Faltam apenas 15 rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro, que tem o Cruzeiro como provável campeão. Curiosamente, o time mineiro não tem o artilheiro da competição nem sequer alguém próximo da artilharia, hoje liderada por Éderson (Atlético-PR), com 13 gols. Vejam, senhoras e senhores, já foram disputadas 23 rodadas, o goleador tem apenas 13 gols e não pertence ao líder nem ao vice-líder, Botafogo. Preocupante, grave e uma prova do que venho escrevendo e dizendo há tempos: nosso futebol está na lama em todos os quesitos, só não enxerga quem não quer ou não tem interesse em enxergar.
Lembram-se do Galo vice-campeão invicto em 1977 por uma dessas aberrações dos nossos regulamentos? Pois é, naquela competição, que só terminou em 1978, com o São Paulo campeão, numa das maiores injustiças do futebol, o artilheiro foi ninguém menos do que Reinaldo, o maior centroavante que vi jogar. Os 28 gols em apenas 18 jogos ainda lhe dão a maior média da competição. Ele era genial e fazia gol de tudo que é jeito. Aliás, alguns dignos de placa, como aquele contra o América-RN (foto), em que deixou um zagueiro caído com um drible de corpo e cobriu o goleiro adversário com leve toque. Bons tempos!
Lembro-me também do Flamengo campeão brasileiro em 1980 e 1982, e Zico sendo o artilheiro em ambos com 21 gols. Normalmente o time campeão ou vice tinha também o goleador. Quem não se recorda do Vasco de 1997? Aquele time, comandado por Edmundo, encantou os amantes do futebol. E sabem quantos gols o artilheiro fez? Nada menos que 29. Ele marcou de todas as maneiras e honrou a condição de jogador com maior número de gols em uma edição do Brasileiro. Só não superou a média de Reinaldo. Na época, os treinadores ganhavam bem menos e produziam bem mais, punham seus times para a frente, em busca de gols, e priorizavam os camisas 9.
Em um campeonato de 38 rodadas, termos na 23ª um artilheiro com apenas 13 gols soa como piada. Comprova a incapacidade dos técnicos atuais, que recebem fortunas para mandar marcar, dar porrada e se fechar na retranca. Perceberam que já estamos quase no fim do ano e Celso Roth não recebeu uma proposta sequer? E ainda tinha gente que defendia esse enganador. Como ele, há muitos por aí ganhando R$ 400 mil, R$ 500 mil, R$ 700 mil mensais. E sabem por que os dirigentes pagam? Porque os clubes não são deles, que não têm a menor responsabilidade fiscal. Há clubes que pagam a três técnicos no mesmo ano, por má gestão e demissões em excesso. Um descalabro, vergonha nacional.
Fico vendo em alguns programas de TV companheiros enaltecendo o trabalho de enganadores de plantão. Apontem-me qual treinador mostrou algo novo nos últimos cinco anos, que vou embora. O que vemos são esquemas repetidos, sem brilho, qualidade ou organização tática. Por isso, não temos mais artilheiros. Os técnicos não se preocupam em treinar fundamentos básicos: passe, cabeceio, chute a gol e por aí afora. Querem mais é enganar a imprensa, com discursos prontos e frases feitas. Também, há cada pergunta idiota de coleguinhas… Aliás, outro dia disse a Rodrigo Paiva, diretor de Comunicação Social da CBF, que depois da quinta pergunta em coletiva não há nada que se aproveite. Tem gente que indaga se o treinador ficou satisfeito com a vitória. É demais para nossos ouvidos. Voltando aos técnicos, a culpa maior não é deles, mas de quem os contrata: os dirigentes.
Viram como é um círculo vicioso? O dirigente gasta uma fortuna que não lhe pertence e contrata um enganador, cheio de frases de efeito, que não sabe dar um treino sequer. Este, por sua vez, monta um time para o gasto, sem aspirações de conquistas, e no fim do ano vai enganar em outro centro. Por isso não temos mais artilheiros como no passado. Por essas e outras o líder do Brasileirão não tem o dono da artilharia e nem sequer está perto dela. Precisamos repensar o futebol brasileiro em todos os níveis, sob pena de o esporte mais popular do país cair no vazio, sem credibilidade.
De vez em quando, vou aos clubes acompanhar os treinamentos e percebo a falta de interesse dos treinadores. É treinamento da chamada “bola parada”, que alguns até proíbem as TVs de filmarem, como se fosse jogada antológica. É aquela chatice de todos os dias, e ao fim de duas horas nada vemos de novo. Também não há quem cobre. A maioria dos dirigentes nunca deu um chute na bola e não sabe mesmo como funciona. O que o treinador disser está dito, e pronto. E assim caminha o futebol brasileiro, para o fundo do poço, entalado em dívidas, sem a menor responsabilidade fiscal de seus gestores. Os jogadores, por sua vez, querem mais é ver a conta engordar no fim do mês. O atacante ganha R$ 200 mil, R$ 300 mil, R$ 400 mil para fazer minguados seis gols numa competição nacional. Muito pouco para tanto luxo.
Fonte: Super Esportes