Quando decidiu negociar com o Flamengo, que hoje enfrenta o Criciúma, em Santa Catarina, às 16h, Héctor Canteros surpreendeu na Argentina. Por que deixar o Vélez, pelo qual fora duas vezes campeão do Clausura, para se aventurar num time que flertava com a lanterna? Mas quem conhece sua trajetória sabe que é preciso mais do que um clube em crise para assustá-lo.
Ao chegar ao Flamengo, o argentino se deparou com a zona do rebaixamento, troca de técnico e um jogador agredido por torcedores. Um cenário que não chega perto do dia em que se jogou no chão quando uma partida foi interrompida por tiros.
— Eu jogava por dinheiro. Na Argentina acontece muito em jogos de um bairro contra outro. Num deles, houve discussão e começaram os tiros. Todos tiveram que se atirar no chão — recorda o volante, de 25 anos. — Uns se surpreendem, mas faz parte.
Tito, seu apelido, cresceu na Villa 17, ou La Pirelli, em Buenos Aires. Grosso modo, as vilas são as favelas argentinas. Com o futebol nas veias desde novo, se dividia entre as divisões de base dos clubes e as peladas. No chão de terra, aprimorou seu talento se desviando (ou levando) de pontapés maldosos:
— O que meu pai sempre diz, e me deixa tranquilo, é que, se alguma vez eu duvidar quando enfrentar algo, que olhe para de onde saí, para o que sofri e pelo que me fez mais forte. E me sinto muito mais orgulhoso.
Mas a experiência na Argentina não o impede de se surpreender por aqui. Uma de suas admirações é o convívio de torcidas diferentes muitas vezes sem forte aparato policial, o que em seu país é impensável. E mesmo tendo crescido entre as vilas, um emaranhado de casas e cores atraiu seu olhar.
— A Rocinha me surpreendeu. Gostaria de conhecer um lugar desses para saber como se vive lá. As pessoas às vezes se queixam muito e não veem que muita gente passa por coisa pior — explica.
Essa ideia resume a resposta para quem ainda questiona sua escolha. Em vez de mirar as dificuldades rubro-negras, ele prefere lembrar que está no país do futebol.
— O futebol me ensinou mais que o colégio. Ele me formou como jogador e pessoa. Não fosse jogador, não sei onde estaria — afirma.
Fonte: Extra Globo

