Quando se fala que o Flamengo é um clube nacional, talvez muita gente não tenha a dimensão do que isso significa. Por mais que os números mostrem que há mais rubro-negros fora do Rio de Janeiro do que no estado que sedia o clube, as estatísticas podem não parecer tão impactantes quanto a cena que o Aeroporto Internacional do Rio vive desde as primeiras horas desta quarta-feira, dia da final da Copa do Brasil, contra o Atlético-PR. Em dia de decisões, é normal ver estações de trem, de metrô, ver a vida da cidade ter a rotina alterada. Mas só clubes nacionais, como o Flamengo, mexem com a rotina do país.
O Tom Jobim virou um pedaço do Maracanã. A cada voo que pousava, não importa a cidade de origem, o portão de desembarque se abria para dezenas de rubro-negros. Aquela gente não chegava como quem viesse se divertir. Vinha cumprir uma missão. Ajudar o time a ganhar. Era gente de todo canto. Com diversas histórias, sacrifícios para juntar dinheiro, criatividade para convencer o patrão a lhes dar folga, disposição para dormir até na rua, se for preciso.
Passava um pouco das 10h. No voo que chegava de Florianópolis, entre os rubro-negros estava o advogado Francis Almeida, de 31 anos. Ele nasceu em Foz do Iguaçu, no Paraná, mas vive na capital catarinense. Herdou da família a paixão pelo Flamengo, mesmo sem nunca ter morado no Rio. Funcionário de um escritório com sede em Curitiba, precisou convencer o patrão.
– Ele é Atlético-PR e me disse: “se você me fala que seu pai está doente, se me fala qualquer outra coisa, tudo bem. Mas vai lá e depois a gente conversa”. Não tinha como ficar fora do jogo – contou Francis.
Ele pagou R$ 1.900 por um pacote com hotel, traslado para o Maracanã e ingresso. Além de R$ 700 pela passagem.
Minutos depois, pousava um voo de Brasília. A capital federal, palco de muitos jogos do Flamengo no Brasileiro, é uma das recordistas de sócios-torcedores do clube fora do Rio de Janeiro. Muitos brasilienses estarão no Maracanã hoje. Um deles, o advogado Diego Armando, de 26 anos. Ele chegou com o amigo Felipe Bride, carioca que mora no Distrito Federal, onde trabalha como analista financeiro.
– Passei três semanas compensando horário no trabalho. Precisei fazer banco de horas para ser liberado – disse Felipe que, junto com o amigo, alugou vaga num hostel em Copacabana e comprou a passagem com milhas.
A paixão pelo Flamengo rompe fronteiras. Num grupo de mais de dez amigos, todos agitados e ansiosos porque ainda precisavam ir à Gávea trocar os ingressos comprados pela internet, estava o cearense Érico Santos, de 38 anos, que chegou no voo vindo de Brasília. Nascido em Campos Sales, cidade a 600km de Fortaleza, cresceu numa família rubro-negra.
– É coisa que vem de berço, a família toda é Flamengo. A gente vê pela TV, mas fica com saudade de vir ao Rio, ao Maracanã, sentir o clima da Gávea. A gente tem saudade de ajudar o time, ser mais uma voz no meio da multidão – disse Érico.
Quando o grupo se juntava para uma foto, um dos amigos saiu rapidamente:
– Não posso aparecer de jeito nenhum. Consegui um atestado médico para estar aqui.
Sacrifício mesmo fará o grupo de brasilienses em que estava Vitor Hugo Rodrigues, servidor público de 32 anos. Primeiro, ele comprou a passagem para o Rio. Depois, negociou uma folga com o chefe. Mas terá que trabalhar nesta quinta-feira, assim como os amigos. O voo de volta é as 7h.
– Vamos sair do aeroporto, passar na Gávea, depois vamos dar um pulo na praia. De lá, vamos pro Maracanã. Depois, dormimos na rua ou no aeroporto mesmo até a hora de pegar o voo – disse Vitor.
“Benção, tio. Cheguei. Volto com a taça”. Esta foi a primeira frase que o matogrossense Vanderson Rondon disse, pelo celular, assim que pisou no Rio. Estava avisando aos parentes que já estava no palco da decisão da Copa do Brasil. Funcionário de uma concessionária, convenceu o patrão de que merecia uma folga e saiu às 5h50m de casa. Espera voltar campeão. Com ele, estava Daniel Dalmolino, que saiu de Nobres, a 142km de Cuiabá.
– Pra mim ficou mais fácil porque eu sou o patrão. Difcíil foi convencer a esposa – disse. – Nosso voo fez conexão em Brasília. No avião, já estava todo mundo cantando. O Mato Grosso é Flamengo. O país é Flamengo. Vai de geração a geração.
Os dois tinham pressa. Pagaram R$ 650 no ingresso para o setor Leste Inferior, que originalmente custava R$ 500. Mas ainda iriam retirar. Por telefone, tentavam localizar a pessoa com quem combinaram a compra e a retirada. Havia certa tensão no ar.
Leandro Fregona estava tenso pelo jogo, é verdade. Mas tinha motivos para estar cansado. Assim como outro capixaba. Wilson Junior. Leandro saiu de Colatina às 5h. Dirigiu durante duas horas e meia até Vitória, de onde pegou o voo para o Rio. Gastou R$ 470 na passagem e, para reduzir custos, reservou lugar num albergue em Botafogo.
– O sentimento fica mais forte mesmo à distância. Você vive pelo time. Vim ao Rio para ajudar a fazer o time ganhar, como se fosse um trabalho, não um divertimento. A gente vem ajudar a dar este título ao clube – afirma, carregando uma bandeira do Flamengo. – Conversei com meu patrão e, como faço aniversário dia 2 de dezembro, pedia a folga de presente para vir ao jogo.
O patrão também é Flamengo.
Já Wilson Junior tomou todas as precauções para que a missão fosse bem-sucedida. Quando, no início da semana, viu dias seguidos de chuva, se preocupou. Marcou o voo no horário mais cedo possível. E explicou.
– Começou a ter muito cancelamento de voo. Marquei num horário que, caso o voo fosse cancelado, eu tivesse tempo de vir de carro até o Rio – disse Wilson, que é morador de Mantenópolis e dirigiu 250km até Vitória, durante quatro horas e meia. – A cidade tem três mil habitantes. Todo mundo é Flamengo. Quando tem jogo, a gente arma um telão e fica cheio. Se o Flamengo é campeão, tem carreata, festa.
Fonte: O Globo

