O Flamengo de 2012, com nomes como Ronaldinho Gaúcho, Vagner Love e o técnico Vanderlei Luxemburgo e uma alta folha salarial não vingou. No fim do ano, a política do clube tomou rumos completamente diferentes com a mudança de diretoria, e o Flamengo de 2013 ficou sem as suas principais estrelas, mas com a parte financeira melhor administrada e um elenco mais unido. Apesar das diferenças entre os times dos dois anos, uma coisa não mudou: Felipe continua sendo titular absoluto do gol rubro-negro.
Em entrevista exclusiva concedida ao ESPN.com.br, o camisa um flamenguista admitiu que a gestão do presidente Eduardo Bandeira de Mello, que venceu a eleição contra Patrícia Amorim, dá mais tranquilidade aos atletas e afeta diretamente no desempenho dentro de campo.
“Afeta de você saber que vai poder trabalhar tranquilo, que nos mês seguinte você vai receber. No Flamengo não tem mais aquele negócio de não saber quando vai pagar, de ir sempre empurrando para frente, depois que essa diretoria chegou”, afirmou.
Apesar de reconhecer que o “novo” Flamengo, sem uma estrela principal, tem menos problemas do que o do ano passado, Felipe também fez questão de negar qualquer atrito com Ronaldinho, que deixou o clube carioca e foi para o Atlético-MG após desentendimento com dirigentes e comissão técnica.
“Eu sempre falo com ele, nunca tive nenhum problema com ele. Acho que era o sonho de qualquer jogador estar atuando com ele, eu tive essa oportunidade de atuar com ele, tentei aproveitar ao máximo, conquistamos um título juntos”.
Durante a conversa com a reportagem no Ninho do Urubu, Felipe se mostrou à vontade para falar sobre diversos assuntos, sempre demonstrando personalidade e opinião firme. Apesar do mau desempenho da equipe na Taça Rio, depois de uma boa campanha na primeira fase Taça Guanabara, o goleiro aposta no trabalho do técnico Jorginho e garante que o Flamengo vai entrar no Campeonato Brasileiro para brigar pelo título.
A nova diretoria do Flamengo entrou com uma política de contenção de despesas para saldar as dívidas e honrar os compromissos financeiros do clube. De que forma isso afeta o desempenho dos jogadores dentro de campo?
Felipe – Afeta de você saber que vai poder trabalhar tranquilo, que nos mês seguinte você vai receber. No Flamengo não tem mais aquele negócio de não saber quando vai pagar, de ir sempre empurrando para frente, depois que essa diretoria chegou. Isso, querendo ou não, deixa o atleta e os funcionários mais tranquilos. A gente vê patrocínio chegando. Ano passado a gente não tinha perspectiva nenhuma, o Flamengo jogou praticamente o ano inteiro sem patrocínio máster. Esse ano o Flamengo já tem três patrocínios, chegou a Adidas… A gente vê que fora de campo as coisas estão caminhando bem, e dentro de campo naturalmente as coisas vão se refletir. Começaram a chegar atletas, e a gente escuta sempre que vão chegar mais atletas ainda. O atleta fica tranquilo, sabendo que o clube vai quitar as suas dívidas. O resultado vai vir, e a gente tem certeza que nesse ano o Flamengo vai surpreender.
Um dos afetados por essas medidas foi o técnico Dorival Júnior, que saiu por ganhar um salário alto. O que mudou na equipe com a chegada do Jorginho?
Cada treinador tem a sua filosofia. Primeiro [a demissão de Dorival Júnior] pegou a gente meio de surpresa. A gente vinha em um momento bom com o Dorival, com apenas duas derrotas [para o Botafogo, na semifinal da Taça Guanabara, e para o Resende, na estreia da Taça Rio]. Mas depois o Jorginho chegou e conseguiu impor o seu método se trabalho. A gente ficou muito tempo sem jogar, acabávamos jogando em um dia e depois jogando só 15 dias depois, então acabamos nos aproximando e conhecendo o Jorginho. Ele é um cara tranquilo, dá muito espaço para o atleta falar. É difícil você ver um treinador hoje fazer uma coisa dessas, dar espaço para a o atleta dar a sua opinião. Até os mais jovens têm essa abertura de chegar e dar uma opinião, isso deixa a gente tranquilo. Cada um tem o seu método de trabalho, mas o Jorginho hoje está deixando a gente muito feliz.
Os jogadores do Botafogo disseram que a vitória sobre o Flamengo na semifinal da Taça Guanabara foi um divisor de águas para o time, que arrancou para o título carioca. Vocês tinham a melhor campanha até então, esse jogo mudou o rumo de vocês no campeonato?
Para a gente foi também [um divisor de águas]. Foi totalmente o contrário do Botafogo. O Botafogo acabou tendo uma subida, e o nosso elenco acabou caindo. Quando o campeonato começou ninguém acreditava no elenco do Flamengo, por não ter tido nenhuma contratação de peso, eram só jogadores jovens. Mas a equipe se fechou e mostrou que tinha condições de conquistar a Taça Guanabara. Acho que a equipe sentiu muito aquela derrota. A gente não esperava perder. Estávamos bastante confiantes, as coisas estavam dando certo, e perder da forma que perdemos… A gente sentiu muito. A gente acabou perdendo logo o primeiro jogo da Taça Rio, depois teve a mudança de treinador, e mesmo assim a equipe continuou não jogando bem, continuou empatando, perdendo, ganhava outra. A equipe sentiu muito. Só a partir do jogo contra o Fluminense, já no final a Taça Rio, foi que a equipe começou a ter uma subida. De lá para cá permanecemos nessa subida. Foram sete ou oito vitórias seguidas depois do jogo contra o Fluminense. Ali foi o nosso divisor de águas pós-Carioca.
O grupo do Flamengo parece mais unido este ano em relação a 2012, sem problemas internos agora. Isso realmente está acontecendo? Por que?

É diferente, primeiro você não tem aquele atleta que vai toda a responsabilidade em cima. Quando tem um atleta acima da média, um jogador a nível de seleção, é normal nos momentos ruins, ou quando a fase não esta boa, as cosias serem sempre direcionadas a um atleta. Esse ano a gente está conseguindo dividir mais as responsabilidades, apesar de ser um grupo jovem. Chegou o Elias que está nos ajudando, o Renato voltou a jogar bem, tem o Léo Moura também, parece que são dois jovens. Então, não tem o foco em um só, isso deixa a gente mais tranquilo, apesar de ser jovem, é um grupo bastante fechado, unido, você não vê problemas, todo mundo se respeita. Tem aquela briga por posição, mas é briga somente dentro de campo, isso torna o grupo vencedor.
Esse atleta acima da média que você se refere é o Ronaldinho Gaúcho? Ano passado, você começou mais próximo dele e depois se afastou. Houve algum problema entre vocês?
Não sei por que foi criado que eu tive problemas com ele. Eu sempre falo com ele, nas férias a gente acabou se encontrando em Salvador, nunca tive nenhum problema com ele. Sempre que eu vejo eu falo, às vezes à gente se fala por mensagem, quando estou falando com algum amigo próximo e ele está junto, a gente se fala. Foi um cara que, acho que era o sonho de qualquer jogador estar atuando com ele. Eu tive essa oportunidade de atuar com ele, tentei aproveitar ao máximo, conquistamos um título juntos (Carioca de 2011). A gente sabe que o desempenho dele não foi somente aqui, teve problema dele com a diretoria, depois com o treinador, então, a gente ficou triste com a saída dele. Mas fica até feliz de ter atuado ao lado dele e ver que agora ele voltou a jogar em grande nível, é um atleta que todo mundo queria na sua equipe, esse Ronaldo agora.
E o Ronaldinho acabou ficando fora da seleção brasileira que vai disputar a Copa das Confederações…
A gente sabe que o treinador tem suas preferências, não cabe a mim falar, mas o torcedor brasileiro fica decepcionado em ver o que o Ronaldinho está jogando no Atlético e ele ficar de fora da seleção.
Com esse elenco atual do Flamengo, o time entra no Campeonato Brasileiro com qual objetivo?
O Flamengo, independentemente do elenco, se está forte ou se está fraco, se está em um momento bom ou ruim, qualquer campeonato que entra tem que pensar em ganhar. A gente sabe que o Campeonato Brasileiro é o mais forte do mundo, nos outros campeonatos você põe três ou quatro times no máximo como favoritos, no Brasileiro você pode pôr dez. A gente sabe que é um campeonato longo, complicado, muitas equipes estão com o elenco bastante reforçado, mas a gente também tem condições, a gente pode surpreender. Chegaram reforços, ainda está para chegar mais. A gente conta com o apoio do nosso torcedor, a gente sabe que o torcedor ainda está com um pé atrás por não ter esse atleta que chame as atenções, mas às vezes um grupo não precisa ter tantas estrelas para sair vencedor. A gente já teve a experiência do Flamengo de anos atrás de ter 11 craques em campo e não ter conquistado campeonato nenhum. Quem sabe com um time desse aqui, com poucos atletas conhecidos, a gente pode surpreender.
O que aconteceu exatamente na sua saída do Corinthians em 2010? Quais foram os problemas com a diretoria?
Muita coisa foi dita. Já passou. Acho que foi mal conduzido pelas duas partes. Eu tive meus erros, a diretoria teve os dela. Ficou muito aquele disse-me-disse, e no final das contas é mais fácil sobrar para um do que sobrar para todos. Acabou sobrando para mim. Mas muitos lá sabem que não foi da forma que foi passada. É uma coisa que eu evito até falar para não criar mais problemas. Já passou. Eu tenho muitos amigos ainda, converso com muita gente lá. Fico feliz pelo sucesso deles, mas agora eu me preocupo somente com o Flamengo. O que passou, passou.
Mesmo sem ter uma grande estrela, o Flamengo pode brigar pelo título brasileiro?
O Flamengo sempre tem que brigar por títulos, independente do momento e do elenco. A gente tem que entrar pensando em ganhar. O Campeonato Brasileiro é muito forte, você pode pôr de 10 a 12 equipes como favoritas. A gente tem que pensar um jogo de cada vez. Vamos enfrentar o Santos, que é uma grande equipe, tem o melhor jogador do futebol brasileiro. Então, começando um jogo desses com uma vitória, você já toma mais confiança para os jogos seguintes.
Fonte: ESPN