Nas 271 vezes que entrou em campo pelo Flamengo, Renato Abreu se acostumou a vencer e a comemorar gols contra o Botafogo. Foi no Alvinegro que o ex-camisa 11 rubro-negro mais vezes marcou: quatro gols. Além disso, foram 16 clássicos contra o rival e só uma derrota. Demitido pelos dirigentes no ano passado, jogou três meses no Santos e está parado desde janeiro. Amanhã, festeja dois anos de uma bem-sucedida operação no coração e não joga a toalha. Em entrevista exclusiva, condena a forma como foi dispensado, lamenta não participar de um clássico que marcou sua carreira e aposta que um dia voltará para encerrar sua história no clube.
Renato Abreu fala em ingratidão e sonha em voltar ao Flamengo.
O Botafogo é um adversário que te traz boas lembranças?
Eu sempre encarei todos os adversários da mesma forma, mas contra o Botafogo é uma história bonita. Foi o primeiro time grande que enfrentei, meu primeiro gol pelo Flamengo foi contra eles, foi o time que menos perdi e no qual mais fiz gols. Também lancei aquela máscara do urubu em 2007. É especial.
É difícil mais uma vez não estar em campo em um clássico como esse?
É até difícil falar, queria estar jogando. A saudade é muito grande, ainda mais de um clássico assim, com a torcida do Flamengo. E ainda mais no Rio. Quase toda a minha vida foi construída aqui, minha família está instalada aqui. O Rio é muito especial na minha vida.
A segunda-feira (amanhã) também é um dia espacial para você.
Eu até me emociono. São dois anos da cirurgia no coração. Foi um momento difícil, uma situação totalmente diferente e especial. Deu tudo certo e quero repetir a visita que fiz a um hospital no ano passado. É uma maneira de agradecer a Deus por ter recomeçado a minha vida tão bem.
Você está parado desde janeiro. Por que não ficou no Santos?
Meu contrato acabou e preferi não ficar. Foi uma passagem importante para mim, me fez um bem enorme, não posso reclamar de nada do pessoal de lá.
O América te procurou?
Fui procurado e agradeço muito ao América pelo interesse. É o quinto clube do Rio, atrás apenas dos grandes, mas não houve acordo.
E como tem feito para se manter em forma? Já há algo encaminhado?
Estou em casa, treinando, fazendo academia todo dia, me preparando para quando acertar com algum clube. Já houve algumas sondagens, mas ainda não estou desesperado. Quero escolher o melhor para mim.
Você jogaria em outro clube do Rio, por exemplo? Ou teme sofrer resistência?
Resistência sempre vai ter, pela minha história no Flamengo. Se eu jogar no mesmo estado, sempre vão ter dúvida sobre se vou conseguirei ser igual como era no Flamengo. Mas o meu profissionalismo me fez ser respeitado e admirado por outros torcedores também. Isso passa com o tempo, com o trabalho do dia a dia. É assim que se ganha a confiança do torcedor, da diretoria, dos jogadores. Com o tempo, eu consigo isso em qualquer lugar. Consegui em apenas três meses de Santos.
Quase um ano depois, você já conseguiu digerir a saída do Flamengo?
A maneira como eu saí foi muito errada, foi uma coisa negativa para mim. Isso pode estar sendo levado para outros lugares. Qualquer um pode ser mandado embora, mas não foi legal. Principalmente para um jogador identificado com o clube. Eles não mandaram embora um jogador qualquer, que ficou só seis meses no clube. As pessoas que conhecem meu trabalho sabem do meu profissionalismo.
É uma ferida que não vai cicatrizar?
Foi feio pela forma como foi feito. Faltou gratidão. O futebol hoje em dia tem poucos ídolos. Existe uma procura grande por jogadores que se identifiquem com os clubes, como foi com o Zico, com o Rogério Ceni no São Paulo, o Marcos no Palmeiras, o Juninho no Vasco… Não estou me comparando a ninguém, não é isso, mas tive uma história bonita no Flamengo.
Você mantém contato com as pessoas que estão lá no clube ainda?
Hoje eu estou sozinho. O futebol nos ensina todos os dias. O que vale é sempre o momento. Eu sempre briguei por todos, pelos jogadores, os funcionários, o pessoal da comissão técnica. Ainda tenho amigos lá, mas procuro até falar pouco para essas pessoas não serem prejudicadas.
Depois da demissão você foi sequer foi ao CT.
Não fazia sentido algum. Eu acho ridículo, por exemplo, uma pessoa com história no clube, alguém que tem o nome gravado na história não poder ir fazer uma visita ao CT. Acho que quem fez algo de bom deveria merecer um mínimo de respeito. É difícil aceitar isso.
Você guarda mágoa de alguém?
Não tenho mágoa, não. Outro dia encontrei o Bandeira (o presidente Eduardo Bandeira de Mello) no supermercado e o cumprimentei normalmente. A culpa não é dele.
É de quem então?
É melhor deixar isso para lá.
Como está sua situação na Justiça?
Houve a primeira audiência ano passado e este mês deve ter outra. Por isso, prefiro não falar muito.
Como tem sido a reação da torcida desde que você foi mandado embora?
O apoio é o mesmo do tempo em que eu jogava. Por isso, não consigo guardar mágoa. Porque, por onde eu ando, onde quer que eu vá, sempre tem alguém para cumprimentar, lamentar minha saída. É só carinho. Esse apoio é gratificante demais, não tem preço, e eu nunca vou esquecer.
Aos 35 anos é difícil dar seguimento à carreira?
Vai ficando mais difícil, porque as pessoas no futebol de hoje só querem investir em quem pode dar retorno (financeiro), jogadores com menos idade e quem podem ser negociados com facilidade. Daí a carência de ídolos. É raro ver alguém com muito de tempo de clube atualmente.
Isso quer dizer que o fim está próximo ou você acha que vai encontrar um bom clube ainda?
Estou me preparando para continuar jogando em bom nível como foi no Flamengo. Tenho 35 anos, mas ainda posso jogar com qualidade por mais uns dois anos. Aí depois vou parar, porque não quero seguir jogando apenas pelo dinheiro. Estou trabalhando muito, sem desespero, para voltar na hora certa, no clube certo e podendo ser útil.
Depois de tudo que aconteceu, da forma como foi, você pensa em voltar um dia ao Flamengo?
Um dia eu vou voltar para encerrar a minha história. A minha ligação com o Flamengo não acabou ainda. Talvez agora sim. Mas eu mereço.
Fonte: Extra Globo
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