O domingo do futebol carioca teve a marca do contraste, da disparidade. No fundo, reflexo de um campeonato que vê as distâncias entre melhores e piores aumentarem. O Brasileiro talvez ainda seja, em todo o mundo, a competição em que menos se estranhe uma vitória do lanterna sobre o líder. Mas, hoje, a sensação é de que se acentuaram as diferenças entre os candidatos reais ao título e, pelo menos, metade dos rivais. Trata-se do lado A e do lado B de nosso futebol doméstico.
No Rio, o lado A é o Fluminense. Abriu o domingo exibindo consistência e qualidade técnica. Mas acima de tudo, mostrou capacidade de controlar o jogo, impor seu estilo. Exatamente o futebol coletivo que tanto se cobra no Brasil desde a Copa do Mundo. Foi veloz quando precisou. Trocou passes e cadenciou quando lhe interessou. Mesmo fora de casa, deu ao Atlético-PR a clara mensagem de que a partida se resolveria da forma que o tricolor quisesse. Era o senhor do campo.
Na teoria, a opção por Valencia na vaga de Walter poria por terra a proposta arejada de ter Jean e Cícero como os primeiros volantes, ditando a organização do jogo com qualidade. Mas Cristóvão tinha outras variáveis a pesar. Walter vinha mal. E os substitutos, Samuel por exemplo, não transmitem confiança. Ao menos até que Fred reapareça. A opção aproximou Cícero, este jogador raro, polivalente, da área rival. E o Fluminense mandou no jogo. Produziu volume de jogo a partir da troca de passes. Se houve atuações destacadas, como a de Cícero, o que saltou aos olhos foi o conjunto harmônico e a busca do ataque. Um time moderno. Com sua formação titular, não parece dever tanto a Corinthians e Cruzeiro. Para verdadeiramente brigar pelo título, o obstáculo tricolor pode ser a falta um elenco tão farto em opções. O tempo dirá.
Curiosamente, coube ao Maracanã presenciar o lado B. Flamengo e Botafogo abusaram dos erros técnicos e da truculência com suas 46 faltas. Por que ganhou o Flamengo? Porque em campo, em meio às limitações, teve seus méritos. Foi mais organizado e mais dedicado. Teve uma ou outra atuação de bom nível, como a do volante Cáceres. Mas em campo, a rigor, o que se viu foi o bastante para entender por que o Fluminense tem 22 pontos, enquanto Botafogo e Flamengo, somados, têm os mesmos 22.
Talvez tenha sido fora de campo onde o Flamengo tenha tido mais acertos. Primeiro, abandonou a passividade com que perdia um jogo após outro. Deu as costas para aquele clube convencido de que se tornara uma instituição de aspirações modestas.
Na semana do clássico, promoveu um reencontro consigo mesmo. Primeiro, ao reduzir o preço dos ingressos. Depois, na volta à Gávea por um dia. Reverteu expectativas. Reviveu a ebulição, a efervescência. Eram quase mil pessoas na arquibancada para um treino sob chuva. As cartilhas podem condenar. Mas é questão de identidade. E cada clube tem a sua. O Flamengo já ganhou e já perdeu em meio ao oba oba. Na Gávea, ele não é certo nem errado. É característica. A tarefa é saber lidar com ele.
O Flamengo poderia ter ganho ou perdido para o Botafogo. Mas se preparou para o jogo como um autêntico Flamengo. E bastou ver que o clube abandonara a apatia, que a torcida respondeu. Fez frio, choveu muito. Cariocas detestam pôr o pé na rua nestas condições. Pois mais de 50 mil foram ao Maracanã ver o encontro do então lanterna com um Botafogo claudicante. O comando rubro-negro, quem planejou o jogo, acertou.
Do outro lado, o Botafogo abusou dos equívocos. O maior deles, aceitar o papel de coadjuvante. Foi conservador demais no primeiro tempo, abdicou de jogar.
O fato é que pouco se jogou no Maracanã. O gol de Alecsandro foi dos raros lances construídos com precisão, numa troca de passes bem executada. Algo que, em Curitiba, o Fluminense fizera em doses generosas. Lado A e lado B.
Fonte: Blog do Mansur



























