O episódio de agressão de torcedores ao lateral-esquerdo André Santos foi apenas mais um capítulo na relação de amor e ódio das torcidas organizadas com o Flamengo, aflorada desde o início da década de 2000. A proximidade com jogadores e as cobranças muitas vezes avalizadas por dirigentes se tornaram rotina em épocas de crise. Bomba, agressões, troca de socos entre torcedores e jogadores do time já ganharam o noticiário no passado como neste caso de André Santos.
Há capítulos marcantes na linha tênue que separa belos mosaicos e cantos de apoio na arquibancada de bombas, agressões e ameaças. Nem mesmo ídolos formados no clube e identificados com a massa escaparam. Em 2002, o Flamengo badalado de Petkovic, Julio César, Juninho Paulista e Leonardo cumpria campanha ruim na Libertadores. Na sexta-feira, 15 de março de 2002, cerca de 40 vândalos invadiram a Gávea por um portão lateral, lançando morteiros e tentando agredir jogadores.
Julio César foi perseguido até a entrada do vestiário agredido por dois integrantes da organizada. A maioria utilizava uniformes da Raça Rubro-Negra. Leonardo, tetracampeão mundial e revelado pelo clube, também apanhou. E o lateral-esquerdo Athirson, mais uma cria da base, reclamou da insegurança vivida à época.
“Vieram aqui para nos agredir e machucar. Daqui para frente, precisamos de mais segurança. Do contrário, não teremos tranquilidade para jogar e para treinar”, disse Athirson na época.
Em meio a uma crise política que culminaria com o impeachment do então presidente Edmundo dos Santos Silva, o Flamengo viu uma debandada de jogadores, como Juninho Paulista, Leonardo e Petkovic, no meio do ano. E sofreu para se livrar do rebaixamento no segundo semestre. O ápice do enfrentamento entre torcedores do clube e jogadores, no entanto, ocorreu mais de dois anos depois. No dia 14 de novembro de 2004, o Flamengo foi goleado por 6 a 1 pelo Atlético-MG e voltou à zona de rebaixamento a cinco rodadas do fim.
Na volta de Minas Gerais, à noite, o choque. Vários torcedores apareceram no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, para sair no tapa com os atletas. Julio César, agredido, revidou. O volante Douglas Silva também brigou. Júnior Baiano, expulso na goleada, deu uma gravata em um jogador.
“Vamos deixar de palhaçada. Tenho vinte anos de Flamengo, sou mais torcedor do que vocês. Já estou cansado disso”, disse o goleiro Julio César, que, no ano seguinte, deixou o clube.
O então veterano Zinho também deu pontapés em um torcedor que tentara agredir seu pai, seu Crizam Oliveira. O caos se instaurou, a praça do aeroporto virou palco de uma guerra. A partir daí, jogadores, como o meia Felipe, passaram a andar com seguranças depois do episódio. Nas cinco rodadas seguintes, o Flamengo empatou três jogos, venceu dois e só se salvou do rebaixamento na última rodada, sob comando do técnico interino Andrade.
Em 2005, também com má campanha no Campeonato Carioca, o lateral-direito Ricardo Lopes deixou o clube alegando receber ameaças à sua família por telefone. Três anos mais tarde, nova confusão na Gávea. Em agosto de 2008, durante treinamento realizado pelo técnico Caio Júnior, cerca de 30 torcedores invadiram o clube, soltaram uma bomba dentro de campo. Estilhaços atingiram o atacante Obina e o lateral-esquerdo Egídio caiu no chão com o impacto do artefato.
Entre discussões e corre-corre, o zagueiro e capitão Fábio Luciano e o lateral-esquerdo Juan foram até uma das grades à beira do gramado conversar com os torcedores. O time vivia forte pressão depois da eliminação vexatória na Libertadores contra o América-MEX do gordinho Cabañas no primeiro semestre. Na tabela, a equipe era a sexta colocada, a dois pontos do G4. Nem assim a fúria foi aplacada.
A partir do ano seguinte, os treinamentos do elenco foram priorizados no Ninho do Urubu. Torcedores chegaram a ir ao CT e, em 2012, chegaram a conversar com o então diretor de futebol, Zinho. Mas não entraram no local. Novamente neste domingo, André Santos foi a vítima da vez, ao ser agredido no Beira-Rio. Mais um triste capítulo da saga de amor e ódio nas cores preto e vermelho.
Fonte: ESPN

