A sugestão revela as contradições de um clube que precisa olhar para a Série B para se proteger da queda. Entre os desesperados e aqueles que se mostram confiantes para o desfecho da temporada, a ameaça não é igual para todos. Um dos líderes do grupo que chegou ao poder, Wallim Vasconcellos perdeu o direito de ser o candidato à presidência por questões estatutárias, mas ganhou a vice-presidência de futebol. Quase dez meses depois, a vitrine que reforçava seu prestígio virou alvo de protestos. Braço da gestão que conserva certo distanciamento da rotina no Ninho do Urubu, Paulo Pelaipe se tornou um dilema para Wallim.
Embora o executivo tenha de ser cobrado pelos maus resultados, ceder às pressões pela sua saída é reconhecer o erro da escolha inicial. Passadas as eleições, em que o projeto de saneamento e profissionalização teve adesão maciça dentro e fora da Gávea, a atual diretoria cultiva um certo isolamento estratégico. Depois de anunciar uma era de transparência, ao expor detalhes da dívida rubro-negra, já há quem veja o clube repetir velhas práticas, ao manter o futebol inviolável como uma caixa preta. Sem acesso às informações, presidentes dos demais conselhos já começam a manisfestar a insatisfação em conversas reservadas. Externamente, o projeto já não exerce o mesmo fascínio, a julgar pela saída de Mano e pela impossibilidade de convencer Abel.
A questão política vai além das vaidades e brigas domésticas, porque mexe na base de sustentação de um grupo que rompeu com o modelo antigo e se lançou no desconhecido em busca da estabilidade. Se o clube pode dar um passo atrás para ir mais longe em seguida, a diretoria ainda não se mostrou disposta a recuar. A primeira mudança pode vir da necessidade de não mexer. A opção doméstica é um forma de conter gastos e o desgaste por expectativas não atingidas numa temporada em que o time já teve quatro técnicos, contando com Jayme. Seguindo a ordem alfabética da agenda de treinadores, Andrade é o próximo candidato ao cargo. Sempre que procura por nomes e modelos de gestão vindos de fora, o Flamengo se esquece que a solução pode estar dentro de casa.
Fonte: O Globo