Menos de 24 horas depois de renunciar ao cargo de vice-presidente de remo do Flamengo, através de um comunicado oficial na noite de segunda-feira, José Maria Sobrinho conversou com o GLOBOESPORTE.COM e falou sobre os motivos que o fizeram desistir de seguir à frente da modalidade, especialmente em uma semana importante para o clube. No próximo fim de semana, a equipe rubro-negra disputa o Campeonato Brasileiro, na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Sobrinho fez duras críticas à atual diretoria, que, na sua visão, discrimina os esportes olímpicos e só pensa no futebol. Para ele, sua renúncia, e a visibilidade que ela ganhará, pode ajudar o remo do clube, que deve começar a ter seus ordenados pagos em dia.
– É uma forma de protesto. Essa minha saída foi pensada. Me sacrifiquei pelo remo do Flamengo. Tenho certeza que vão acabar pagando os atrasados e mudando o critério do pagamento com a minha saída. Isso já compensa. Tem que pressionar mesmo. Eles argumentavam que não tinham dinheiro, mas não é verdade. Os funcionários, executivos, contratados e prestadores de serviços estão com seus salários em dia, enquanto os atletas não recebem há cinco meses. A folha salarial do clube é de R$ 6,5 milhões, e o remo não custa nem 3% disso. O montante mensal gira por volta de R$ 160 mil, sendo que temos as duas melhores atletas brasileiras, que são a Fabiana Beltrame e a Bia Tavares, de 18 anos, que estará nas próximas Olimpíadas. Esse é o motivo principal da minha saída. Essa diretoria discrimina determinados vice-presidentes e causa um ambiente de desagrado, fofoca e discórdia. Ela foi eleita de maneira expressiva, mas está fazendo de tudo para construir uma oposição forte para se juntar contra ela. Não há diálogo. Nenhuma questão é discutida – desabafou José Maria Sobrinho.
O veto à chegada do remador argentino Santiago Fernándes, duas vezes medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro (2007) e de Guadalajara (2011), e de Thiago Almeida também não foram digeridos por José Maria Sobrinho, que é categórico ao dizer que conseguiu, junto com dois associados, o pagamento integral da despesa do hermano, sem nenhum tipo de ônus para o Flamengo.
– Outro motivo que me irritou é o fato que não há sensibilidade. Por mais paradoxal que possa parecer, o (Campeonato) Brasileiro, que vai acontecer neste sábado e domingo, pela maneira como foi feita a programação com 11 provas masculinas e nove femininas, nos deu grandes chances de um título que seria muito importante para o clube. Nossa equipe feminina é muito forte, quase imbatível, e temos chances de vencermos sete provas. Se conseguirmos mais duas ou três vitórias no masculino, ganhamos. Trouxemos o Thiago Almeida, que estava no Espírito Santo, e contatamos o Santiago Fernández, grande atleta, que foi da equipe do Flamengo em 2012. Nós devemos três meses de salários para ele, mas conversamos e fechamos um pacote para ele disputar duas provas (o single skiff e o 8 Com) e, se ganhasse, receberia uma bonificação. Eu e outros dois sócios bancamos a vinda desse cara, mas a diretoria, através do Rodrigo Tostes e do Paulo Dutra, não concordou. Em um campeonato duríssimo com esse, nós tínhamos a certeza de que faríamos dez pontos nessas duas provas e agora vamos fazer zero, já que não temos competidores inscritos. As chances ficaram muito reduzidas, prejudicadas – reclamou Sobrinho, que considera a equipe masculina do clube bastante fragilizada em relação ao grande rival pelo título, o Botafogo.
Enquanto concedia entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, na tarde desta terça-feira, Sobrinho ainda procurava uma maneira de informar ao argentino que sua transferência para o Rio de Janeiro teria de ser cancelada.
– Eu até agora não tive coragem de dizer para ele não vir. A passagem dele já está comprada e tirada, mas estou arranjando uma forma de informá-lo sobre o que foi decidido – confessou constrangido.
A alegação da diretoria, segundo Sobrinho, é de que os atletas não aceitariam a contratação do argentino, mesmo com recursos de fora do clube.
– Não sei exatamente quais foram. Ouvi que uma delas seria que os atletas ficariam insatisfeitos – relatou.
Questionado como os remadores do clube lidaram com a sua renúncia, o ex-vice surpreendeu ao dizer que os atletas reagiram de maneira “indiferente ou, até mesmo, contente”, admitindo uma divisão interna pela chegada do remador. Entretanto, ele acredita que convenceu boa parte do elenco de que a ideia ajudaria a todos, incluindo a renomada Fabiana Beltrame.
– Eles estão indiferentes ou, até mesmo, contentes. Isso porque banquei a vinda do argentino para cá. Mas acredito que tenha sido uma reação inicial dos atletas. Depois expliquei que não tem nada a ver, que isso traria mais visibilidade. A própria Fabiana Beltrame era contra no começo, mas acho que mudou de ideia, pois é uma pessoa inteligente – disse.
A tensão e a decepção com a diretoria do clube nessa semana em nada vai tirar o prazer do ex-vice de ir à competição no próximo fim de semana torcer para o clube do coração, principalmente após a iminente perda do Carioca para o Alvinegro de General Severiano.
– Flamengo acima de tudo. Será muito importante o Flamengo ganhar o Campeonato Brasileiro de remo depois do fracasso do Carioca, que foi um fracasso, pois o Flamengo tem que ganhar sempre. De qualquer formar, eu reconheço que o Botafogo fez um trabalho muito bom, sério e competente. Mereceu a vitória – declarou Sobrinho, admitindo a derrota no Estadual, mesmo com uma regata ainda por vir.
Caso seja aprovado na reunião do conselho deliberativo desta terça-feira um empréstimo financeiro, o Flamengo deve pagar, ainda nesta semana, um mês de salário atrasado da modalidade.
Beltrame lamenta demissão de diretor técnico, mas admite esforços de Sobrinho
Remadora mais famosa do Flamengo e número um no ranking nacional, Fabiana Beltrame opinou sobre o tema. Abordada sobre o posicionamento dos companheiros no caso Santiago Fernández, a campeão mundial no skiff simples, em Bled, na Eslovênia, em 2011, afirmou ser contra a chegada do argentino e ainda revelou tristeza pela demissão do diretor técnico, Edson Figueiredo, demitido por Sobrinho.
– Nós, atletas, já esperávamos isso devido a alguns problemas que vinham acontecendo. O clima está tranquilo. Tivemos uma reunião hoje. O Sobrinho alegava que tinha conseguido dinheiro por fora, mas mesmo assim a gente não concordava. Por causa disso, ele afastou o diretor técnico Edson Figueiredo. Acho que isso foi a gota d’água. Hoje, estamos sem técnico. Depois, nós acreditarmos que (a contratação de Santiago Fernández) não faria diferença para o campeonato.
Mesmo não concordando com algumas ações do ex-vice de remo, Fabiana enalteceu a luta de Sobrinho para solucionar o problema no atraso de salários.
– Apesar disso, o Sobrinho era um cara que lutava para que os atletas recebessem em dia – completou.
Sem querer entrar em atrito com José Maria Sobrinho, o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Melo, explicou o motivo do veto à chegada de Santiago Fernández. Para o mandatário rubro-negro, em tempos de autossustentabilidade dos esportes olímpicos, não há mais espaço para medidas paliativas.
– O José Maria Sobrinho é um rubro-negro antigo e muito respeitado. Tenho grande respeito pelos grandes serviços prestados por ele ao clube, mas é claro que não concordo com o fato que haja algum tipo de discriminação nem a ele, nem ao remo. São visões diferentes. Não gostaria de depreciar o trabalho dele, mas preferimos fazer uma mudança e trazer o (Marcelo) Vido, que assumiu a pasta e é uma pessoa com uma sensibilidade na área de gestão de esportes olímpicos, provando isso quando exerceu a função no Minas Tênis Clube. A gente sentiu a necessidade de adotar o mesmo conceito de profissionalização, de buscar recursos providos das leis de incentivo fiscal, que também vai beneficiar ao remo. Ele está coberto de boas intenções, mas entendemos que não cabe mais este tipo de ação voluntarista de sócios para suprir a carência que o clube vem tendo no momento. Entendemos que não seria produtivo e nem um bom exemplo adotar uma medida paliativa. Sem contar que isso (a decisão do veto) foi um anseio dos atletas, que pediram para a contratação desse atleta não se concretizar – ponderou o presidente do Flamengo.
Fonte: GE