Capaz de fazer o velho Maracanã tremer, seja pelos momentos sublimes ou pelos confrontos entre as duas maiores torcidas do Rio, a rivalidade entre Flamengo e Vasco vai pôr a prova o projeto que consumiu cerca de R$ 1 bilhão para oferecer mais conforto e segurança ao torcedor. Oito meses e meio depois de sua inauguração, o novo estádio recebe pela primeira vez o clássico às 16h deste domingo. No tempo de uma gestação, o torcedor viu a expectativa crescer como quem espera por um parto natural em em que o choro anuncia a vida nova.
— Temos visto que os pais já conseguem levar seus filhos novamente e que o torcedor pode ir com a namorada no meio da torcida sem problemas. Flamengo e Vasco é sempre um jogo mais quente, requer atenção especial, mas temos todo o esquema montado, que já foi usado em outros clássicos, para que o novo estádio possa confirmar o sucesso dessa operação — disse o comandante do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), que terá sob suas orientações um efetivo de 500 policias dentro e fora do estádio. — Estou no futebol há sete anos e meio. Flamengo e Vasco não é novidade para mim. Novidade é a primeira vez no novo Maracanã.
Antes da última reforma, o interior do estádio já era bem mais seguro e confortável do que nos tempos em que as torcidas marchavam pelas arquibancadas usando bombas e bambus como armas. Segundo o comanda nte do Gepe, hoje as principais ocorrências são por desacato e por uso de maconha. Por mais as exigências da Copa para transformar o estádio numa ilha de rentabilidade façam o Maracanã selecionar o torcedor pelo poder aquisitivo, é impossível isolá-lo das questões sociais que estão nas ruas, junto com a maior preocupação do policiamento.
— Tivemos uma reunião com as torcidas organizadas e já estabelecemos horários e pontos de encontros para que sejam escoltadas sem que vascaínos e rubro-negros se encontrem pelo caminho. Muitas vezes, há focos de tensão dentro de uma mesma facção por conta de processo eleitoral — disse o comandante, lembrando que ainda não recebeu do Ministério Público a lista dos torcedores que estão impedidos de ir ao estádio por decisão judicial. — Aqueles mais conhecidos, não vão por que sabem que a gente pode identificá-los, mas não temos condições de fazer uma triagem completa no meio de 40 ou 60 mil pessoas.
No último clássico entre Vasco e Botafogo, a reportagem do GLOBO indentificou a presença de um vascaíno que deveria se apresentar à polícia judiciária no momento do jogo por conta do envolvimento briga com torcedores do Atlético-PR na última rodada do Brasileiro. Assim como nas manifestações das ruas, em que vândalos e ativistas investem contra as forças do estado, a insatisfação do torcedor costuma estourar na polícia, acusada de despreparo e de negligência. Junto com a ação dos cambistas, dos ambulantes e dos torcedores que se valem da meia-entrada sem ter direito ao benefício, os ilícitos permeiam o Maracanã como uma doença crônica, que volta apesar da operação para reduzir a capacidade e a vocação popular do estádio.
— Entendo que algumas questões legais devem ser discutidas — disse o militar, referindo-se à meia entrada, às gratuidades, ao fim da venda de cerveja e à criação de um cadastro que o torcedor seja identificado ao passar o ingresso na catraca. — Como há vários projetos que não sairam do papel, só nos resta cumpir a legislação em vigor.
No encontro do novo conceito com os velhos problemas, a maior tensão se dá nas catracas. Antes de cobrar uma mudança de hábitos do torcedor, os administradores do estádio precisam entregar aquilo que o projeto original vendeu, ao transformar a velha catedral do futebol num templo da indústria do entretenimento:
— O estádio é aberto três horas antes mas é preciso que haja atrações para estimular o torcedor a chegar mais cedo. Entre 60% a 70% do público só entram no estádio nos últimos 30 minutos que antecedem ao jogo — disse Fiorentini, lembrando que a concentração do fluxo nesse período impede que o portador da meia entrada comprove sua condição de estudante. —Esse é um dos fatores que mais favorece ao cambista. Só no Brasil, é possível comprar ingresso do cambista mais barato do que nas bilheterias.
Como a documentação só é exigida na emissão do bilhete, um estudante pode comprar ingresso para terceiros. Por mais que a tecnologia traga possibilidade de controle, as práticas são antigas como a rivalidade entre Vasco e Flamengo. Dentre tantas mudanças trazidas pelo novo Maracanã, os vascaínos perderam o lugar, à direita da cabines, para o Fluminense que foi o primeiro a assinar contrato com a concessionária. Para quem se viu obrigado a enxergar a festa de outro ponto de vista, resta a magia do clássico que faz o tempo parar. Quando a bola rolar na tarde deste domingo, não há passado nem futuro, apenas a lenda que vive na dimensão da eternidade. Como a torcida Flamengo permanece à esquerda das cabines, agora no último andar do estádio, ao menos por 90 minutos o Vasco estará no lugar de sempre para embalar os novos tempos. Quase nove meses depois da inauguração, está para nascer quem fará o novo estádio reviver sua vocação mais popular e democrática.
Fonte: O Globo

