Limitadíssimo, o Flamengo superou o Botafogo por 1 a 0 num jogo de turno pelo Campeonato Brasileiro. Foi uma partida tecnicamente ruim, condizente com o nível dos dois times, mas o que fica deste clássico – em que geralmente o pior vence – é a festa da torcida do Flamengo.
Havia ontem no Maracanã uma faísca que andava ausente dos jogos do rubro-negro. O desespero da situação flamenga talvez explique em parte o que se passou nas arquibancadas (chamaria isso de “alento de agonia”), mas não conta tudo. O que vimos no estádio recém-resgatado de piratas suíços – piratas de lagos, piores piratas – foi uma manifestação do poder dos grandes números.
A decisão de baixar o preço dos ingressos, numa “concessão” a quem empurra o time, abriu janela para o óbvio: o futebol precisa de muita gente para funcionar. Sem sinal de bom futebol (à exceção de quatro ou cinco times, com o Cruzeiro à frente), o futebol brasileiro depende de intensidade de experiência para se afirmar.
Nunca faremos do campeonato brasileiro uma “NBA do futebol”, como costumam sugerir os sonhadores que, no fim das contas, só querem sair bem na foto, não. O que podemos ter é estádios vivos. Parece óbvio, mas vale repetir àqueles insistentes na letra fria do “quem paga?”: estádios vivos contagiam o entorno, seja lá onde esteja este entorno, em outra cidade, estado ou país. Num tempo de marcas e times globais, o que podem fazer os times da periferia – e somos todos periferia por aqui –, além de tirar proveito da proximidade? As planilhas que não dizem isso são planilhas burras, não canso de insistir.
Na fila para entrar no estádio ontem vi um pai comentando sobre o fato de o filho dele só ligar para o Bayern de Munique, em detrimento do time da família. Se, hoje, a conta fecha com ingressos altos e alguns (muitos) vazios no estádio, ela não fechará amanhã. O menino fascinado pelo Bayern de Munique seguirá assim, apaixonado à distância – e nada daqui o convencerá do contrário. Em nome do bife do presente, secam o pasto do futuro. Menos extrativismo, mais cultivo: assim se cria público.
Fonte: Chuteira Preta



























