Petkovic sobe as escadas da redação da ESPN Brasil no Rio de Janeiro calmamente. Camisa social branca, calça jeans escura, sapatos alinhados. Chegou uma hora antes do início do programa do qual participaria, ao vivo. É o novo Pet, agora longe do uniforme de jogador de futebol. Aos 40 anos, ele cumprimenta a todos e, em uma sala, senta para bebericar uma xícara de café. Puxa o celular do bolso, checa os e-mails e sorri.
Pet comenta com sua assessora que foi contactado para comercializar seu filme, “O Gringo”, mais uma vez.. De novo, ele bebe um gole de café. Gravador postado, ele conversa por quase 35 minutos com o ESPN.com.br. Na entrevista, o ídolo do Flamengo mostrou a velha forma: em frases às vezes salpicadas de doses de modéstia, admitiu que negociou com o clube rubro-negro para ser diretor executivo de futebol.
Após fazer um curso na Espanha, deseja seguir na profissão. Dono de restaurante no Brasil e academia em seu país natal, na Sérvia, estuda propostas. Mas nada o impede de analisar o momento da nova gestão rubro-negra, opinar sobre o futuro de Neymar, relembrar a despedida com a camisa 10 do Flamengo e comentar de forma animada sobre a mudança de atitude do amigo Adriano, à procura de um clube.
“Está visivelmente mais magro e a vontade de jogar agora existe, definitivamente. Depende dele”, disse o ex-meia.
Há 15 anos no Brasil, Dejan Petkovic já demonstra no português habilidade parecida com a que tinha nos pés. Adaptado ao país que adotou, já até se confunde ao comentar sobre a fase da seleção brasileira.
“Se essa base se entrosar, vamos ter uma seleção para longo prazo”, diz o ex-jogador.
Na subida para o estúdio, troca de roupa, veste camisa preta e blazer cinza. É o Pet. O novo Pet. Confira abaixo a entrevista na íntegra.
Como tem sido a rotina do Petkovic aposentado?
Tenho trabalhado bastante, viajado e procurado oportunidades como empresário. Tenho feito muitas coisas com minhas empresas e mesmo assim achando um tempinho para atender você e seus colegas da mídia. Está indo bem dentro do possível. Tenho a Petkovic10, restaurante, academia na Sérvia. Isso tudo e procurando emprego. São muitas obrigações e preciso trabalhar.
Acredita que se preparou bem para o pós-carreira?
Acho que me preparei muito bem. Fiz curso na Espanha, agora sou especialista em direção esportiva. Ano passado fizemos um evento maravilhoso (trazer o tenista sérvio Djokovic, então número um do mundo, para um amistoso no Brasil), que marcou a inclusão social bacana que teve uma repercussão importante.
Com a troca de diretoria no Flamengo, muito se falou que você foi um dos nomes cotados para assumir a direção de futebol. Houve conversa?
Houve antes das eleições. Foram contatos da turma da Chapa Azul e cogitaram isso depois de terem assumido. Mas optaram por outro cara.
Qual a razão de não ter evoluído?
Não tenho ideia.
O que acha do trabalho da nova diretoria?
A gestão está sendo muito séria e profissional. Fazendo coisas boas, fechando novos patrocínios, colocando a marca para frente. O Flamengo ficou muito tempo sem patrocínio master e já fecharam com a Caixa (Econômica Federal), tornaram a camisa mais cara do Brasil. Pelo menos essa parte está indo bastante bem. A gestão está agradando todo mundo ou a grande maioria. Não agrada todo mundo porque nem todo mundo quer coisa boa para o clube.
Todo mundo criticava desorganização, bagunça. Essa mudança de filosofia lhe impressionou?
Bagunça falavam dentro do Flamengo. De fora falavam que era desorganzação, falta de comprometimento, gestão profissional. O clube está melhorando, sendo transparente, aberto e fazendo comunicações aos sócios de todas ações que estão sendo feitas e concluídas.
E quanto à questão esportiva?
Não está das melhores. Agora colocando o clube profissional com certeza vai ajudar o lado técnico, a vitrine mais importante do clube. A tendência é melhorar.
Você disse que viaja muito, vai à Europa. Como os europeus vêem a seleção brasileira às vésperas da Copa das Confederações? O que você acha sobre a convocação de Felipão?
(A seleção) está sendo muito cobrada. Felipão tem crédito, já ganhou uma Copa. Logicamente está sendo uma mudança. Até que essa convocação me agrada, pela média de idade. Se der certo a gente vai ficar tranquilo para o futuro. Se essa base conseguir se entrosar em longo prazo vamos ter uma seleção. Na Copa das Confederações as expectativas não podem ser grandes, ainda falta entrosamento. Mas no ano que vem é cobrança para valer e tem de mostrar serviço. Pela média de idade a seleção vai ter a base de não só atuar ano que vem, mas na próxima Copa, na Rússia.
A falta de medalhões como Ronaldinho e Kaká pode pesar?
Para mim foi muito mais surpresa a ausência do Kaká do que do Ronaldinho. Ronaldinho teve duas convocações e não estava bem na seleção. Kaká fez gol, jogou bem quando foi chamado. Felipão está olhando o que precisa dentro do grupo, quem corresponde. A fase do Ronaldinho no Atlético é boa, ninguém pode dizer que não é. O Atlético está jogando muito, está cotado como favorito da Libertadores, ganhou do São Paulo fácil, do Cruzeiro. Mas por outro lado a convocação do Bernard não foi surpresa. O moleque está jogando muito! Mas convocação nunca agrada ninguém.
Muita gente lamenta que o camisa 9 poderia ser o Adriano se ele estivesse em forma…
Poderia ser o Adriano o 9. Poderia o Ronaldinho ser o camisa 10, o Kaká o número 8, o Ronaldo Fenômeno jogar. Mas chega o momento que por conta das lesões não jogam mais. Se ele voltar a jogar, ainda tem um ano inteiro. Se voltar a ser o Imperador, não duvido que o Felipão convoque. Temos agora no ataque um jogador que já há alguns anos mostra o serviço direito. Fred faz a diferença no Fluminense. Acho que ele está aí com toda a credibilidade e merece estar na seleção para ser o número 9. Ele merece totalmente.
Mas em relação ao Adriano, você mantém contato?
Sim, sempre. A gente se fala, ele aparece no meu restaurante quase toda semana. Está melhor, mais magro. Está se cuidando mais, treinando. Parece que está se recuperando. Vontade dele de voltar a jogar já existe, definitivamente. Eu que sou amigo dele, critico abertamente porque sou mais velho e ele confia em mim. Agora ele está mostrando isso. Há uns quatro meses, no final do ano passado ele estava já parado. Antes do carnaval não estava com condições ideiais. Estava mais gordo. Nos últimos dois meses emagreceu, visivelmente está mais magro e quer voltar a jogar. São fases, ele teve muitas dificuldades, teve lesão no momento errado. Ele infelizmente teve problemas particulares, que a gente lamenta, entende, mas não pode consentir no lado profissional. Só depende dele. Um garotinho de 20 você consegue mudar. Um de 30, não. E aparentemente ele está querendo voltar a jogar.
Sobre o Neymar, qual a sua opinião? Deve ir para a Europa? Seria bom para a seleção brasileira?
Para a seleção brasileira é excelente. Por quê não seria bom? Em todos os sentidos seria muito bom. Você jogaria contra os seus adversários, que amanhã vai enfrentar na Copa do Mundo. Já estaria em outro tipo de clima, adaptado ao tipo de profissionalismo. Sairia dos holofotes aqui que são muitos comerciais. Ele caiu na Produção S.A. É uma nova experiência que só pode fortalecê-lo com o trabalho ao lado de outros craques, ver o comportamento deles. E também descobrir fraquezas e virtudes que pode passar para a seleção. Ele ia crescer como jogador profissional. É bom para ele sair, bom para a seleção, bom para o Santos porque vai faturar. Se ele tem de sair, agora é o momento. Eu lamento que ele vá para o Barcelona, né? (risos).
Acredita que ele possa ter desempenho tão destacado também na Europa?
Recebo essa pergunta o tempo todo dos europeus, espanhois, meus amigos. Será que aqui ele vai jogar isso? Falo para eles que claro que sim. Ele vai estar do lado de companheiros tão bons quanto ele. No Santos não tem tantos bons. São garotos, o time depende muito dele. No Barcelona não vai depende só do Neymar, do Messi. do Iniesta. Tem divisão. Se todos estiverem num bom dia, com jogada individual, acho que ele via jogar muito bem. Se via jogar de imediato bem, nem Messi jogou. Na idade que Neymar jogou por aqui e foi um cracaço, Messi não fazia tudo isso lá. Na seleção demorou ainda mais para ser o Messi. Na seleção brasileira, falamos sempre que o titular indiscutível é Neymar, com 19, 20 anos. Para ele seria muito bom sair mesmo.
Voltando ao Flamengo, você teve o reconhecimento naquele último jogo…
Reconhecimento de quem?
Da torcida, não?
Reconhecimento da torcida, sim. Isso sempre teve. Naquele jogo de despedida, quem fez aquela festa foi a Petkovic10, a minha empresa. Lógico que contou com ajuda de torcidas. O Flamengo se limitou a deixar fazer. Quem abriu possibilidade foi o Vanderlei Luxemburgo. Abriu a possibilidade, me preparei, joguei, recebi uma placa de homenagem do Flamengo e agradeço. A despedida foi maravilhosa, muito bem organizada. A torcida fez aquela coisa que ficou na história, na memória. Agradeço e a torcida do Flamengo é diferenciada.
Mas ficou mágoa no período em que você foi afastado pelo Vanderlei Luxemburgo e ficou quase seis meses apenas treinando?
Isso você ultrapassa. Acontece. Cumpri minhas obrigações. Terminei no Flamengo, com pé direito, foi maravilhoso. Muitos lamentaram que encerrei antecipadamente a carreira, fui o melhor do jogo. Às vezes é melhor assim, se retirar com o gosto de que poderia dar algo a mais. Com certeza poderia dar. Agora não. Agora já passaram dois anos. Posso dar, mas do outro lado. Não dentro das quatro linhas.
Além do Flamengo, recebeu ofertas para ser diretor em outros clubes?
Nenhuma coisa tão encaminhada quanto o Flamengo. Esperava acontecer, não aconteceu. Estou aberto para outras propostas. Claro que queria fazer esse tipo de trabalho. Teve sondagens para ser técnico, mas eu não quis ser, esperando que isso (ser diretor do Flamengo) acontecesse. Em caso de mudança na gerência do Flamengo, eu poderia assumir. Quem sabe no futuro. Estou aberto para outros convites. Quero fazer, tenho formação para isso e toda capacidade. Conheço futebol brasileiro há muito tempo, estou há 15 anos aqui. Conheço o futebol europeu. Vamos ver se vai pintar.
Acredita que essa bagagem com jogador de futebol pode agregar muito para que se torne um bom diretor executivo de futebol?
Acho que vai me ajudar muito. Tenho mais experiência, mais bagagens de outros clubes e outros países do que meus colegas. Falo cinco idiomas, aprendi muito com os professores, treinadores, tanto que querem que eu seja um treinador. Fui fazer um curso na Espanha, na Federação Espanhola de Futebol, de formação de diretor técnico. Aprendi muito. Tenho algo a mais do que aqueles de quem quero ser o futuro colega deles. Além de conhecer muita gente e ser muito mais respeitado. Mas também tenho a personalidade forte, digo o que deve ser dito. Não tenho muito jogo de cintura em algumas coisas que são totalmente erradas. Quando tem ideia boa e intenção boa, todo mundo erra. Eu errei muito e vou errar. Mas com intenções ruins não concordo.
Como seria o Pet diretor de futebol?
Muito profissional como sempre fui quando jogador. Muito aberto com o papo, para ter feedback. Vocêm tem de lidar com muita coisa. Seu trabalho exige isso. Lidar com comissão técnica, elenco, seus colaboradores, scout. Você é subordinado, tem vice-presidente. Tem colegas que são diretores de marketing, diretor financeiro. Tem de montar um planejamento em conjunto. Tem a imprensa, agente de jogador, investidor. É uma gama muito ampla que você tem de aprender a lidar.
Teme ter a imagem desgastada em caso de algum momento de insucesso na nova função?
Eu fui ídolo como jogador e teve desgaste. Tudo faz parte e eu venci sempre. Sempre foi difícil, ultrapassando as barreiras demonstrando serviço e lealdade. O caráter sempre era coerente. Não tenho medo de fazer outra coisa que me sinto totalmente confiante. É importante você saber que sabe lidar com os demais. Eu tinha minha superioridade como jogador e usava em prol da equipe. Você tem de saber em que se apoiar. Eu sempre soube.
Fonte: ESPN

