Uns chegam ao poder graças a elas. Depois, a dívida de gratidão é financiá-las com mimos gratuitos, como ingressos. No meio do caminho, há quem ouse cortar o cordão umbilical e prefira sofrer a pressão calado. Outros tentam, na medida do possível, manter o distanciamento. O Correio conversou com dirigentes de clubes do futebol brasileiro — atuais e passados —, que assumem ser reféns dos caprichos das uniformizadas. Há, claro, quem jure ter rompido com esses grupos, mas todos admitem a prática, ainda que eventual.
Gerente de Futebol do América-RN, Carlos Moura Dourado reconhece que o clube potiguar financiava a presença de brigões nos estádios com ônibus e bilhetes. Pelo menos até a morte de Bruno Gomes da Silva, integrante da Máfia Vermelha, 26 anos, que acabou baleado na nuca quando saía de um bar na Zona Sul de Natal. “A diretoria cansou”, disse Dourado. Desde então, a relação piorou. Além de continuar brigando com os rivais, a organizada se tornou uma ameaça ao próprio clube, com muros pixados e xingamentos.
Campeão da Copa do Brasil à frente do Flamengo no primeiro ano de mandato, o presidente, Eduardo Bandeira de Mello, herdou uma relação estreita entre a ex-presidente Patricia Amorim e as organizadas do clube, mas jura ter quebrado o vínculo. “Hoje, eu posso assegurar: nós não patrocinamos torcedores nem aqui nem fora do Rio”, ressaltou o cartola rubro-negro ao Correio.
Bandeira de Mello prefere não falar sobre a administração de Patricia Amorim, que, apesar de desastrosa, só passou incólume em função da íntima relação com as duas maiores organizadas do país — a Raça Rubro-Negra e a Torcida Jovem.
Mandatário do Fluminense de 2004 a 2010, Roberto Horcades assume: “A promotoria pública proíbe, mas todos os presidentes de clubes aqui do Rio distribuem ingressos a organizadas. Eu dava, mas tinha os meus métodos”, conta. “Quando os caras queriam começar a aprontar, eu reduzia ou simplesmente tirava”, conta Horcades.
Presidente do São Paulo de 1984 a 1988 e candidato nas próximas eleições, Carlos Miguel Aidar promete encampar a luta contra a violência. “A mudança passa pela vontade política de todos os atores: clubes, federações, CBF, Ministério Público, Governo. Todos precisam se unir para resolver isso, doa em quem doer”, prega Aidar, com um discurso semelhante ao de Horcades, do Flu. “Há muita conivência dos dirigentes que se apoiam nas torcidas organizadas como se fossem eleitores. Deveria haver um pouco mais de profissionalismo”, reclama.
Fonte: Super Esportes

