Acreditai, homens de pouca fé.

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Para você e para a quase totalidade da Nação Rubro-Negra o jogo contra o Inter é só mais um a ser contabilizado nesse ano até aqui tão pavoroso.

Há praticamente um consenso de que o lanterna do campeonato virá a Porto Alegre domingo receber sua habitual tunda no Beira-Rio, dado que a última vez que saiu com um triunfo foi em 2002, gols de Felipe Melo e Liedson, conquistando a providencial gordura que acabou evitando o nosso rebaixamento para a Série B no ano que terminamos o torneio apenas 3 pontos na frente da zona da degola.

Mas para mim e para um punhado de amigos, trata-se do evento mais importante do ano! Ok, tem também o jogo contra o Grêmio, mas o do Inter é um tantinho mais importante, porque como a torcida adversária não é hostil aos rubro-negros, podemos chegar e sair do estádio sem sustos.

Passamos meses sonhando e planejando esse reencontro com o time, escassos momentos em que ele joga na cidade em que moramos e onde somos uma minoria quase imperceptível, o que é algo absolutamente inédito em se tratando de flamenguistas, sempre numerosos em qualquer rincão do país.

Sei que não tá fácil, mas não quero, não posso e não devo me deixar contaminar pelo baixo astral. Como qualquer torcedor, tenho um milhão de razões para me aborrecer com a nossa condição atual, mas preciso encontrar forças para seguir acreditando.

Uma vantagem óbvia é a baixa expectativa: de onde menos se espera, não costuma sair nada mesmo! Esse é meu 8º campeonato brasileiro no Sul e mesmo em anos onde tudo corria bem, os vexames aqui se empilhavam. Nada disso afetou nossa animação.

A graça e a mágica do futebol residem exatamente na chance do imponderável prevalecer. Para o bem e para o mal o inesperado às vezes dá as caras. E para o torcedor de verdade, o resultado, claro, conta muito, mas está longe de ser o mais importante.

O que realmente separa o torcedor comum do fanático – que é o meu caso e também o dos leitores – é a conexão inexplicável com o time, o ritual catártico que só a arquibancada proporciona. Gritar, cantar, chorar, sentir a adrenalina pulsante de 90 minutos inigualáveis. E acreditar que mesmo da distância imensa entre o assento e o gramado é possível interferir de alguma forma no resultado, uma ilusão que a gente repete como se fosse um dogma, preferindo não se render à evidência de que os jogadores mal nos escutam e quando escutam não nos entendem.

Não estamos nem aí se o time tá bem ou tá mal, ainda que sabendo, de antemão, que está malíssimo. Nós vamos ao Beira-Rio para celebrar nosso amor, para gritar com a alma renovada de quem 2 vezes ao ano se une a um punhado de desconhecidos para uma procissão de fé, a crença renovada nos Inexplicáveis Poderes do Manto, que um dia hão de reconhecer nosso esforço e dedicação religiosa brindando-nos com uma vitória inapelável.

Se domingo tudo parecer nebuloso e triste, peço que lembrem de nós: por mais improvável que seja, estaremos ali, espremidos em um cantinho do Beira-Rio, exercitando nossa fé na vitória. Nunca deixaremos de acreditar.

E se algo der errado, faremos como de hábito: “é, não deu de novo, mas voltaremos ano que vem”. Afinal, cada pensamento e cada suspiro, cada dor e cada prazer, tudo que há de pequeno e de grande há de retornar, tudo na mesma ordem e sequência, porque a eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – se está na moda reverenciar alemães, nada melhor do que uma vã filosofia.

Não me pergunte como, mas vamos vencer. Acreditai, homens de pouca fé.

Walter Monteiro

Fonte: Urublog

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