Nas últimas semanas, vivemos o acirramento sem precedentes de algo que parecia esquecido: a rivalidade política. Apelações à parte, o engajamento provocado pelo segundo turno das eleições presidenciais é salutar a um país onde despolitização e ignorância são regra.
Qual a relação entre a disputa Aécio x Dilma e os assuntos geralmente abordados pelo Blog Teoria dos Jogos? Naturalmente, pesquisas. Depois de um primeiro semestre de amplo debate acerca das torcidas, o enfoque mudou. Em meio a percentuais, índices de rejeição e análises estado a estado, a verdade é que a metodologia das pesquisas eleitorais é basicamente a mesma verificada nas de torcida*. E mais: as discrepâncias entre pesquisas no segundo turno ocorrem por questões constantemente abordadas (e criticadas) neste espaço.
*O que diferencia tais pesquisas é a propensão a se modificarem escolhas quase que mediante a urna eleitoral. Dinâmica que explica por que institutos erram tanto durante as eleições.
Segundo Ibope e Datafolha, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) se encontram em rigoroso empate técnico. Após duas rodadas de pesquisas, ambos atestam Aécio com 45%, frente a 43% de Dilma (51% a 49% nos votos válidos). A última pesquisa Ibope ouviu 3.010 eleitores em 204 municípios, enquanto o Datafolha entrevistou 9.081 pessoas em 366 municípios.
Já o Instituto Sensus – em parceria com a revista Istoé – vem apresentando verdadeiros pontos fora da curva. Há uma semana, divulgou pesquisa com o tucano 17 pontos à frente. Ontem a dianteira se reduziu para a casa dos 13 pontos. A pesquisa foi realizada com 2.000 entrevistados em 136 municípios.
Por que tanta diferença? Embora isenções sejam questionadas numa disputa cada vez menos limpa, este não é o papel do Blog Teoria dos Jogos, pelo contrário. A análise aponta para algo tantas vezes verificado no debate das maiores torcidas: espaços amostrais mal delimitados que, embora corretos em seu perfil, refletem de maneira enviesada a realidade nacional.
Já virou um mantra do Blog: pesquisas descrevem, com maior ou menor fidelidade, o perfil da amostra. Se ela for nacional – o que requer interiorização e aumento de custos – tem-se uma fotografia das preferências do país. Se não, retratam-se tão somente as capitais, no máximo suas regiões metropolitanas. Uma clara questão de distribuição geográfica.
Ao visitar apenas 136 municípios, a pesquisa Istoé/Sensus enviesa a análise na direção das 63 regiões metropolitanas do país. Como o eleitor médio do PSDB se encontra nas classes mais ricas ou escolarizadas, sua candidatura é catapultada. Em direção oposta, Dilma – votada pelos mais pobres e sem instrução – cai. Não significa que a pesquisa esteja errada. O retrato das metrópoles pode ser fidedigno, acendendo o sinal amarelo na campanha de Aécio pela menor dianteira. O que não se pode é considerar a pesquisa Istoé/Sensus como nacional. Neste sentido, falha a revista ao expor os números sem esta ressalva.
Trata-se de algo relativamente parecido com as distribuições de Flamengo e Corinthians em território nacional. Rubro-Negros são mais espalhados e interiorizados. Já corintianos são equânimes, com leve tendência à concentração em capitais (pelo peso da cidade de São Paulo). Assim, toda vez que se pesquisam regiões metropolitanas, o alvinegro anula a vantagem carioca. Quando a amostra é maior – não apenas em número de entrevistados – o Fla volta a disparar na liderança.
Fonte: Teoria dos Jogos

