Quatro dias atrás, durante a Convenção Global Soccerex 2014, o presidente Joseph Blatter afirmou a jornalistas que a FIFA pretende instituir no futebol o “Desafio Técnico”(Challenge Call). Assim como ocorre nos jogos de tênis, treinadores passariam a poder desafiar as decisões do juiz por uma ou duas vezes a cada tempo de jogo. Com a partida paralisada, a tecnologia entraria em campo visando esclarecer dúvidas acerca das decisões tomadas pelo trio de arbitragem.
Num primeiro momento, a medida aparenta ser um bem para o futebol. Implantada com sucesso outros esportes (como o futebol americano), o objetivo é nobre: acabar com injustiças que tanto pairam sobre o velho e violento esporte bretão. Ademais, a adoção de outras modernidades vem se mostrando um acerto. Foi o caso da “tecnologia da linha do gol” que, implantada na Copa do Mundo, validou um gol legítimo da França contra Honduras. A percepção do torcedor brasileiro vai ao encontro desta sensação: uma enquete do Esporte Espetacular aponta incríveis 77% dos votantes sendo favoráveis à adoção da tecnologia.
Confesso que me flagrei impelido a votar “Sim” na enquete. Quando fui acometido por um pensamento que mudou totalmente meu ponto de vista.
Chama atenção aos amantes dos outros esportes – em especial esportes norte-americanos – a obsessão que temos pelo “gol” no futebol. Trata-se de uma explosão de comemoração e festejos às raias da insanidade. E por que o gol é tão importante? Por sua raridade. Entre pontos, cestas e gols tão generosos em outros esportes, o futebol é o único cujos empates zerados não são nada raros, sem qualquer atitude para revertê-los. E se esta situação é frequente, partidas com uma das equipes em branco são ainda mais costumeiras. Eis o porquê da glorificação do momento máximo: você nunca sabe em quanto tempo comemorará outro gol de seu time. Pode realmente demorar.
A instituição do “Desafio Técnico” teria um efeito absolutamente nefasto: ser utilizado praticamente em todos os gols, buscando pequenos errinhos que possam invalidar o tento adversário. A não ser em situações de controvérsias recorrentes (como penalidades máximas), não consigo enxergar outro momento que fizesse tanto valer a pena a utilização do expediente. Faltas ou situações do tipo seriam “queimar desafio à toa”, já que a qualquer momento se poderia sofrer um gol perdendo a prerrogativa de questioná-lo. A administração da “estratégia dos desafios” se tornaria uma tática, assim como tempos técnicos no vôlei (“quebrar o ritmo” do adversário) ou as faltas no basquete (contar com erros no arremesso de lances livres).
O resultado é que a cada gol desafiado, a célebre comemoração de jogadores e torcedores iria para o lixo. Como quando se percebe, instantes depois, que um gol foi anulado por falta de ataque ou impedimento.
Será mesmo que devemos transformar o melhor momento do esporte num mero protocolo de espera, com base na fria confirmação de um concílio diante do monitor? É para se pensar, analisar e debater seriamente, tentando aprimorar ao máximo outras ferramentas à disposição.
Eu digo que não. O “Desafio Técnico” no futebol não vale a pena.
Fonte: Teoria dos Jogos

