Passada a euforia pela reinauguração do Maracanã, e muito por conta da má fase vivida, pouco a pouco clubes do Rio viram o despencar de suas médias de público – fato aqui relatado na coluna “O problema não era o Engenhão”. Ato contínuo, as diretorias de Fluminense (num primeiro momento) e Flamengo (posteriormente) modificaram o mais antigo instrumento econômico conhecido: o preço. Com os ingressos em queda, a reação das torcidas foi positiva e imediata.
À resposta dada pela demanda a alterações no preço de um bem ou serviço, denomina-se elasticidade-preço da demanda. Este elemento foi analisado no Blog Teoria dos Jogos no início deste ano, após confrontos entre Flamengo e Botafogo no Campeonato Carioca. Tratavam-se de majorações no preço, tendo como reação natural a queda nas quantidades. Aqui, o contrário: caíram os preços, gerando o verificado aumento no público presente ao Maracanã.
Fica a pergunta: em que medida se deu a resposta das torcidas de Fluminense e Flamengo aos descontos concedidos?
A solução passa pela aplicação da fórmula da elasticidade-preço:
Ep = ΔQ/ΔP x P/Q – (Valores em módulo – ignoram-se sinais negativos)
Elasticidades entre 0 e 1 presumem demandas inelásticas, ou seja, que respondem menos que proporcionalmente à redução (ou aumento) do preço. Acima de 1, representa-se uma demanda elástica: a queda no preço aumentará intensivamente a procura por ingressos. Gêneros de primeira necessidade costumam apresentar demanda inelástica, enquanto bens supérfluos teriam demanda elástica.
FLUMINENSE
O jogo imediatamente anterior aos descontos foi:
Fluminense 0 x 2 Santos (31/08, sábado, 21:00 hs)
Renda: R$ 230.740,00
Público pagante: 8.136
Ticket Médio: R$ 28,36
Em crise, o preço baixou e as respostas se deram na seguinte magnitude:
Fluminense 1 x 0 Bahia (07/09, sábado, 18:30)
Renda: R$ 340.370,00
Público pagante: 20.374
Ticket Médio: R$ 16,70
Aplicando a fórmula:
∆Q/∆P * P/Q
Ep(Flu) = 20.374-8.136/16,70-28,36 * 28,36/8.136
Ep(Flu) = 12.238/11,66 * 28,36/8.136
Ep(Flu) = 3,65
A elasticidade muito superior à unitária denota excelente resposta da torcida tricolor. De fato, a queda de 41% no preço do ingresso (de R$ 28 para R$ 16) resultou em aumento de 150% no número de tricolores (de 8.136 para 20.374)
FLAMENGO
Seguindo o roteiro-padrão, a última partida antes da promoção foi uma sonora (e surpreendente) derrota como mandante:
Flamengo 2 x 4 Atlético-PR (19/09, quarta, 19:30)
Renda: R$ 675.745,00
Público pagante: 16.014
Ticket médio: R$ 42,19
A ameaça de rebaixamento gerou necessidade de apoio e levou à redução nos preços:
Flamengo 4 x 1 Criciúma (29/09, domingo, 16:00)
Renda: R$ 988.450,00
Público Pagante: 31.894
Ticket Médio: R$ 30,99
Novamente à fórmula:
∆Q/∆P * P/Q
Ep(Fla) = 31.894-16.014/30,99-42,19 * 42,19/16.014
Ep(Fla) = 15.880/11,2 * 42,19/16.014
Ep(Fla) = 3,73
Percebam que a resposta da torcida rubro-negra foi ligeiramente superior à do Fluminense. Mesmo que o percentual de flamenguistas tenha aumentado menos (99% contra 150%), a redução do preço foi ainda menos acentuada (26% frente a 41% do Flu). Na proporção, o Fla baixou menos e ganhou mais, razão pela qual sua elasticidade foi superior (3,73 contra 3,65)*. Mas a verdade é que as respostas foram parecidíssimas, denotando verdadeira propensão do torcedor carioca ao comparecimento mediante descontos.
*Na prática, a comparação de um jogo quarta-feira com outro domingo beneficia o Flamengo, já que jogos de fim de semana atraem melhor público. De todo modo, os jogos do Flu (ambos aos sábados) tiveram diferença no horário, sendo o segundo (18:30) bem mais atrativo que o primeiro (21 hs).
Os resultados do Fla, quando comparados aos do clássico contra o Botafogo, tiveram resultado inverso. Lá, a torcida reagiu com inelasticidade ao aumento de preço. Aqui, foi bastante elástica à redução. Em suma, a torcida apresentou comportamento característico de fidelidade, reagindo bem ao desconto e não tão mal à majoração.
É importante ter em mente que o conceito de elasticidade-preço da demanda não é estático, podendo apresentar diferenças de acordo com a direção tomada pelo vetor de preços ou a fase dos clubes. Na reta final de torneios muito importantes (como a Libertadores) é até possível que se verifique uma demanda com características de perfeita inelasticidade – quando, a qualquer nível de preços, a quantidade vendida pouco ou nada varia.
E O SÃO PAULO…?
Sendo o Tricolor Paulista o primeiro a se utilizar do expediente (ainda na 14ª rodada do Brasileirão), nada mais justo que analisá-lo também.
Partida anterior à promoção:
São Paulo 0 x 1 Internacional (24/07, quarta, 21:00)
Renda: R$ 163.900,00
Público pagante: 6.275
Ticket Médio: R$ 26,11
Primeira partida com ingresso mínimo a R$ 2:
São Paulo 1 x 1 Atlético-PR (15/08, quinta, 19:30)
Renda: R$ 269.012,00
Público pagante: 25.827
Ticket Médio: R$ 10,41
À fórmula:
Ep(SPFC) = ∆Q/∆P * P/Q
Ep(SPFC) = 25.827 – 6.275/10,41-26,11 * 26,11/6.275
Ep(SPFC) = 19.552/15,7 * 26,11/6.275
Ep(SPFC) = 5,18
Temos, portanto, a reação mais enérgica de uma torcida à redução de preços neste campeonato. De fato, a considerável queda de 61% nos ingressos precedeu um não menos espantoso aumento de 311% na presença ao Morumbi – que se manteve e intensificou nas rodadas seguintes. Culminando, por ora, na saída do clube da zona de rebaixamento.
Fonte: Blog Teoria dos Jogos