Parabéns a você, cujo verdadeiro compromisso é perante os fatos. Parabéns, leitor do novo Blog Teoria dos Jogos, que desde ontem pressiona o Datafolha pela divulgação de uma pesquisa estranhamente ocultada pelo instituto. Pouco mais de 24 horas após a coluna “A pesquisa ‘esquecida pelo Datafolha’”, eles sucumbiram aos clamores.
Vejam se não:
A manchete nem de longe se aproxima da exaltação do “empate técnico” a favor do Corinthians. Aliás, o clube paulista segue na manchete mesmo separado do Flamengo por estratosféricos quatro pontos percentuais. “Um em cada três torce para Flamengo ou Corinthians”, diz a Folha. Problema nenhum. O que se quer – o que se EXIGE – é tão somente transparência no trato com os números. E através do Blog Teoria dos Jogos eles vieram a público:
Não analisaremos os resultados gerais pois, além de auto explicativos, não trazem informações novas. Por sexo, a confirmação de uma constante abordagem: o Corinthians é o único em equilíbrio entre torcedores e torcedoras – as demais torcidas possuem maioria masculina. Sendo assim, a vantagem do Flamengo é maior entre eles (19% a 14%), enquanto o São Paulo (9%) reduz a diferença. Talvez a explicação recaia justamente no maior mérito corintiano: torcida que mais cresce no Brasil, atrai proporcionalmente pessoas com menor ligação ao esporte. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma dificuldade e uma oportunidade.
Ainda em termos de gênero, destaque para o resultado do Santos, que marcou nada menos que 5% entre homens – ultrapassando Cruzeiro e Grêmio. Se a tendência se confirmar, seria o primeiro resultado sólido atribuído às duas grandes gerações de “Meninos da Vila” (2002-2004 e 2010-2012). Menção honrosa também para Botafogo e Fluminense (3% entre homens), longe de qualquer empate com as ascendentes torcidas nordestinas.
Em tempo: incompreensível alijamento dos clubes pernambucanos na amostra. Prova cabal de que a metodologia ainda precisa melhorar para que as pesquisas Datafolha apresentem resultados mais consistentes.
Por faixa etária, soterra-se a velha máxima: a torcida do Corinthians não vai ultrapassar a do Flamengo. Pelo contrário. A diferença aumenta quando se caminha dos “25 a 34 anos” (20% a 16% pró-Fla) para “16 a 24 anos”. Entre jovens, nada menos que um quarto do Brasil torce pelo Flamengo (25%). Ainda que em crescimento, o Corinthians estaciona nos 18%, consolidando o Rubro-Negro como “torcida do futuro”.
Um contraponto: as massas de São Paulo (Corinthians + São Paulo + Palmeiras + Santos) já são maiores no agregado, numa diferença que só faz aumentar. O G4 paulista sai dos atuais 31% para 38% na faixa etária jovem. Já o quarteto carioca (Flamengo + Vasco + Fluminense + Botafogo) cresce de 27% a 32%, sendo os três últimos em situação de estagnação ou queda em seus quantitativos. Uma péssima notícia para o futebol do Rio de Janeiro.
Por escolaridade, renda e ocupação:
Primeiro, o poder de compra: economicamente, a torcida do Corinthians dá um banho, detendo 16% dos torcedores que auferem mais de 10 salários mínimos (R$ 7.240,00). O Flamengo fica inclusive atrás do São Paulo neste quesito (11% a 12%). Eis a justificativa da massificação corintiana em plena mídia. Em boa dose fincada na cidade de São Paulo – sede de quase todo o mercado publicitário – ela acaba por veicular aquilo que considera gerar mais retorno. Há apenas que se considerar o boom da classe média, já que os flamenguistas são maioria absoluta abaixo dos 5 salários-mínimos.
Ainda no tocante à renda, pode-se dizer que São Paulo, Santos, Internacional e Botafogo seriam nossas verdadeiras torcidas de elite. Todas se concentram nas classes de renda mais alta, sem o equilíbrio verificado na maioria das outras. O único clube verdadeiramente de massa (maior entre os mais pobres) seria o próprio Flamengo, já citado na explanação anterior.
Já no que se refere à escolaridade, São Paulo (10% em nível superior), Palmeiras (8%), Vasco (7%), Internacional (4%) e Botafogo (4%) crescem à medida com que se aumentam os anos de estudo. Novamente o Fluminense – notória “torcida de elite” do Rio de Janeiro – se vê atrás do rival Botafogo nos quesitos abordados.
Agora, a importante configuração geográfica:
Como se sabe, a maior do Sudeste é a torcida do Corinthians – sediado num estado com 41 milhões de habitantes. A Fiel angaria 20% da população, frente a 14% de flamenguistas e 10% de são paulinos. O Palmeiras marca 8% e a grande torcida cruzeirense vem com 7%. O Atlético-MG alcança o Vasco (ambos 5%), com Santos (4%), Fluminense e Botafogo (3%) nos calcanhares.
O Sul é território gremista. Tricolores atingem expressivos 22%, contra 18% de colorados. Com base em Santa Catarina, o Flamengo surge com 6%, empatado com o Corinthians – fenômeno paranaense. Mas a surpresa foram os 6% também registrados pelo Santos. Só questões relativas à margem de erro explicariam os 3% atribuídos ao Coritiba frente a 1% do Atlético-PR.
O Flamengo comanda no resto do país. Marca 24% no Nordeste, cresce a 25% no Centro-Oeste e verifica um apogeu de inacreditáveis 32% na região Norte. Destaca-se também o Corinthians como segunda maior torcida em todas estas regiões (10%, 15% e 11% respectivamente). Vascaínos suplantam são paulinos e palmeirenses no Norte/Nordeste (7% em ambos), mas perdem na região Centro Oeste – por conta da influência paulista no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul.
Por fim, o Flamengo amplia domínios em municípios de pequeno porte (19% abaixo de 50 mil habitantes), embora atinja o mesmo patamar em capitais de estado. O São Paulo trilha caminho oposto, marcando 9% em municípios acima dos 500 mil habitantes. O perfil do Grêmio é, no mínimo, estranho: de 7% (200 mil a 500 mil habitantes), despenca a 1% em cidades com mais de meio milhão de pessoas.
Diversas outras análises podem ser feitas, assim como alguns clubes tiveram seus números pouco abordados.
Fonte: Teoria dos Jogos



