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Consciência negra: a luta para combater racismo no futebol.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 20/11/2014
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Atualização: 23/01/2015
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Meio-campista do Internacional, Tinga foi vítima de racismo no Peru, em fevereiro de 2014: torcedores do time dono da casa, o Real Garcilaso, imitaram macacos a fim de insultá-lo. Um mês mais tarde, o ex-árbitro Márcio Chagas sofreu ataques no Rio Grande do Sul, depois de apitar a partida entre Esportivo e Veranópolis: “Teu lugar é na selva, volte para o circo”, disse ter ouvido do público, que ainda espalhou bananas sobre o seu carro. Aranha, goleiro titular do Santos, em agosto, também teve de encarar discriminação por ser negro, desta vez vinda da torcida do Grêmio – foi o caso de maior repercussão durante a temporada. Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, 319 anos depois da morte de Zumbi e 126 desde a abolição da escravatura, o FOXSports.com.br consultou especialistas para entender qual posição o futebol pode assumir enquanto instrumento na luta pela igualdade racial.
Futebol é reflexo da sociedade e arena permissiva
Secretário-executivo da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Giovanni Harvey atenta para o fato de que o racismo verificado no esporte é extensão daquele existente na vida social. “O racismo pode ser notado na sociedade em várias dimensões, e em todas elas nós vamos encontrar uma sub-representação da população negra, tendo em vistanúmero de negros dentro do conjunto da sociedade brasileira”, disse. “A discriminação se manifesta até mesmo na nossa própria linguagem. Expressões como ‘denegrir’ ou ‘a coisa está preta’ têm componentes que indicam preconceito”.
“No material didático de educação fundamental e média, temos histórias como a do ‘negro de alma branca’ e a invisibilidade da importância da população negra na construção da nossa sociedade. Na saúde, ainda há dificuldade crônica em se diagnosticar patologias que incidem mais em negros, como anemia falciforme. No sistema judiciário e criminal, há criminalização desproporcional de negros e negras, principalmente entre os 14 e 25 anos. O número de mortes violentas também é maior entre jovens negros do que entre jovens brancos, e com tendências inversas: caem os indicadores dos brancos, sobem os dos negros. Temos também a discriminação no mercado de trabalho…”, seguiu Harvey.
Marcel Diego Tonini, pesquisador da Universidade de São Paulo e responsável por trabalhos de mestrado e doutorado sobre o tema “negros no futebol”, vai além. Para ele, o esporte criou arena permissiva para os insultos: “No futebol, o racismo foi construído ao longo dos tempos como situação de jogo, como se ele tivesse suas próprias leis: naquele momento, nos 90 minutos, dentro de um espaço, que é o estádio, tudo é permitido”, avaliou. “O equívoco é tratar o que acontece agora como uma ‘onda de ataques racistas’. Na verdade, sempre aconteceu. Mas os casos estão ganhando dimensão maior, porque existe mídia muito maior no futebol, coisa que não existia no passado”, continuou.
O futebol como instrumento na luta
O futebol é “veneno”, para Tonini, enquanto mantiver essa postura que tolera todo artifício por um ganho qualquer na conta final, inclusive a discriminação racial, uma vez que grupos intolerantes se apropriam desse espaço e, sem punições estabelecidas para os agressores, o usa como meio de propagação de mensagens de ódio à sociedade. Mas bem pode virar “remédio”, invertendo o roteiro: “É o esporte mais popular do mundo, e deve usar essa massa de pessoas que o acompanha para passar um recado que exalte o respeito, a igualdade, a punição contra o que é errado. Acredito que é assim que o esporte alcançará um papel muito importante”, avaliou. “O futebol não tem importância no Brasil só como esporte, mas também como identidade do povo e até perspectiva de ascensão social do jovem negro, por isso é fundamental que se faça, através dele, a conscientização pela igualdade racial”, completou Harvey.
Para o Secretário-executivo da Seppir, Aranha e Márcio Chagas, ao não se calarem e exporem a violência a qual foram submetidos, deram “contribuição enorme” para a luta. O goleiro e o ex-árbitro ajudaram a inserir o debate étnico-racial no cotidiano e deram amplitude ao tema, processo importante para mobilizar também os poderes executivo, legislativo e judiciário. Não só isso: ajudaram a desmistificar paradigmas antigos – Harvey propõe como falha a percepção de que o negro deixaria de sofrer discriminação à medida que ascendesse socialmente: “O futebol é campo fértil para exemplos disso”.
“A invisibilidade do tema o fazia ser tratado como subproduto da desigualdade social, mas, em um contexto como esse, manifestações de racismo, antes mais discretas, tornam-se mais ostensivas”, disse. “Aranha falou muito bem e sofreu consequências. As pessoas utilizaram o fato de ele ter boa condição de vida e o de a autora do racismo (Patrícia Moreira) ter perdido o emprego para tentar inverter a relação de desrespeito e opressão estabelecida naquele momento. Ali, a atitude não tinha a ver com condição econômica, mas com o perfil étnico-social e identidade dos dois. A ascensão social não impediu que ele fosse agredido, o que evidencia que não é a pobreza ou a falta de escolaridade que gera descriminação – ela é componente das relações sociais de uma forma geral e muitas vezes se acirra nas vezes em que o negro ascende socialmente”.
Para combate do racismo no espaço do futebol, a CBF, além das campanhas públicas, desenvolveu aplicativo para denúncia, com possibilidade de anexação de imagens, das práticas discriminatórias nos estádios. A Seppir, por outro lado, está em fase final de criação de sistema nacional de call center. Os dois órgãos conversam para que as denúncias vindas da CBF sejam recebidas pela Seppir, a fim de que ela tome providências cabíveis com auxílio das Policias Civil e Militar, do Ministério Público e dos poderes legislativo e judiciário.
Técnico campeão pelo Flamengo em 2009, Andrade deixou o clube cinco meses depois do título – e com a marca de 70% de aproveitamento dos pontos. Não conseguiu mais espaço em time grande e atualmente treina o São João da Barra, equipe pequena do Rio de Janeiro. À época, disse que o racismo era parte responsável pelo seu esquecimento. “O futebol já parou guerra, é importante em todos os sentidos, e também nessa luta. Mas acho que as entidades que comandam o esporte devem ser mais diretas. E também pessoas importantes neste país, pessoas negras, poderiam falar sobre isso e não falam, não ajudam a carregar essa bandeira, então tudo fica um pouco mais difícil”, lamenta. Pelé, por exemplo, foi contra a reação de Aranha no caso acontecida na Arena do Grêmio.
“Claro que o Pelé deveria se posicionar mais. É uma pessoa forte no meio do futebol que poderia tomar uma posição sobre isso. Mais claro ainda que Aranha agiu de maneira correta. Tem de falar, denunciar. As pessoas têm de saber o que acontece: nós tivemos uma cultura de escravidão que repercute até hoje”.
Para combater o racismo, é preciso entender onde ele se encontra
Apesar de os casos mais famosos de racismo no futebol partirem de atitudes que vitimam os jogadores, Marcel Diego Tonini alerta para outras dimensões, também dentro do esporte, em que a discriminação está presente e afeta até em maior escala a luta pela igualdade racial. “Não se discute o racismo em outros espaços de atuação no futebol, como o de treinadores, dirigentes, árbitros e de próprios jornalistas esportivos negros. Isso reflete em todo o mercado de trabalho. E quanto mais se sobe na hierarquia desse mercado, mais controlado é o acesso, porque mais poder se tem, e menor é a presença de negros”, explica.
Nas principais ligas de futebol ao redor do mundo, a presença de negros entre os treinadores é quase nula. No Brasil, Cristóvão Borges, técnico do Fluminense, é o único representante da população negra na Série A. “As pessoas acham que, de repente, o negro não está preparado para assumir um cargo de comando”, avaliou Andrade. O problema, no entanto, não é exclusividade daqui, e outros esportes, de outros países, discutem medidas para aumentar o número de afrodescendentes.
Na NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos, vigora a “Lei Rooney”, que obriga as equipes a entrevistarem ao menos um candidato de minorias étnicas para cargos de técnicos principais. Como meio de combate ao racismo, o Campeonato Inglês de futebol cogita uma possível adaptação desta lei.
“Adotar cotas é uma boa maneira de tentar combater o racismo. Basta vermos, por exemplo, o que está acontecendo na própria sociedade brasileira: a conquista das cotas para ingresso no ensino superior pela população afrodescendente. A partir do momento em que eles conseguem entrar na universidade em maior número, eles vão formar dali cinco, 10 anos, um número maior de profissionais para atuar em diferentes áreas, o que, consequentemente, terá benefício para toda a população”, explica Tonini.
Para ele, há ainda outra forma de combater o racismo presente no futebol. “É preciso enfrentar a estrutura presente no futebol, que faz com que jogadores negros, ao longo da carreira, desistam de tentar entrar nessa profissão, a de técnico, depois da aposentadoria. Ao longo de toda a carreira, ele conta na mão o número de treinadores negros que ele teve, se é que teve algum. A partir do momento em que ele não vê ninguém nessa posição, entende que aquele espaço não é dele, mesmo que inconscientemente”.

Fonte: Fox Sports
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