“Paciência, paciência! Vamos tocar para trás!”. Assim bradava o treinador – se posso chamá-lo assim – Marcelo Buarque, substituto por um jogo, graças a Deus, do competente Jayme de Almeida.
A paciência é uma virtude bem exemplificada através de poucas palavras pelo “Primeiro Americano” Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos: “O que for paciente, terá o que deseja.”
É claro que além da paciência deve haver a indispensável ajuda da ação para que se alcance o que se busca. A famosa frase, no entanto, em toda sua simplicidade e sabedoria, resume o que viram os menos de mil torcedores presentes no estádio Raulino de Oliveira no jogo entre o Flamengo e o Bangu.
Um jogo bom, todos adivinharam que não seria visto. Nem o preço baixo, tão cobrado pela torcida, foi capaz de levar o flamenguista ao estádio – prova inequívoca de que é a qualidade do espetáculo que deve ditar o valor cobrado pelo ingresso. O time titular também não foi visto. Campeão antecipado da Taça Guanabara, embarcava no momento em que a bola rolava para a Bolívia para onde todas as atenções estão voltadas diante da difícil missão da vitória contra a altitude insalubre de La Paz.
O que se viu foi a demonstração da necessidade urgente de o Flamengo repensar a concepção do seu futebol de base. Quando um pretenso treinador é escutado em rede nacional, graças ao silêncio ensurdecedor vindo das arquibancadas, pedindo para os jogadores tocarem a bola para trás, é isso que ele consegue. A paciência, traduzida em jogadas irritantes e sem objetividade, enerva o torcedor e evidencia a falta de orientação estratégica nas divisões formadoras da combalida fábrica de craques do Mais Querido e o despreparo de seus profissionais.
Marcelo Buarque, com a paciência de seus comandados, conseguiu o que queria: o poderoso adversário abriu dois gols de vantagem e obrigou a garotada a ignorar o pedido do chefe e, impacientes, igualar o placar no segundo tempo.
Contribuiu com o feito um conhecido jogador, revelado na escola rubro-negra, por quem a paciência da torcida chegou perto do esgotamento: Luiz Antônio, o menino mal orientado foi à linha de fundo e colocou a bola no pé direito de Nixon, que fez os dois gols do jogo.
A absoluta falta de apelo da partida, o evidente desentrosamento dos jovens jogadores e o fato de ser o campeão por antecedência da cada vez mais desinteressante Taça Guanabara, podem ter amenizado o resultado de um jogo chatíssimo. Fica, no entanto, patente que não é sem motivo que vemos tantos vícios técnicos e muitas vezes comportamentais nos jogadores da atualidade. É durante sua formação que, mal orientados por colegas, empresários e, principalmente treinadores, os aspirantes a craques adquirem a miopia tática, o comportamento inadequado e a paciência excessiva que produz o jogo burocrático que desvirtua aquele que deve ser o objetivo de todo time: a vitória.
Enquanto insistirem com o modelo atual de gestão do futebol de base, precisaremos da tão recomendável paciência até termos de volta os tempos gloriosos quando brotavam de nossos gramados o melhor que o mundo da bola podia oferecer: os verdadeiros craques. É preciso mudar. Que tal começar pelo técnico?
FLAVIEW




























