Presidente do Flamengo afirma que compromissos futuros estão “seriamente ameaçados”, rejeita ajuda do Governo e diz que a medida vai fortalecer o futebol argentino
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, voltou a atacar a Medida Provisória que proíbe as casas de apostas no Brasil. Em entrevista divulgada nesta segunda-feira (28) na FlamengoTV, o dirigente usou a contratação de Lucas Paquetá como exemplo dos compromissos que o clube pode ter dificuldade para honrar.
Além disso, Bap classificou a medida como “intempestiva e extemporânea“. O mandatário também criticou o momento da decisão, tomada a poucos dias do primeiro turno das eleições, e afirmou que o Flamengo não precisa de ajuda do Governo para pagar dívidas.
Em resumo, Bap cita contratos de longo prazo e fala em insegurança jurídica
O dirigente defendeu a conduta do clube e explicou por que a MP afeta o planejamento rubro-negro. Segundo Bap, o Flamengo assumiu obrigações com base em contratos legais e agora enxerga risco real de descumprimento:
“Tema que pegou todo mundo de surpresa e traz impactos materiais para o ecossistema do futebol, não só no Flamengo, como alguns tentam minimizar. Ao longo desse processo de mudança do Flamengo, fomos desenvolvendo uma sensibilidade de que não basta fazer, tem que ter transparência nos atos, explicar relações de causa e efeito. O Flamengo é um clube responsável, que faz tudo dentro da lei, é cumpridor de todas as obrigações.
Nós assumimos obrigações e compromissos de médio-longo prazo, fruto de contratos legais que nós celebramos. Temos respeito enorme pela credibilidade e reputação da gente. Ficou muito claro que uma série de compromissos futuros estão seriamente ameaçados. Vamos ter aí uma dificuldade enorme de cumprir, nos termos atuais, fruto dessa medida intempestiva e extemporânea que nós enfrentamos.”
Na sequência, Bap ampliou a crítica. Ele questionou a forma e o momento da proibição, citou o pagamento de Paquetá e previu perda de competitividade do futebol brasileiro:
“Causa insegurança jurídica, mas também causa estupefação, surpresa e preocupação para os que são responsáveis como o Flamengo. Isso foi discutido durante anos no Congresso Nacional, a sociedade toda envolvida. Em 80% dos países do mundo, o jogo controlado é permitido. Isso foi discutido amplamente no Brasil. Banimento unilateral, da forma que foi, no momento que foi, é muito difícil de entender a uma semana da eleição. Como vou pagar o Paquetá em janeiro?
Eu assumi um compromisso importante para o Flamengo, e tudo que o Flamengo faz é dentro da lei. Não precisamos de ajuda do Governo para pagar dívidas. Essa medida compromete as receitas do futuro. Afeta folha do futebol, contrações, pagamentos, esportes olímpicos. Os campeonatos regionais estão dizimados. Na Argentina estão celebrando isso. Vai enfraquecer o futebol brasileiro, e o futebol argentino ficará mais forte. Você não reduz o endividamento do brasileiro com essa decisão.”
Paquetá virou símbolo do impacto nas contas
A menção a Paquetá não surgiu agora. Em entrevista ao Poder360, na última sexta-feira (25), Bap já havia incluído a contratação do meia entre os compromissos assumidos com previsão de receitas do setor. O Flamengo trouxe o jogador do West Ham (GBR) com pagamento parcelado.
Naquele mesmo dia, o presidente projetou um prejuízo de até R$ 430 milhões ao Flamengo em 2027. Na ocasião, ele também admitiu que o clube não tinha plano B para substituir essa receita no curto prazo.
O principal risco envolve a camisa. A Betano sinalizou ao clube, de forma informal, a possibilidade de encerrar o patrocínio máster. O contrato prevê cerca de R$ 268 milhões por temporada e vai até o fim de 2028.
Flamengo recusa socorro e aposta na reação coletiva
A frase sobre a ajuda do Governo também tem contexto. Nos bastidores, clubes discutiram uma linha de crédito com juros reduzidos para amortecer as perdas. Entretanto, o BNDES descartou, por ora, a criação desse socorro financeiro.
Enquanto isso, a disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal. Nesta segunda-feira (28), o Sinafut pediu ao STF a suspensão da MP das Bets. Como alternativa, a entidade propõe uma transição que alcance pelo menos o fim da temporada de 2026.
Antes da MP, o Flamengo já havia se unido a outros clubes no manifesto “Fim do futebol”, publicado em 17 de setembro. O texto defendia a manutenção do mercado regulado de apostas.
O que muda com a MP das bets
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a medida na sexta-feira (25), em São Paulo. Publicada em edição extra do Diário Oficial da União, a MP entrou em vigor imediatamente.
Assim sendo, pelo cronograma de suspensão das casas de apostas, os usuários podem sacar os saldos até as 23h59 de 5 de outubro. Depois disso, as plataformas saem do ar. Portanto, o mesmo prazo vale para a retirada de marcas ligadas a contratos de patrocínio.
Contudo, a proibição ainda não é definitiva. O Congresso Nacional precisa votar a MP em até 120 dias para transformá-la em lei. Em resumo, até a noite desta segunda-feira, o ministro Luiz Fux não havia decidido sobre os pedidos de suspensão apresentados ao Supremo.
