remodelado, segue inabalável.
– Não é não (outro estádio), o público está mais perto. Isso trás uma aura boa para o pessoal que vai jogar. É uma sensação diferente, mas acho que a emoção é grande. Às vezes jogar com 20 mil pessoas num estádio cheio representa mais do que jogar para um com 50 mil e cheio de espaços vazios. Dá uma emoção legal. E a torcida vai ficar perto do campo. No Fenerbahçe, o campo era perto também (da torcida), jogávamos para 55 mil pessoas e parecia um caldeirão. Era muito bacana – defende.
Adílio, responsável por fechar o placar em 3 a 0, fez coro ao eterno camisa 10, dizendo que a redução do ex-Maior do Mundo não sepultou a alma do Maracanã:
– É evolução, é o futuro e temos que acompanhar tudo isso aí. As pessoas buscam torcedores mais qualificados. Hoje tem canal de tv para ver em casa, no bar. Antigamente não tínhamos essas opções. As pessoas tinham que ir ao estádio se quisessem ver o jogo. Se não fosse ao estádio, só vendo o videoteipe (risos). O bom é que hoje é tudo na íntegra, tudo muito rápido. Nós temos de acompanhar a evolução.
Leandro e Adílio dizem que tri afirmou o Flamengo num momento de contestação
Apesar da avalanche de títulos conquistado pelo Fla entre 1978 e 1982, Leandro afirma que a dinastia rubro-negra chegou a ser colocada em questão durante o Brasileiro de 83.
– Na ocasião, o time se uniu muito. Já não tínhamos Tita (negociado com o Grêmio), Andrade e Lico (os últimos dois lesionados – ambos só jogaram nove dos 26 disputados pelo Flamengo). Achavam que o ciclo tinha acabado justamente num ano que o Zico já estava vendido e ninguém sabia. Ele estava se dedicando muito e a gente falava: “O Zico tá demais, treinando muito” – disse.
Adílio encara a conquista como a afirmação de si próprio e dos amigos, pois acreditava que tanto ele quanto outros rubro-negros mereciam ter sido convocados para a Copa de 1982:
– Valeu demais, até porque acredito que foi uma das melhores partidas que fiz pelo Flamengo. Fico até arrepiado quando falo desse jogo, me marcou muito. O Flamengo confirmou que tinha a melhor equipe do Brasil, jogando contra uma boa equipe do Santos. Para mim foi especial também porque não fui para a Copa e queria mostrar alguma coisa. Poderia ter ido à Copa de 78, mas disseram que eu era muito inexperiente. Em 82, já disseram que eu era experiente demais.Cabia para a gente uma Copa do Mundo. O Flamengo tinha o melhor time do Brasil. Foram só três do Flamengo (Leandro, Júnior e Zico) para a Copa de 82, dava para outros irem. O Andrade poderia ter ido, o Raul também e outros. Em 82, tinha que ser a base do Flamengo, assim como hoje o pessoal cogita a base do Corinthians. A gente jogava contra Corinthians, Inter, Atlético-MG e ganhava.
Despedida ‘secreta’ de Zico
Transferência que mais doeu no peito dos rubro-negros durante os 118 anos de história do Flamengo, a ida de Zico para a Udinese já estava acertada antes mesmo de terminar o Campeonato Brasileiro de 83. Leandro lembra que ninguém dentro do elenco sabia, mas o comportamento do Galinho nos treinos e jogos daquela campanha chamava atenção, segundo o ex-lateral.
– Era a despedida que o Zico tanto queria e a gente não sabia que ele tinha sido vendido. Sabíamos que o Zico já era muito dedicado, mas ele estava ainda mais. Pensávamos: “Parece que o Zico está dopado”.Mas era algo positivo, sabíamos que tinha algo de diferente e no bom sentido. Ele passou muita garra para a gente naquele campeonato e conseguiu a despedida que queria – afirmou, revelando satisfação com mais uma conquista de quem sempre teve como ídolo e que viraria seu grande amigo.
Zico confirma o sigilo da negociação. Em caso de quebra do mesmo, a negociação melaria. Nos dois primeiros gols do Flamengo, o craque realmente revelou um entusiasmo enorme. Ergueu os braços, vibrou e pegou a bola para adiantar a saída do Santos. E olha que o primeiro havia sido marcado aos 50 segundos. No segundo, depois de assistir Leandro, pulou em cima do companheiro e repetiu o ritual, correndo para o campo de defesa rubro-negro. Apesar do “sangue nos olhos” exibido, ele discorda que estava mais pilhado naquela competição embora reconheça que a despedida ideal pedia um título.
– Ninguém sabia (da venda), foi uma das minhas exigências. Falei que se saísse alguma coisa, eu não iria mais (para o Udinese). Não (perguntado se estava mais pilhado diante da necessidade de ser campeão na despedida). A gente tinha que ganhar porque não podia desperdiçar uma oportunidade daquelas, com um time daqueles. Lógico que depois que a minha negociação foi concretizada procurei dar algo a mais, porque seria importante sair campeão.
Fonte: GE

