Mano fala sobre reforços e habilidade em formar jogadores vindos do interior.

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Deve ser essa a cara do Flamengo agora, de imediato?

Já está sendo. Essa é a maior dificuldade de o torcedor entender. Como ele se acostumou a ver jogadores renomados vestindo a camisa do seu clube, junto com jogadores feitos em casa, porque o Flamengo tem esse histórico na composição de sua equipes vencedoras, nesses ele reconhece uma possibilidade um pouco maior. Com os outros nós vamos ter que construir essa confiança. Pode ter certeza de que num curto espaço de tempo alguns deles vão começar a aparecer e conquistar o carinho do torcedor e lá na frente nós teremos um Flamengo forte sem dúvida nenhuma.

Quais as posições em que você mais precisa de um grande jogador hoje?

Isso é segredo de estado (risos). Não é bom adiantar, quando está procurando fechar negociações, que você quer um lateral ou um zagueiro ou um atacante. Porque isso inflaciona muito o mercado, chovem sugestões, e você não as encontra assim. Você precisa direcionar bem. O Flamengo não tem uma grande capacidade de investimento nesse momento. Todo mundo sabe. Se você torna isso público, entra numa concorrência com os outros clubes. Como eles estão numa condição melhor que a nossa momentaneamente, podemos perder essa concorrência. Então, isso é segredo de estado. Se contratarmos, devemos fazê-lo, nesse primeiro momento, numa quantidade pequena, mas certamente já com jogadores com um perfil mais reconhecido. Nós temos muitos jogadores jovens. E eles precisam dessa referência. E o torcedor também precisa dessa referência. E o adversário tem que enxergar no nosso time essa referência.

A maior queixa da torcida é a defesa. A defesa do Flamengo ultimamente era muito vulnerável. Foi a principal deficiência que você viu no time?

Existe uma diferença entre ser vulnerável e não ter qualidade. Defesa depende muito de posicionamento. Defender é uma arte, eu disse isso aos jogadores, que requer uma série de fundamentos. E um deles, o principal deles, é posicionamento. Uma defesa mal posicionada certamente vai ser vulnerável. Zagueiro não foi feito para correr atrás de atacante. Se o fizer, vai dar uma possibilidade muito grande de ser batido. Porque o atacante geralmente é alguém mais rápido, muito habilidoso. Os atacantes brasileiros são muito habilidosos. Se você expõe um zagueiro a ficar correndo atrás de um atacante, ele vai sofrer muito. Então, os meus zagueiros jogam posicionados. E, para eles jogarem posicionados, temos que ter um complemento disso, que é o posicionamento dos dois laterais e dos dois volantes. Principalmente dos dois laterais, num país onde a gente joga muito lateral batendo com outro lateral e aí fazendo o zagueiro fazer a cobertura para os lados. Principalmente coberturas longe do seu setor defensivo. Quando você obriga o zagueiro a ficar fazendo isso, ele sofre muito. Ele é um atleta de 1 metro e oitenta e pouco, 1,90m, 1,95m. Não é feito para ficar correndo longas distâncias atrás de um atacante veloz. Você expõe ele a um desgaste físico muito grande. Sua recuperação nem sempre é a mesma. Sua velocidade nem sempre é a mesma. E logicamente ele vai ser batido mais vezes. Então, posicionando todo o sistema defensivo certamente todos os zagueiros vão crescer. Não tenha dúvida disso. O fato de querermos qualificar um setor ou não, não significa que a gente não veja no plantel qualidade para evoluir. É apenas uma questão de estágio. Você quer que isso aconteça mais rápido. Então, para ser mais rápido, você vai buscar um jogador e acrescenta qualidade ao setor.

Então o combinado com a diretoria foi esse? Se for para ter reforço agora, serão nomes de peso?

Vamos ver, vamos ver. Eu não sou o tipo de técnico que fica ligando a cada 30 minutos para o seu diretor executivo ou para o vice de futebol dizendo: temos que contratar, cadê o nome? Porque eu sei como isso funciona. Não é fácil fazer negociações. Precisa ter calma, encontrar o nome certo para direcionar essa negociação. Também não vou ficar dando entrevista dizendo: olha, com esse time não dá pra ir muito longe. Não acho que seja correto fazer isso. Temos que tratar essas coisas internamente. E acredito que dessa forma, com essa lealdade, com essa transparência, vamos ter mais respeito interno. E com mais respeito interno todo mundo sai ganhando.

Mas foi combinado?

Foi, foi combinado.

No Corinthians você teve o Paulinho vindo do Bragantino, que hoje é seleção brasileira. O Ralf, que também não era um grande jogador e se tornou. O próprio Leandro Castán… Você fez um time forte com jogadores que ainda não eram conhecidos.

É, o futebol exige isso. De períodos em períodos você precisa oxigenar a folha de pagamento. E oxigenar a folha é o seguinte: você faz com que alguns jogadores mais renomados, que merecidamente já conseguiram salários mais altos, que sigam a sua vida, a sua carreira. E você traz novos jogadores que ainda têm toda essa trajetória para construir. Você não só cuida da parte financeira, como cuida do apetite do time. Você precisa ter vontade de ganhar. Quando você ganha muito, às vezes essa vontade diminui um pouco. Você já se realizou profissionalmente. Então, precisa procurar outros profissionais que venham com essa sede de vitória e mesclar com aqueles que você já tem. Antes desses jogadores citados, a gente construiu o primeiro Corinthians, que tinha o Elias, que veio da Ponte Preta, fomos buscar o André Santos no Figueirense, o Chicão no Figueirense. Eram clubes menores, mas com jogadores que tinham que vencer dessa forma. Fomos buscar Herrera, que não era tão reconhecido, tinha uma passagem pelo Grêmio. Douglas, fomos buscar no São Caetano. É assim que funciona o futebol. Você precisa ter uma rede de observação muito boa. É lá que estão os jogadores que vão surgir para o futebol brasileiro. Eles estão nos clubes menores e ainda não têm um reconhecimento nacional. Alguns deles não vão conseguir virar. Você contrata quatro, cinco jogadores, e dois conseguem se firmar como um todo. Três talvez não. Mas o primeiro estágio é assim mesmo.

Você estava até brincando…. Parece que você tem uma energia positiva com o nome Paulinho. No Corinthians teve o Paulinho, hoje na Seleção, e agora um dos destaque do Flamengo é o garoto Paulinho, que já caiu nas graças da torcida e está jogando bem, né?

É… O Paulinho é um jogador que veio do interior, um dos que o Flamengo contratou e que está nesse grupo que se tem confiança, mas que ainda são jogadores promissores e que precisam confirmar essa condição num clube com a grandeza do Flamengo. E que nos primeiros momentos vem se destacando mais. É assim. Alguns se destacam mais de forma mais rápida. Outros demoram um pouco mais nessa adaptação. Depende muito de cada atleta. E a gente vai ficar muito contente se outros vierem junto com o Paulinho. Porque a gente precisa fazê-los crescer nessa hora. Ainda bem que já está acontecendo com um deles.


Carlos Eduardo: outro jogador que a torcida do Flamengo cobra muito, que foi um investimento alto, que ainda não rendeu o esperado. E com você ele chegou à seleção brasileira e foi bem. O que acha que aconteceu com o Carlos Eduardo até agora no Flamengo e o que pode acontecer?

O sentimento de frustração ou de realização está ligado diretamente à expectativa que se cria sobre um jogador. E quando o Carlos Eduardo foi contratado, se criou uma expectativa muito grande. Exatamente porque ele mostrou no passado que poderia ser esse jogador. Vem de um período longo, teve uma lesão que o afastou por bastante tempo. Vai começar a render bem certamente porque é um jogador com capacidade para isso. Mas existe uma necessidade de você ter uma equipe boa para as individualidades se sobressaírem. O caso dele e de outros jogadores. Quando tivermos uma equipe boa, constante, capaz de passar segurança, ele e outros jogadores vão crescer.



Um assunto mais delicado: a saída do Renato Abreu foi sua decisão ou não?

Minha posição sobre a questão do Renato foi bastante clara. A direção tinha conhecimento de algumas situações que haviam acontecido ainda quando o Jorginho era o treinador. E que julgavam que não eram administráveis. Que tinham sido graves. De relacionamento, de disciplina. O assunto foi abordado comigo. Eu deixei bastante claro o seguinte: ou a direção fazia o que tinha que fazer antes de eu assumir o grupo ou, a partir do momento que eu assumisse o grupo, ia valer o que acontecesse a partir daquele momento. Um técnico não pode chegar num clube e demitir um jogador pelo que ele fez com outro técnico. Não é serio isso, não é correto. Então eu não faria. Se eu assumisse com o Renato, a relação dele comigo ia contar a partir daquele momento. Mas a direção do Flamengo entendeu que o que havia acontecido era muito grave e que não poderia ter continuidade.

Não pode falar o que foi?

Não, eu não estive presente. A direção sabe o que aconteceu. E não seria muito correto da minha parte comentar uma coisa em  que não estive. 


Desde que você chegou ao Flamengo, fala muito em organização tática. É tão importante quanto talento individual para um time?

Só é importante. Não é mais possível com talento individual você ter grandes conquistas. Certamente ele vai ser importante num momento de igualdade, num momento que a individualidade deve sobressair. Mas, para ela conseguir fazer isso, para o jogador conseguir usar o talento individual de forma decisiva, a equipe precisa estar organizada taticamente, sem dúvida.

Você só trabalhou isso até agora, mais forte?

Não é possível trabalhar o futebol em compartimentos. Você trabalha o futebol de uma forma geral. Você pode, em determinados momentos, considerar isso prioritário e aí trabalha mais isso. Mas não é possível deixar de trabalhar a confiança em paralelo, porque o jogador vai tomar decisão. Não é possível não trabalhar tomada de decisão, porque vai recair sobre esse momento a parte crucial do jogo. Você passa as informações, mas o jogador decide na hora H. E ele precisa estar preparado para isso. Precisa ter conhecimento, estar confiante, ter a cabeça boa. Não pode mais trabalhar a parte física separada. É desnecessário. Você precisa estar muito bem fisicamente para não prejudicar o trabalho. Então, trabalha-se tudo de forma conjunta. Mas você prioriza algumas questões. E neste momento eu priorizei a parte tática porque julgo ser fundamental.

Fonte: GE


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