Não Repare na Bagunça: a Lei do Silêncio no Carioca-2015.

No ano em que o Carioca terá enfim um Programa de Proteção à Testemunha, com o prefeito Paes anunciando ingressos no Engenhão mais baratos que um churros de rua*, uma nova regra desafia todos aqueles que ainda acreditam que esse torneio serve para alguma coisa além de nostalgia e eventual bullying local.
Num extraordinário senso de oportunidade, a Federação do Rio anunciou a regra que já ganhou aqui em casa o apelido de Não Repare na Bagunça: como aquela sua tia que deixa a casa cheirando a Veja Multiúso quando você a visita, a Federação ordena a atletas, técnicos e dirigentes que não reclamem da competição. Mas sua tia realmente arrumava a casa; o pedido era apenas um reflexo dos sonhos de decoração ainda frustrados. Já a Federação pretende multar os clubes dos reclamões, ou seja, dá para fazer dinheiro com isso. Ela sabe de algo que ignoramos?
Na verdade não, é só uma demonstração vulgar de poder. Na mesma decisão, são concedidas 48 horas a fim de que se retratem, escapando assim de pagar metade da multa. Isso significa que a Federação do Rio aposta que não há alguém com suficiente coragem para peitá-la por mais de 24 horas. Com escárnio absolutamente sutil, essa regra sussurra ao bom entendedor: “Atletas, vocês são imbecis. Técnicos, vocês são casuístas. Dirigentes, vocês são coniventes. Então chão, chão, chão, cha-cha-chão”.
Mas o que pode piorar? Todos sabemos que a fórmula de 16 clubes em 15 rodadas é imbecil, tediosa e feita para torturar nossas memórias de quando a Taça Guanabara era realmente algo que valia perder a voz. Todos sabemos que ninguém vai ligar até chegar às semifinais. Que os erros de arbitragem serão mais distribuídos que beijo de candidato. Que ganhar o Estadual não serve para medir as chances de conquista do Brasileiro. Nem inventamos novas reclamações, apenas repetimos as de sempre – com a certeza de que jamais seremos ouvidos.
Ninguém pode dizer que o Esporte não educa para a vida quando lê um regulamento como esse. Essa regra diz coisas que podem ser traduzidas como “liberdade de expressão não enche barriga”, “nunca faça críticas se sua opinião não for pedida” ou até “quem se cala tem mais chances de se dar bem” – valores extremamente importantes numa sociedade distópica como a nossa.
O problema é alguém querer ver essas aulas. Mas fique tranquilo, eu mantê-lo-ei informado**.
* Os cariocas falamos “um churros” e juramos que paulista fala “um chops”. Esqueça: na verdade, paulista fala “um shorts”.

Fonte: Blog do Márvio dos Anjos