Na grande final da Copa do Mundo de 2014 no Brasil – a ser disputada por mérito e justiça este domingo, 13, no Maracanã, entre as seleções da Alemanha e da Argentina – estão de olho não só os que amam e acompanham os lances sempre surpreendentes do futebol. A atenção da “torcida do Flamengo”, do povo do Rio de Janeiro, do País e do mundo inteiro, está voltada, também, para o jogo tático e estratégico da política e da propaganda que se projeta para além do mítico estádio, onde se dará o embate decisivo do maior evento esportivo do planeta.
Neste segundo caso – o da política e do marketing –, vale ficar especialmente atento aos passes, jogadas e malabarismos, estratégicas submersas, ou mesmo aos lances mais explícitos destes dias memoráveis da reta final do Mundial 2014. Neste embate, três poderosas mulheres, chefes de Estado e de governo de seus respectivos países, estão, desde já, sob lentes e focos internos e internacionais.
A chanceler alemã, Ângela Merkel – torcedora fervorosa do futebol e da seleção apontada como favorita para conquistar o Caneco este domingo – de decantado pé quente e paixão demonstrados de público, na tribuna e no vestiário do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, na goleada de 4 a 0 aplicada pela Alemanha em Portugal (do melhor do mundo, Cristiano Ronaldo) na abertura do Mundial.
Primeira no ranking da Forbes, das mulheres mais poderosas do mundo, aplaudida de pé, na Bahia, pelo público presente ao estádio, e festejada comovidamente pelos jogadores da sua impressionante seleção, no vestiário, Ângela Merkel, sem titubeios e vacilações, é presença mais que confirmada no Maracanã desde o primeiro momento. Ela desembarca no Rio de Janeiro neste sábado, dia 12, acompanhada do presidente alemão, Joachim Gauck, avisam assessores desde Berlim.
A segunda força feminina no centro do jogo de poder e marketing, e das expectativas destes dias grandiosos do futebol, é Dilma Rousseff, a presidente da República do Brasil. Ela dança há tempos na lâmina afiada da navalha das pesquisas de opinião sobre seu governo e suas possibilidades pessoais e eleitorais de reeleição, para mais um período de mando no Palácio do Planalto.
Isso a tem mantido em permanente estado de tensão e sobressalto. O que a faz vacilar entre pensamentos pessoais e sentimentos divididos – e os conselhos contrastantes e contraditórios de assessores e aliados mais próximos, sobre até onde a presidente e candidata deve avançar. Ou, estrategicamente, recuar em relação à sua presença em estádios ou festejos comemorativos do Mundial no país que ela governa.
A primeira e única experiência de Dilma, até aqui, na Copa que termina amanhã, foi traumática e constrangedora. Uma decepção só superada pelo fiasco e a humilhação histórica da seleção brasileira na vexatória goleada de 7 a 1, aplicada pelos alemães, no Mineirão, esta semana. Dia de jamais esquecer para os jogadores, dirigentes (do futebol e do governo) e o povo brasileiro. Sob pena de ver tudo se repetir, mais adiante, para vergonha geral.
Ao contrário da consagração recebida por Merkel na Fonte Nova, em Salvador, a presidente Dilma foi vaiada e ofendida, pessoalmente e em sua representação de chefe de Estado, com repercussões internas e internacionais, ao comparecer ao jogo de estreia do Brasil na Copa, contra a Croácia, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. Está anunciada, e desta vez parece garantida, a presença da presidente Dilma na final dos jogos, neste domingo, no Maracanã. Para o bem ou para o mal. A conferir.
A terceira grande expectativa recai sobre a figura e o desempenho político, pessoal e marqueteiro da presidente da Argentina, Cristina Kirchner. A gloriosa, e sempre guerreira, seleção de futebol de seu país segue firme no páreo que definirá o novo dono da bola no futebol mundial, neste 13 de julho, de Argentina x Alemanha, no Brasil.
A peronista presidente da Argentina, em carta a Dilma, agradeceu o convite, da colega petista, e se desculpou “por não poder estar presente na final da Copa. Dilma convidara Cristina para “ajudá-la” na cerimônia de entrega de medalha aos jogadores finalistas dos dois conjuntos, e o Caneco de Ouro ao capitão da seleção campeã do mundo na Copa 2014.
A “faringolaringite” de que padece, nos dias gelados de inverno em seu país, e o aniversário do neto, neste sábado, foram alinhados pela peronista entre os motivos alegados para sua ausência. Ok, não há por que duvidar (ou haverá?). O mais aconselhável, porém, talvez seja manter uma boa dose de ceticismo, o melhor antídoto de sempre do jornalismo e dos jornalistas de verdade.
Cristina Kirchiner, que ninguém se engane, é “raposa” política experiente e rodada. “Vem de longe”, como diria Leonel Brizola. Ela conhece como poucos os segredos e mandingas de seu país. Um cronista portenho, por exemplo, ensina:
“Na Argentina o futuro tem 24 horas. É um país em que a realidade pende por um fio desencapado. Um país em que tudo, até os governos, mudam por um detalhe. Por uma chuva de meia gota. Por um comentário. Por uma partida de futebol. O futebol na Argentina é tudo e mais que tudo. É o minuto a minuto, a temperatura da rua e a percepção que o grosso da sociedade tem do resto do mundo”.
Cristina já confirmou que desembarca no Brasil, na segunda-feira, para participar da cúpula dos BRICS na próxima semana em Fortaleza. Ela, a exemplo do conterrâneo Papa Francisco, conhece o ensinamento do cronista. E assim, seguramente, ela está convencida de que, presente ao Maracanã este domingo, só teria a perder em caso de derrota da sua seleção. No caso da vitória sobre a Alemanha e da conquista do Caneco, porém, terá uma campanha eleitoral e uma vida inteira para festejar.
Nada a acrescentar. A não ser que torcerei pela Argentina, país e futebol que amo e torço desde sempre. Mas se a Alemanha de Merkel, a favorita, vencer, não ficarei triste. Mérito é mérito.
Boa final a todos.
Fonte: Tribuna da Bahia

