Há quem pense que a vida de goleiro reserva é mansa. O primeiro suplente costuma ter oportunidades em suspensões ou lesões do titular, mas e os terceiros e quartos goleiros? Treinam, treinam, mas dificilmente concentram/atuam. Mas os jogadores que os torcedores menos veem dos principais clubes do país dão um jeito de não viver apenas do salário recebido pelos treinos.
Eles ralam muito fora dos gramados, também, pode acreditar. Dentro os principais clubes do país, história curiosas de vida “paralela” dos suplentes não faltam. Há quem aposte em sua própria marca de roupas. Ou invista em loja de carro. Há quem estude – e comemore não ser reconhecido nas ruas para poder estudar em paz.
O primeiro caso é de Leo, atual quarto goleiro do São Paulo, atrás de Rogério Ceni, Denis e Renan. Aos 24 anos, ele pouco entrou em campo pelo clube. Apesar de planejar continuar no São Paulo por muito tempo (tem contrato até o final de 2015 e deseja renovar), ele pensa no futuro. E esse pode ser sua loja de carros.
A InsulBlack fica em Suzano e faz diversos serviços automotivos, de funilaria a tuning. E esse segundo é o preferido de Leo:
“A área que eu mais atendo na loja, mais sou ativo, é a de acessórios, rodas e tal. Acessórios de tuning”, conta.
Claro que, com os treinos, ele não pode estar na loja o tempo todo. Mas sempre que possível ajuda seu sócio:
“A loja existe há oito anos, o Alan é o outro sócio. Fizemos amizade e ele me convidou para fazer uma coisa paralela ao futebol, pensando no futuro, e formamos essa sociedade. Minha programação é: eu treino normalmente e ele toca a loja. Sempre que dá eu vou na loja, se treinar de manhã eu estou lá de tarde, mas se é de tarde não vou, Vou lá umas quatro, cinco vezes por semana.”
Só que o clube, agora, tem ligação direta com a loja do goleiro: é que ele leva seus funcionários para reparos de companheiros de São Paulo no próprio CT da equipe.
“O clube sempre liberou para fazer serviços, faço para funcionário também. Até dirigente se precisar a gente faz”, explica. Mas quem mais gosta do assunto carros?
“Normalmente os mais jovens. Os goleiros conversam mais, o Denis, o Renan, para ver rodas, Ademilson já fiz roda também. No CT fiz rodas de quase todos já”, completa. Kaká foi outro que utilizou a loja do companheiro, mas para instalar um equipamento de som em seu veículo.
Acredite: o modelo da foto acima é goleiro e de um dos maiores clubes do país. Agenor Detofol é 3° goleiro do Inter. Mas aposta em outro ramo para faturar: ele e sua mulher têm uma marca de roupas, a Detofol Moda Masculina, além de uma loja em um shopping em Criciúma – atuando pelo clube da cidade, subiu da Série C para a Série B em 2011.
O foco da loja também é o futebol: oferece peças inspiradas na moda dos jogadores, com o objetivo de se diferenciar das marcas concorrentes. Se a loja vai bem, as chances no Inter são escassas: em 2014 fez apenas três jogos, todos no Campeonato Gaúcho.
Há quem aproveite o tempo mais livre, em comparação com o titular e primeiro reserva, para estudar. Gabriel Gasparotto, 3° goleiro do Santos, se encaixa nessa situação. Campeão da Copa SP em 2013, nunca atuou pelo time profissional.
E aproveita a falta de fama para estudar com mais tranquilidade:
“Eu faço curso de inglês. Antes eu fazia faculdade, mas comecei o curso de inglês. Às vezes me reconhecem lá, mas são poucas pessoas. Eu costumo ver amigos fora do futebol, que eu conheço em Santos. Ir à praia, frequentar lugares diferentes do hábito do futebol.”
“Eu consigo (ter uma vida mais normal). Diferentemente do Aranha, eu consigo frequentar um shopping, vários lugares, sem ser reconhecido, inclusive. Consigo ter uma vida mais normal, frequentar lugares públicos, ter hábitos normais”, completa.
O tempo para estudo também é aproveitado por outros goleiros, que investem em uma faculdade. É o caso de Fábio, que recentemente foi titular do Palmeiras na ausência de Fernando Prass, e está no último ano de Educação Física. Mesmo curso no qual investe Guilherme Gritti, quinto goleiro do Grêmio, em razão de um projeto do clube gaúcho, que tem parceria com a Universidade La Salle para seus jovens jogadores.
Por fim, há quem apenas tente aproveitar a vida fora dos holofotes com os quais os jogadores mais famosos têm que conviver. Helton, terceiro goleiro do Botafogo, explica:
“Não jogar é ruim, mas algo natural em um clube grande como o Botafogo. Sou um cara bem tranquilo, gosto de sair para jantar, ver filmes. Vejo bastante, uns três por semana. E gosto muito de ver futebol internacional, vejo sempre que posso.”
Bruno, do Palmeiras, aposta em videogames: gosta muito de esportes americanos e até faz cursos online sobre o assunto.
É a vida paralela de quem não costuma aparecer nem para a mídia, nem para os torcedores. E isso mesmo em um clube da Série A do Campeonato Brasileiro. O que todos têm em comum, além das poucas chances de atuar, porém, é o sonho de ser titular:
“Me dedico ao sonho de defender o Flamengo em um Maracanã lotado” exemplifica Daniel Miller, reserva do Flamengo.
Fonte: UOL

