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Por que os pontos corridos têm que continuar.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 06/01/2015
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Atualização: 23/01/2015
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Entra ano, sai ano, discute-se a redução dos pontos corridos e a volta do mata-mata ao Campeonato Brasileiro. Desta vez foi Romildo Bolzan Júnior, novo presidente do Grêmio, a se movimentar nos bastidores em prol do formato de disputa, com argumentos de que haveria mais torcida nos estádios e mais renda para os clubes se fizéssemos novamente finais. Acrescentam-se a esses outros como maiores audiências da TV em fases decisivas e emoções e reviravoltas, elementos indispensáveis ao futebol, que fazem do mata-mata um “fantasma sedutor”, definição precisa e pertinente do colega Douglas Ceconello. Seduz, é verdade. Mas nem tudo que seduz faz bem.
Os pontos corridos tornam a disputa mais estável e justa – e eu não falo, aqui, do ponto de vista esportivo, mas do gerencial. No atual Campeonato Brasileiro, Chapecoense, Goiás e Sport, apenas para citar três clubes de menor receita de três estados distintos e afastados um do outro, jogam 38 partidas na temporada. É o mesmo número de jogos que Corinthians, Flamengo e o próprio Grêmio. Em 2002, ano de 26 clubes na elite, cada um disputou 25 jogos na fase de pontos corridos. Em 2001, com 28 times, cada um jogou 27 vezes. Em 2000, ano esquisitão de João Havelange, cada um dos 25 do módulo azul disputou 24 partidas. É óbvio: naquela época havia só jogos de ida, sem volta.
Coloque-se agora no sapato de um dirigente da Chapecoense, do Goiás ou do Sport. Hoje, com 20 clubes na Série A, se o formato de disputa fosse aquele de 2002, 2001 e 2000, teu time entraria em campo 19 vezes. Isso muda tudo. Ainda que suas bilheterias não te façam rico nos pontos corridos, haveria a metade dos jogos para vender ingressos. Menos receita. Jogar contra o Flamengo, que leva mais público aos estádios adversários, seria uma roleta: você poderia ter a sorte de enfrentá-lo em casa ou o desgosto financeiro de ir ao Maracanã. O mesmo vale para a sensação do momento, o líder do campeonato ou o time que tem o Neymar da vez. Já o sócio-torcedor, que só mantém mensalidades em dia quando tem vantagens, a maior delas o desconto para ver o time jogar em casa, teria a metade dos confrontos para assistir – de novo, sem garantia de que ele verá o clube dele enfrentar Flamengo, líder ou Neymar. Menos receita. Haveria a metade de partidas transmitidas pela televisão local, e isso afetaria tanto a verba que você recebe da TV quanto o retorno que você dá a seus patrocinadores. Consequentemente, você teria menos poder de barganha numa negociação com emissora ou patrocinador. Menos receita. Que tal?
Aí argumentariam: mas jogar fases decisivas também beneficia esses clubes com menor poder financeiro. Veja o Atlético-PR, campeão em 2002, e o São Caetano, vice-campeão em 2001 e 2000. Pergunto: quantos deles efetivamente chegam lá? Em 2002, só Juventude e São Caetano, entre os oito que jogaram as quartas de final, eram muito mais pobres do que os rivais, e nenhum deles foi às semifinais. Quantas vezes numa década tua Chapecoense, teu Goiás ou teu Sport teriam condições de avançar às semifinais, pelo menos, para poder gozar da média de público e da audiência superiores nessa ocasião? Seja sincero, torcedor. Nos 12 anos de pontos corridos, de 2003 a 2014, houve seis campeões de três estados diferentes. Nos 12 anos anteriores de mata-mata, de 1991 a 2002, houve nove campeões de quatro estados. O aumento na variedade de campeões, se ocorresse, valeria o sacrifício dos 12 que não avançariam às quartas de final, quase todos eles em crônica desvantagem financeira?
Tenha em mente também que um formato com ida e volta nos pontos corridos mais três fases de mata-mata deixaria o já pesado calendário do futebol brasileiro ainda mais inchado.
O Brasil tem um campeonato mata-mata. Chama-se Copa do Brasil. Ela foi desvalorizada por um longo período e será subjulgada por outro talvez igualmente longo, mas não seria melhor negócio valorizá-la, em vez de mexer na estrutura que os pontos corridos criaram no Brasileiro? Antes a Copa do Brasil era disputada só no primeiro semestre e não tinha clubes que disputavam a Libertadores. Hoje vale o ano todo e tem esses times. Ela é transmitida nas noites de quarta e quinta, quando o Ibope é maior do que no domingo, e teve um 2014 memorável ao contrapor Atlético-MG e Cruzeiro na final, fora as viradas dos atleticanos sobre flamenguistas e corintianos. Nela clubes menos endinheirados têm oportunidade de enfrentar Flamengo e Corinthians em casa e, com emoção e reviravolta, talvez superá-los. Há aí um trabalho complexo e penoso para valorizar a Copa do Brasil, mas mais seguro e sustentável para o futebol brasileiro, em curto e longo prazos, do que tirar méritos dos pontos corridos. Por que não?

Fonte: Dinheiro em Jogo
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