Uma semana após a demissão inesperada e conturbada de Jayme de Almeida e Cantarelle, chegou a vez do auxiliar-técnico se pronunciar. De cabeça mais fria após oito dias do ocorrido, quando foi comunicado através de amigos e jornalistas de que não fazia mais parte dos planos da diretoria rubro-negra, o ex-goleiro do Flamengo, que mais vestiu a camisa do clube, desabafou em uma entrevista exclusiva à Super Rádio Tupi. Cantarelle comentou sobre o atual momento da equipe e a saída mal conduzida pelos gestores do futebol que optaram pela mudança no comando técnico e a chegada de Ney Franco.
Ainda magoado, Cantarelle afirmou que o resultado neste domingo, no Maracanã e a derrota para o São Paulo ainda são os resquícios da ‘panela de pressão’ que se tornou o Ninho do Urubu nos últimos dias até com a queda do diretor-executivo Paulo Pelaipe.
“Foi uma derrota por consequência de tudo que aconteceu nessa semana.Tanto o Jayme, Pelaipe e eu éramos queridos por todos lá. Isso agitou um pouco o ambiente. Mas acredito que o Flamengo é muito grande e pode dar a volta por cima”, frisou.
O ex-goleiro afirmou que se surpreendeu com o desempenho ruim do Flamengo já que a mudança de comando sempre traz um estímulo a mais aos jogadores para chamarem a atenção do treinador em busca de um lugar ao Sol na equipe.
“Qualquer mudança para o jogador é interessante já que abre uma possibilidade de briga por vaga. Eu não esperava essa derrota. Acreditava que o Flamengo iria vencer o São Paulo, no Maracanã. Agora é esfriar a cabeça e observar os erros na avaliação. Serão dois dias para arrumar o time e enfrentar o Bahia para tirá-lo da atual situação”
Segundo Cantarelle, a diretoria do Flamengo não deu o respaldo a antiga comissão técnica e tempo para reverter o quadro no início do Campeonato Brasileiro.
“Um dos motivos pelo qual fiquei chateado é que estávamos no início da competição mais longa do país. Qualquer vitória poderia nos colocar na parte de cima da tabela. Era muito cedo para nos assustarmos. No ano passado pegamos o time em um momento mais delicado do Brasileiro e tínhamos que ter cuidado. Mas agora aumentaram o tamanho do estrago. Tanto o Jayme como eu tínhamos liberdade. Éramos de casa. Não estou chateado apenas com o Bandeira (presidente) e o Wallim (vice de futebol). Estou chateado com a diretoria como um todo. Quando a notícia vazou, eles deveriam ter ligado para a gente e confirmado com um pedido de desculpas que não gostaríam que fosse dessa forma com o vazamento da informação. Eu jamais ficaria magoado dessa forma. O patrão pode mandar embora o empregado quando quiser. A forma como eles trataram o nosso afastamento é que nos magoou”, garantiu.
Cantarelle afirmou que a diretoria não respeitou a história que ele tem no clube com 557 partidas vestindo a camisa rubro-negra.
“Essa história que eu fiz e outros fizeram, eles não podem apagar. Isso me orgulha. Independentemente do que aconteceu, torço para esse clube, onde me formei como goleiro, preparador de goleiros e auxiliar-técnico. Espero que acertem o rumo o mais rápido possível. O Flamengo não merece isso. Acho que os dirigentes deveriam analisar mais a equipe. Eram oito jogadores machucados. O Jayme foi obrigado a improvisar. No ano passado, durante a Copa do Brasil, não necessitamos fazer qualquer improvisação. Será que o Jayme deu sorte ao ganhar a Copa do Brasil e o Carioca com outras equipes favoritas? Acho que a eliminação na Taça Libertadores teve um peso maior na cabeça desses caras para nos desligarem dos cargos.”
Ao contrário de Ney Franco que já admitiu que a diretoria precisa ficar atenta ao mercado internacional, Cantarelle garantiu que Jayme de Almeida jamais cobrou reforços mediante a palavra da diretoria que confirmava que o elenco não receberia novas peças devido a falta de investimento para contratações.
“Eles avisaram que esse seria o elenco. O Jayme jamais reclamou de reforços. Li que eles já mudaram o discurso e vão avaliar a necessidade da chegada de contratados. Nunca exigimos A, B ou C. Eles estão indo de encontro a tudo que passaram para a gente. É de se estranhar isso.
O auxiliar-técnico de Jayme de Almeida afirmou que apesar do momento dentro de campo não ser dos melhores, o clima internamente nunca atrapalhou o desempenho da equipe.
“Jayme e eu éramos abertos. O ambiente era bom. Sempre conversávamos e todos estavam sorrindo. Mas não vou falar de A, B ou C. Não dava liberdade para os jogadores quanto a intimidade. A partir do momento que um profissional passa a ser um comandante, você é obrigado a impor limites. Mas nossa relação sempre foi excelente. Agora de lá para cá só perguntando a eles.”
Cantarelle afirmou que o comunicado da diretoria sobre a demissão acabou acontecendo somente depois de Jayme de Almeida que recebeu uma ligação de Wallim Vasconcellos às 18h30.
“Só me ligaram às sete horas da noite (risos). Depois do Jayme de Almeida. Muitas pessoas me ligaram durante o dia, mas não sabia o que falar. Deixei até de atender porque vou falar a frase: não estou sabendo de nada. E assim, parecia que eu era um débio mental. O mundo em guerra e eu não sabia. Quando liguei o celular, tinha um recado do Wallim (Vasconcellos) às 19 horas me pedindo para entrar em contato. Conversei com ele e expliquei que não ficaria chateado com a decisão. O mundo não acaba. Em 1995, também fui demitido e a vida continuou. Trabalhei em outras equipes e vida que segue.”
Em casa com a família, Cantarelle afirmou que deseja seguir trabalhando com Jayme de Almeida e confirmou algumas sondagens de outros clubes.
“O Jayme entrou no mercado com a carência de técnicos. O futebol precisa de uma mudança. Os nossos treinadores precisam de uma reavaliação quanto ao trabalho dado e o esporte praticado. Sempre estudávamos muito. Conversávamos muito sobre o que acontecia na Europa, Ásia e no Brasil. O que estava sendo feito bem ou não. Tentamos uma outra forma de treinamento. Por isso, que o Flamengo conseguiu ganhar a Copa do Brasil e o Carioca. Foi uma coisa nova implantada.”
Por fim, Cantarelle que foi o preparador de goleiros de Felipe antes de receber a premiação para ser auxiliar-técnico afirmou que o arqueiro falhou no lance que originou o primeiro gol de Fred no Fla-Flu e explicou como foi a conversa após o jogo.
“Avisei pra ele que a pequena área é nossa casa. Não precisa machucar ninguém, mas era preciso intimidar o cara. A Copa do Mundo acontecerá daqui a um mês e o ele (Fred) jamais iria dividir a bola com você. E mesmo que dividisse, era para sair atropelando ele. Não precisava fazer pênalti. Eu nunca levaria um gol daquele. Porque na minha época, eu estava marcando o atacante. Nunca perderia a bola naquela ocasião. Falei com ele depois. Aquele gol marcou. O Felipe assumiu a culpa, mas gera consequência. Ele está pagando também por esse ato, pelo jogo e pelo atual momento da equipe”, finalizou.
Fonte: Rádio Tupi

