No dia 30 de abril de 2013, nada menos do que 1.730 pessoas se tornaram sócias do Club de Regatas Vasco da Gama. Um recorde absoluto: em apenas um dia, houve mais gente que em todos os outros meses do ano juntos. O mês de abril trouxe 3.026 novos associados para o clube. A avalanche tem motivo: nos bastidores de São Januário, a eleição presidencial de 2014 já começou.
O problema é que alguns desses novos sócios nem mesmo sabiam que haviam se filiado ao clube. Outros recusaram cobranças em seus nomes. A adesão em massa aponta na direção das campanhas de dois dos candidatos de oposição – o ex-presidente Eurico Miranda e o ex-vereador e ex-líder de torcida Roberto Monteiro – cujas campanhas estariam promovendo a avalanche de associações e regularizações (veja ao fim do texto infográfico que explica as atuais correntes políticas do clube). Ex-aliado de Eurico, o grande benemérito Otávio Gomes diz que o motivo de novos sócios é um só:
– O Vasco hoje tem mensalão.
O que o benemérito chama de mensalão seria o pagamento de mensalidades por terceiros em troca de votos na futura eleição presidencial. Otávio Gomes, que disse ter recebido uma tentativa de intimidação recente na sede do Calabouço, por conta das denúncias, aponta o dedo na direção de Eurico e do ex-vice de futebol José Luis Moreira:
– Eu tomei conhecimento de que o José Luis Moreira, que realmente já ajudou o Vasco e tem dinheiro para receber, saiu do Olaria para investir na eleição. O Vasco tem inversão de valores. O cara foi vice-presidente do Vasco, depois foi para o Olaria, Eurico era consultor, e eles rebaixaram o Olaria. E querem voltar para o Vasco. Muitos pipocam no Vasco para o Eurico. Acha que eu, com 72 anos, durante dois anos fui presidente de escola de samba, conheço a vida, vou pipocar? Eu não sou mentiroso.
As últimas eleições no clube têm sido marcadas por denúncias e acusações. O conflito entre os grupos de Eurico e Roberto Dinamite (o antigo MUV – Movimento Unido Vascaíno, que se dividiu depois de eleito) é antigo. Em 2011, o Casaca!, grupo político de Eurico Miranda, fez diversas acusações à gestão do programa de sócios – mostrando carteiras sem foto, além da adesão de associados sem sobrenome ou CPF. Desta vez, ao que parece, não vai ser diferente.
O vice-presidente geral e de comunicações do clube, Antônio Peralta, admite que a entrada de associados nos últimos dias de abril foi “anormal” e que o motivo eleitoral existe:
– Notoriamente, as pessoas fizeram isso (avalanche de associações) para poder ter votos. Como você impede isso? Não sei como. Se uma pessoa só chega com a papelada de 50 ou 100 sócios e paga por eles, como não vou admitir se temos um programa de sócios ativo? – perguntou Peralta. – Agora, se encontrarmos falhas, ele não vai ser admitido depois.
Em entrevista por telefone, o ex-presidente Eurico Miranda disse que não paga mensalidades:
– O sujeito, para ingressar no quadro social de um clube, para ser sócio, tem que assinar uma proposta. Ninguém entra para ser sócio sem assinar essa proposta. Eu não comecei campanha nenhuma. Eu respondo por mim. Agora, se há pessoas que estão dispostas a pagar as mensalidades de três, quatro, cinco pessoas, não vejo irregularidade nenhuma nisso – disse o ex-presidente.
O estatuto do Vasco não prevê nem faz qualquer menção a pagamento de mensalidades realizados por outras pessoas. O documento do clube, no entanto, no artigo 81, inciso 1º, diz que compete ao Conselho Deliberativo deliberar a respeito de “reformar este Estatuto e dar interpretação com força de lei, às obscuridades ou indecisões do mesmo, resolvendo, assim, todos os casos omissos”.
Nos primeiros meses deste ano, incluindo a época da enxurrada de abril, novas associações eram feitas exclusivamente na secretaria de São Januário. A oposição reclamou que o clube havia fechado as portas para novos associados – algo que foi negado pela diretoria. No dia 27 de maio, o site do programa de sócios voltou a aceitar adesões, depois da implantação de novo sistema, migrando da questionada empresa anterior Jeff Sports para a Microtag, a mesma companhia que havia acionado o clube judicialmente por quebra de contrato em 2009 e, em razão disso, recebe hoje um percentual de cada nova mensalidade como indenização.
Se for mantido o calendário eleitoral de 2011, os sócios que entraram depois da volta das adesões ao site teoricamente não podem votar no pleito do ano que vem. Dos 471 novos sócios de maio, 316 aderiram pelo site nos últimos cinco dias do mês.
Para ser sócio e ter direito a voto nas eleições do Vasco, é necessário estar adimplente – pagando mensalidades mínimas de R$ 30, arcar com R$ 100 de adesão e R$ 15 da carteirinha. Logo, o novo associado paga pelo menos R$ 145 de imediato. Para regularização, o sócio geral antigo que está inadimplente paga R$ 100 e as mensalidades desse mês em diante. Caso fique três meses sem pagar a mensalidade, o sócio perde direito a voto.
Os 1.730 associados do dia 30 de abril trouxeram pelo menos R$ 250.850 para os cofres vascaínos. A secretaria, onde são feitas as novas associações, é uma pequena sala com dois postos de trabalho que fica aberta das 9h às 18h. Isso significa que, para filiar 1.730 pessoas num só dia, os funcionários do clube precisariam ter atendido 3,2 pessoas por minuto ininterruptamente durante as nove horas de expediente. O GLOBOESPORTE.COM acompanhou um processo de filiação e, mesmo com o formulário já preenchido, o atendimento básico de cada novo sócio exige, no mínimo, cinco minutos.
Fonte: GE