Quem viu a boa estreia de Anderson Pico pelo Flamengo, no último domingo, no Maracanã, não imaginou que o lateral-esquerdo foi a campo após uma noite mal dormida e tomado pela ansiedade. Isso porque tudo deu certo para o jogador de 25 anos, que há apenas três meses estava em casa, sem clube, pagando pelos seus próprios problemas de comportamento.
— Sem palavras. Teve uma parte do jogo (contra o Cruzeiro) que fiquei olhando para tudo quanto é lado como uma criança boba, sem saber onde estava. Mas muito feliz por acabar o jogo e ser reconhecido. Isso é muito importante para a gente que é atleta — disse Pico.
No Dia das Crianças, o lateral-esquerdo pôde dar o melhor presente para seu filho recém-nascido: o recomeço. Anderson Pico chegou ao Flamengo há dois meses bem acima do peso (ele já perdeu 13kg). Hoje, mais próximo da forma física ideal, ele agradece a Vanderlei Luxemburgo pela oportunidade dada.
Foi o técnico quem abriu as portas do Flamengo para ele. Os dois trabalharam juntos no Grêmio, clube que revelou o lateral. Sem um reserva para João Paulo, ele decidiu dar esta nova oportunidade após ler uma carta do jogador com um pedido de desculpas e por uma chance.
— Eu pensei que não voltaria a jogar numa equipe grande. (Vanderlei) Foi uma pessoa que me ajudou há um ano e meio num clube onde fui criado. Fiz muita coisa errada para ele, pedi desculpas e pedi uma oportunidade de trabalho no Rio, longe das coisas que me fizeram mal. E ele, sabendo das qualidades que eu tinha no Grêmio, me aceitou — contou o jogador.
Luxemburgo não esconde de ninguém que se decepcionou com Pico na primeira vez em que trabalharam juntos. Tanto que não faltam apelidos fazendo referência a seu comportamento: “fio desencapado”, “220w” e, o mais recente, “342”, algo que nem o próprio jogador soube explicar.
— Várias pessoas já vieram me perguntar. Não sei o que significa, mas deve ser coisa boa. Mas 220 eu sou dentro de campo. Esse sou eu mesmo, minha característica é essa — despistou.
Seja lá qual for o significado dos apelidos, fazem parte de um passado que Pico garante ter ficado para trás. Durante sua entrevista coletiva, dada no Ninho do Urubu, ele fez questão de falar o tempo todo da família, que agora vive com ele no Rio (em seus primeiro dias na cidade ele morou na casa de um amigo).
— Tenho um filho de 25 dias que não vi nascer porque estava aqui, buscando a oportunidade que ele me deu. Fiquei um mês sozinho no Rio trabalhando a parte física, sofrendo bastante. Mas eu agradeço a minha família (por ter suportado esse sofrimento).
Na próxima quarta-feira, contra o América-RN, ele nem mesmo estará no banco de reservas, já que não pôde ser inscrito na Copa do Brasil (chegou ao clube após o período de inscrição). João Paulo, que já está a disposição após ser desfalque por conta de uma dor na coxa direita, volta ao time. Mas a briga está armada na lateral esquerda. E, como um bom fio desencapado, Pico não vai fugir dela.
— O João Paulo está voltando, deve jogar. Mas vou fazer uma disputa sadia com ele. Depende do professor Vanderlei. Quando ele optar por mim vou estar pronto para suprir o que ele quer.
Fonte: Extra Globo

