Logo após a classificação para a final da Copa do Brasil, Jayme de Almeida lembrou do amigo Andrade e resolveu citá-lo na sala de entrevistas do Maracanã. Ainda sob o calor da vitória sobre o Goiás por 2 a 1 que colocou o Flamengo de novo em uma decisão nacional, o técnico rubro-negro lembrou que considera o Tromba, apelido de ex-volante entre os amigos de Flamengo, injustiçado por estar à parte da elite nacional dos técnicos.
Andrade sai em defesa de Jayme no Flamengo: “A hora é dele.”
Quatro meses após ser campeão brasileiro em 2009, Andrade acabou demitido pela então presidente Patricia Amorim e nunca mais voltou para a elite do futebol brasileiro. Ainda em recuperação de uma cirurgia no joelho, o volante recebeu a reportagem do ESPN.com.br um dia após a homenagem de Jayme. Sem deixar esconder mágoa por não ter tido convites para dirigir clubes de elite, Andrade revelou ter se emocionado com o apoio do amigo.
Em retribuição, saiu em defesa do velho companheiro que vive agora a mesma situação encarada por ele no fim de 2009.
“Vão falar de Guardiola, de Mourinho. O Flamengo é assim. Mas a hora é do Jayme”, disse Andrade.
Confira a entrevista.
Qual o motivo de técnicos com raízes rubro-negras terem quase sempre sucesso na história do clube?
Acho que pelo fato de você conhecer tudo, todos os cantinhos da Gávea, do Ninho. A lavanderia, o bar, a piscina. Isso ajuda muito, tudo tem muita influência. E o fato de você estar ali no dia a dia o trabalho dos treinadores que passaram. Foi o meu caso, é o caso do Jayme agora. Quando o Mano saiu, ele já sabia. E você sabe os erros que foram cometidos. Você não tem tempo para perder, sabe que não deu certo. E quando você está por fora, já tem algumas ideias na cabeça. Se o cara for fazer isso, eu faria aquilo. Quando o treinador dá a brecha de falar, você fala. Mas não são todos. Aí você fica com aquilo para você e põe em prática quando tem oportunidade.
Talvez tenha a ver a lidar melhor com o vestiário, falar a linguagem do jogador?
Nós que jogamos uma vida toda, eu e Jayme, você sabe o que o jogador gosta de ouvir. Não gosta de palavra muito complicada. É a forma mais simples possível. Não gosta de conversa muito longa, fica uma coisa chata para o jogador. Tem de buscar ser o mais simples e objetivo naquilo que você quer. Falar difícil, palavras rebuscadas….o jogador não se atenta para isso. No Flamengo vem muita coisa de fora e acaba abalando o grupo.
E você consegue entender o porquê de os técnicos pratas da casa não terem o mesmo sucesso fora do clube? Por que o mercado não faz a aposta?
O próprio clube não nos valorizou. Eles gostam muito de valorizar quem chega. Flamengo sempre foi assim. Daqui a pouco vai se falar muito em Guardiola, em Mourinho. Mas não valorizam os pratas da casa, os que deveriam ter valor. Teve o Carpegiani, o Carlinhos, eu, o Jayme, que veio por acaso. Não adianta dizer que acertaram. Não acertaram nada, foi por acaso, E por que não valorizar o Jayme? Agora é o momento do Jayme. Daqui a pouco quer buscar treinador de ponta, de seleção. Valoriza os outros, mas também os pratas da casa
Qual dica você daria ao Jayme para lidar com esse momento?
Eu não tenho essa dica de “faça isso, Jayme”. Se eu soubesse, eu teria me mantido como treinador na Série A. Até hoje me pergunto também sobre o porquê disso.
Quando vê a trajetória do Jayme um filme passa em sua cabeça?
Não é questão de ver a trilha do Jayme. É ver a minha própria trilha, o que eu alcancei em oito meses. As pessoas perguntam. O Flamengo venceu um Brasileiro depois de 17 anos e eu fiquei sem espaço. Ganhei cinco títulos brasileiros por um clube só. Acabei não tendo o valor que eu achei que merecia. Eu me pergunto, mas não existe uma resposta.
E como recebeu as palavras do Jayme depois da partida contra o Goiás?
O Jayme é um amigo de mais de 30 anos. Trabalhamos dentro e fora no Flamengo. Joguei na Desportiva (Capixaba), ele era o treinador e fomos campeões. Temos respeito um pelo outro e fico feliz pelo que ele está passando hoje. Quem conviveu comigo o tempo todo sabe do valor do meu trabalho. Jayme é uma dessas pessoas.
E qual o futuro do Andrade?
Estou trabalhando minha cabeça para voltar em outros clubes, até fora do Brasil. Não no Flamengo. Se aparecesse algo fora do país seria formidável, interessante. Estaria em meus projetos. Aguardo que surja um convite para trabalho. Tenho esperança que vai aparecer. Penso sempre de forma positiva.
Mesmo quando você era treinador do Flamengo se abordou um possível preconceito racial em cargos de comando no futebol. Acredita que este fato existe?
Não deveria ter. Estamos num país onde a maior parte da população é negra. Dentro do Brasileiro temos hoje o Jayme, o Cristóvão (Borges, do Bahia). É uma coisa ridícula se em pleno século 21 ainda pensam dessa forma. O que importa é a competência, o trabalho.
Fonte: ESPN
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