Vitória, São Caetano, Bragantino, Portuguesa, Corinthians, Braga e… Flamengo. Enfim em casa, o goleiro Felipe recebeu a reportagem do ESPN.com.br e falou sobre o sonho de se tornar ídolo do clube que tem no coração. Nem mesmo a possível concorrência do titular da seleção brasileira, Júlio César, que sonha em retornar à Gávea no futuro, incomoda o camisa 1, que tem contrato até dezembro de 2015.
“Não incomoda, não. Ele deu a entrevista, no meu modo de ver não falou nada de mais, até citou meu nome na entrevista. É um ídolo do clube, ganhou títulos aqui, é um goleiro de seleção. Isso motiva ainda mais para você treinar e mostrar que tem condições. Desde que eu cheguei aqui, em 2011, em um contrato de risco, empréstimo até dezembro, ninguém sabia se eu ia vingar ou não. Depois disso eu já renovei contrato até dezembro de 2015. Pretendo cumprir meu contrato, vou fazer o máximo para isso, para, quem sabe, no final de 2015 eu poder renovar. Quando eu cheguei ao Flamengo, eu falei que queria ficar bastante tempo, e meu sonho é esse, ser ídolo no clube, ganhar títulos importantes. Independentemente de um ou outro voltar para o Flamengo, pode saber que vai ter que lutar muito para poder assumir a vaga”, afirmou.
A postura polêmica, que levou Felipe a deletar uma conta no Twitter, também foi assunto na movimentada entrevista às margens de um dos campos do CT Ninho do Urubu. O goleiro garante que hoje está mais maduro, e comemora a distância dos problemas extra-campo.
E não ficou por aí: a breve experiência na Europa, os dramas pessoais com um caso de dengue e duas lesões em 2012, a relação com torcedores na noite carioca… Felipe, de fato, soltou o verbo. E o resultado desta conversa você, fã do esporte, confere a seguir.
Você teve uma responsabilidade grande quando chegou ao Flamengo, de ter de substituir um ídolo do clube, que é o Bruno. Fale um pouco sobre essa chegada.
Felipe – 2011 foi complicado. Principalmente no início, porque eu tive que assumir a vaga de um ídolo do clube, do capitão. Qualquer goleiro que chegasse de fora naquele momento – era o [Marcelo] Lomba que estava jogando – ia ter essa reponsabilidade dobrada por assumir a vaga de um ídolo. E para mim o Carioca, principalmente, foi especial, porque o Bruno tinha aquele negócio do pênalti, de sempre brilhar nas decisões e ganhar títulos com o Flamengo por pênaltis. A minha primeira decisão foi justamente contra o Botafogo, e eu pude defender dois. Depois contra o Fluminense eu defendi mais dois, fomos campeões cariocas invictos, eu tive uma grande participação. Então a partir dali o torcedor passou a ter confiança em mim, a acreditar que eu ia poder suprir a ausência do Bruno. Aquele ano foi muito importante por isso.
Em 2012 você teve alguns problemas, como o caso de dengue e algumas lesões, que te deixaram afastado dos campos. Fale um pouco sobre isso.
2012 foi complicado. Normalmente eu não tenho lesões, mas acabei tendo uma lesão no Carioca quando eu tomei um chute na cabeça e acabei tomando quatro pontos. Depois eu tive a dengue, o Paulo [Victor] acabou assumindo e jogando muito bem. O Joel optou por deixá-lo jogando, então eu tive que esperar. Foi um momento muito difícil para mim, porque eu nunca tinha ficado tanto tempo sem atuar. Graças a Deus, nas equipes por onde eu passei eu sempre fui o titular. Foi um momento complicado, em que eu até pensei em sair, porque eu quero sempre estar jogando. Eu tinha acabado de renovar contrato com o clube. Mas eu pude esperar, foram 15 jogos sem atuar, quase 3 meses. Depois da chegada do Dorival [Júnior] eu voltei a jogar, joguei quase o campeonato todo e no final eu tive a lesão de novo, que me deixou fora por 5 jogos.
E agora, em 2013? Qual foi o pensamento começando esse novo ano?
Nesse ano eu tive que vir com o pensamento de 2011, não de me reafirmar, mas de voltar a ter aquela confiança que eu tinha do elenco, da diretoria e dos torcedores. E até agora está correndo tudo bem.
Você é um cara conhecido por sempre falar o que pensa. Isso te levou, por exemplo, a cancelar a sua conta no Twitter, depois de algumas polêmicas. No fim das contas, essa sua postura de traz mais problemas ou coisas boas?
Falam que o atleta é todo certinho, fala os combinados, e se um atleta chega e fala uma coisa diferente já falam que ele é polêmico. As mesmas pessoas que falam que os jogadores só falam a mesma coisa são aquelas que falam que os atletas querem criar polêmica. Às vezes você fala o que você pensa, e você pode estar certo, mas nem sempre no futebol o que é certo é certo. Você pode estar correto, mas, dependendo do momento, ainda mais aqui no Flamengo, você pode acabar criando algum problema. Mas com o tempo a gente acaba aprendendo. Faz tempo que eu não tenho problema nenhum e eu espero continuar sem ter.
Quais são as diferenças do Felipe de hoje para aquele que se envolvia em polêmicas? Você se considera mais maduro?
A gente acaba aprendendo. Com o tempo você acaba ficando mais velho, você vai aprendendo. Você aprende que, quando você fala, você não fala só por si, você pode acabar comprometendo todo um grupo, todo um trabalho. Na hora é melhor dar aquela pensada, ou deixar para falar em um momento mais oportuno. Se não, você acaba taxado como polêmico. Às vezes quando acaba o jogo você chega e fala, ou numa entrevista você sabe que o repórter quer alguma coisa e ele fica te incitando até você falar. Nesse quesito eu aprendi muita coisa. Eu já errei muito e não quero errar mais, não.
O Júlio César, goleiro da seleção e ídolo do Flamengo, recentemente falou sobre a expectativa dele de retornar à Gávea no futuro. Como você, que hoje é o titular absoluto da posição, encara esse tipo de declaração? Isso incomoda de alguma forma?
Não incomoda, não. Ele deu a entrevista, no meu modo de ver não falou nada de mais, até citou meu nome na entrevista. É um ídolo do clube, ganhou títulos aqui, é um goleiro de seleção. Isso motiva ainda mais para você treinar e mostrar que tem condições. Desde que eu cheguei aqui, em 2011, em um contrato de risco, empréstimo até dezembro, ninguém sabia se eu ia vingar ou não. Depois disso eu já renovei contrato até dezembro de 2015. Pretendo cumprir meu contrato, vou fazer o máximo para isso, para, quem sabe, no final de 2015 eu poder renovar. Quando eu cheguei ao Flamengo, eu falei que queria ficar bastante tempo, e meu sonho é esse, ser ídolo no clube, ganhar títulos importantes. Independentemente de um ou outro voltar para o Flamengo, pode saber que vai ter que lutar muito para poder assumir a vaga.
Você citou esse sonho de ser ídolo. O que falta para você se consolidar nessa condição?
Acho que ganhar um título grande expressão. Ganhar o campeonato regional foi importante, ganhar de forma invicta é importante, eu sou o goleiro que mais tempo ficou sem perder na história do clube, acho que foram 25 jogos, isso é importante. Mas eu penso em ganhar um Brasileiro, uma Copa do Brasil, uma Libertadores, que o clube não ganha há muito tempo. Aí sim você pode entrar para a história. A gente sabe que falta muita coisa, mas eu penso que, nesses dois anos de contrato que faltam, eu ainda posso conquistar muita coisa, ainda mais com essa melhora que a gente está vendo no Flamengo fora de campo.
Você teve uma passagem rápida pela Europa, quando jogou no Braga, de Portugal. E essa presença de goleiros brasileiros no Velho Continente tem sido cada vez mais comum, diferentemente do que acontecia antigamente. Como você vê a situação do goleiro brasileiro na Europa?
Eu acho que o goleiro está tranquilo agora. A gente vê que o mercado europeu para o goleiro brasileiro mudou muito. A gente lembra do tempo que o Taffarel saiu, depois era o Dida só. O Dida acabou abrindo as portas para todo mundo, depois o Júlio [César] saiu… Você vê que em Portugal, principalmente as grandes equipes, o Porto e o Benfica, têm goleiros brasileiros. Na Inglaterra tem goleiro brasileiro, na Espanha tem goleiro brasileiro, na Itália tem goleiro brasileiro. Nos principais pontos hoje as grandes equipes têm goleiros brasileiros. Isso mostra que o Brasil está bem servido nessa posição. Antigamente você via muitos argentinos fora, a grande parte das equipes aqui da América do Sul tinha goleiros argentinos, e hoje são brasileiros. A gente fica feliz de ver tantos amigos de profissão se dando bem lá fora.
Fale um pouco mais sobre a sua passagem pelo Braga. Por que você ficou tão pouco tempo por lá? Foi uma experiência ruim, de alguma forma?
Foi uma coisa curta, foi uma coisa rápida, mas para mim foi bom ter essa experiência de jogar uma Champions League. O Braga nunca tinha disputado uma Liga dos Campeões, e a gente acabou conseguindo eliminar o Sevilla na fase de mata-mata [de classificação para a fase de grupos]. Depois a equipe fez 9 pontos e não se classificou, e nas outras chaves as equipes fazendo 7, 6, acabaram se classificando. Mas foi importante para mim. Foi uma coisa curta. Eu não tinha pensamento de sair ainda, mas quando eu tive o problema com o Corinthians eu tinha feito 7 jogos e não podia mais jogar o Brasileiro por nenhuma equipe. Eu tinha que jogar a Série B ou ficar encostado no Corinthians do jeito que estava, e para mim não era legal. Apareceu essa oportunidade de ir para o Braga, era um contrato de um ano. Eu acabei ficando 4 meses. Apareceu essa oportunidade do Flamengo de voltar e não teve como recusar. Todo mundo sabe que eu sou carioca, que eu sou flamenguista desde criança, e poder atuar no seu time do coração… eu não pensei duas vezes quando eu recebi a ligação, torci para que tudo desse certo e hoje eu estou aqui, feliz da vida.
Para encerrar: nós sabemos que os jogadores gostam de sair à noite para tomar uma cervejinha, se divertir, e isso é absolutamente normal. Mas, ainda assim, existe uma pressão da torcida, da imprensa, que fica muito em cima de vocês. Como você vê essa situação?
A gente sabe que tudo em excesso é ruim. É normal, o atleta, o jogador é uma pessoa igual a qualquer outra. Mas a gente sabe que a gente tem que lidar com a emoção do torcedor, com o sentimento do torcedor. Então, se a fase não é boa, se você gosta de tomar um chopp, um vinho, alguma cosia, seu time perdeu e você vai sair para fazer isso, mesmo que você esteja com a sua família jantando, um torcedor que pagou ingresso caro para ir ao estádio ver você ali depois… eu, sendo torcedor, ficaria chateado. Então a gente tem que evitar, principalmente quando a equipe perde ou empata ou não vive um bom momento, evitar locais onde tenha muita concentração de torcedores, porque acaba tendo discussão. O torcedor age com a emoção, e não com a razão. Eu vou ao shopping, eu vou ao cinema, eu vou a festas, mas a gente tenta evitar, principalmente em véspera de jogo. A gente só vai jogar no outro domingo [contra o Santos, pela estreia no Campeonato Brasileiro], hoje é sábado [dia 18 de maio, quando foi feita a entrevista], domingo é folga, dá para o cara dar uma saída, dar uma esticada a mais. Mas nada com muito excesso, para que depois na segunda ou na terça quando voltar os treinos você possa ter condições de treino.
Fonte: ESPN