Mano Menezes tinha tudo nas mãos: tempo para preparar o Flamengo, chance de escolher os jogadores de confiança, o respaldo da diretoria para um trabalho de longo prazo e uma torcida que voltou a acompanhar os jogos do clube em casa, no velho-novo Maracanã.
São condições que apenas uma minoria dos técnicos brasileiros consegue ter. Mano Menezes atingiu essa classe pelos trabalhos com Grêmio e Corinthians. Alçado ao posto de técnico da seleção, teve o trabalho questionado por um tempo, mas a maior parte da opinião pública esteve com ele no ato de sua demissão.
Mano Menezes esperou seis meses para acertar com um clube. Se você se considera um técnico de primeiro escalão, não é qualquer proposta que o fará sair de casa, certo? E foi esse o ponto de vista que expôs à PLACAR na edição passada, quando pontuou as escolhas de elenco e de trabalho.
Portanto, a decisão tomada pelo treinador na quinta-feira, 19 de setembro, depois da derrota sofrida por 4 x 2 para o Atlético-PR no Maracanã, pegou a todos de surpresa. Inclusive o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, e seu vice, Wallim Vasconcellos.
Wallim Vasconcelos, VP do Flamengo
“Bastava falar: ‘olha, recebi a proposta tal’. Masassim, sem conversar, sem olho no olho?”
O gaúcho não quis dar respostas à decisão pelo desligamento do clube. Mandou apenas uma mensagem de texto para o presidente. Não fez nem sequer uma ligação telefônica para explicá-la. Fez o que, infelizmente, tem virado moda: um “pronunciamento” depois da derrota sacramentada e da decisão tomada ainda nos vestiários. Nenhuma abertura para perguntas e questionamentos. Mano não quis responder.
Ao não dar essas respostas, o ex-técnico da seleção abriu margem para as especulações. Estaria interessado em repentinas trocas de comando no Corinthians ou no Inter, clubes com que mantém bons contatos e onde os treinadores teoricamente correm riscos? Ou foi a festa promovida pelo meia Carlos Eduardo, na semana da demissão, com o posterior acidente de carro de André Santos, que o fez ficar irritado com o grupo a ponto de abandonar o barco?
Ficou guardado apenas na cabeça do treinador o motivo da decisão. Sábia? Impossível determinar. Mano não quis manchar seu currículo com um trabalho ruim no Flamengo. Na 23ª rodada, o clube estava a 3 pontos da zona da degola — o rubro-negro é um dos quatro grandes que ainda não visitaram a série B.
Se a lógica de Mano Menezes era essa, desde aquela quinta-feira no Maracanã ele trocou a confiança que tinha do torcedor pelo pior dos sentimentos: o rancor. Mano ficará para a história do Flamengo como um capitão que abandonou um barco afundando e em movimento. Nem sempre salvar a própria pele é a mais corajosa das decisões.
Fonte: Placar

