Esporte Interativo – O professor universitário Pedro Hallal tinha cinco anos quando foi ao estádio Bento Freitas, ao lado do pai e da irmã, ver a partida do Brasil de Pelotas contra o Flamengo pelo campeonato brasileiro de 1985. Apesar da pouca idade, lembra de muita coisa.
“Uma avalanche de gente, meu pai nos segurando na fila. E lembro bem do primeiro gol. No segundo eu não sei se já estava dormindo ou fazendo outra coisa”, conta.
Foi um dos jogos mais emblemáticos da história do Brasil de Pelotas. O Flamengo tinha Zico, Mozer, Andrade, Bebeto e era o grande time brasileiro da época. Mas o Xavante conseguiu vencer por 2 a 0 e praticamente garantiu sua classificação para as semifinais da competição. Um acontecimento que só o futebol proporciona.
Hoje com 35 anos, Pedro está em vias de entrar em combustão espontânea com a oportunidade de levar o filho Lucas, com os mesmos cinco anos, ao primeiro jogo entre Brasil e Flamengo pela Copa do Brasil nesta quarta-feira, no Bento Freitas. Xavante fanático, Lucas irá pela segunda vez ao estádio.
“Aqui o regime é fundamentalista. Não é permitido torcer por um time da capital”, brinca Pedro.
Não há consenso sobre o público da partida disputada há 30 anos. Fala-se em 22 mil pessoas, mas os xavantes mais entusiasmados garantem ter contado quase 85 mil pessoas naquela noite. Pedro, que se lembra do mar de gente naquela noite de 18 de julho de 1985, acredita que terá mais tranquilidade para levar o pequeno Lucas ao estádio nesta quarta.
“A sensação para ele vai ser a mesma que foi para mim. Mas eu como pai estou mais tranquilo que meu pai estava na época”, diz.
A estreia do Flamengo na Copa do Brasil promete ser uma noite de celebração pelos 30 anos do feito xavante. Atividades que estavam sendo preparadas para o segundo semestre foram antecipadas em função da coincidência do confronto entre as duas equipes. Ao lembrarem a vitória sobre o Flamengo em 1985, os xavantes sonham em poder repetir a façanha. Será, na verdade, uma grande noite de celebração à melhor parte do futebol. Aquela que acontece na arquibancada.
Torcedores estão se mobilizando para reunir material e promover um grande espetáculo antes da partida. A professora Janaína Motta é uma das responsáveis por recolher dinheiro e doações de balões brancos – serão cinco mil balões nas mãos dos torcedores. O dinheiro será usado na compra de sinalizadores – que serão usados somente do lado de fora do estádio, na recepção ao ônibus dos jogadores.
“Pessoas que nunca vejo falar em futebol estão empolgadas. Parece um festejo pelos 30 anos daquele jogo de 1985”, resume Janaína. Só na segunda-feira, ela já conseguiu 3250 balões.
Em reunião com a Polícia Militar, dirigentes e torcedores do Brasil conseguiram a liberação para os cinco mil balões dentro do estádio e seis extintores que soltarão fumaça preta e vermelha. Colaborador da direção, Thiago Perceu garante que a ação será feita por pessoas com treinamento e terá acompanhando dos policiais, que recolherão os extintores logo em seguida.
“Uma nuvem rubro-negra vai tapar o estádio”, promete. Não deixa de ser uma homenagem também ao convidado da noite.
Perceu conta que as atividades foram antecipadas em função do jogo contra o Flamengo.
“Já imaginávamos comemorar os 30 anos da campanha de 1985, pela importância que tem para o clube. Acabou que o sorteio nos colocou para jogar contra o Flamengo, contra quem o Brasil fez o jogo mais emblemático daquele ano”, relata. Entre as ações, o clube vai lançar uma camiseta especial alusiva à temporada histórica. Uma parte do novo sistema de iluminação, bancado com recursos reunidos pelos torcedores, vai ser inaugurado contra o Flamengo. Os xavantes estão preparando uma grande festa.
Mas não pensem que eles estão cantando vitória antes da hora ou desrespeitando o Flamengo. Pelas conversas com os torcedores dá para perceber que o clima geral é de celebração de um grande momento do clube e de motivação diante da oportunidade de repetir um feito histórico.
Thiago Perceu afirma: “A obrigação é do Flamengo, a diferença é gigantesca. Mas acredito na vitória, na força do Brasil em casa. Podemos conseguir mais uma façanha e superar toda essa diferença. Essa é a graça do futebol”.
Segundo a assessoria de imprensa do clube, não sobrará espaço entre os 12 mil lugares destinados para a partida. Os flamenguistas devem comparecer em 1,5 mil pessoas. Nesta segunda-feira já estavam esgotadas as cadeiras cativas e a direção informou que não admitiria novos sócios xavantes temporariamente. O número de menores não-pagantes também foi limitado.
O Bento Freitas, 30 anos depois, viverá outra grande noite rubro-negra. Vanderlei Luxemburgo sabe que encontrará um adversário determinado e nem fala em eliminar o jogo da volta. Rogério Zimmermann, treinador do Brasil, vai ter a grande chance de mostrar seu trabalho de quase três anos à frente do time. Se chover, o gramado pode representar um problema para o espetáculo. Mas isso pouco importa. Os fatos mais importantes do reencontro entre Brasil e Flamengo acontecerão do lado de fora do estádio, na arquibancada e no gramado antes do apito inicial. Quem aprecia futebol feito de tradição, história e paixão por uma camiseta, não pode perder.
Bira: “Estou vivendo esse momento de novo”
Um dos homenageados da noite será Bira Souza, autor do primeiro gol da vitória do Brasil sobre o Flamengo em 1985. Por coincidência, ele completou 50 anos nesta segunda-feira. Ele estava no gramado do Bento Freitas, dando entrevistas para as TVs. Foi difícil conseguir encontrá-lo, mas no final da tarde ele finalmente atendeu ao telefone falou sobre a atmosfera vivida em Pelotas: “Vai ser muito lindo”.
Como está o ambiente em Pelotas?
A cidade já está movimentada. Já tem fila para ingressos, carteirinhas de sócios. Queira ou não queira, é o Flamengo que vem a Pelotas de novo. Pessoal de rádio, TV, está todo mundo chegando. A parafernália toda que a gente conhece já está instalada. Está muito legal.
Na época, o Brasil jogou muito com o gramado mais pesado, a pressão da torcida. Hoje é diferente. O time vai ter que jogar bem para vencer o Flamengo.
Hoje é bem mais complicado. O futebol hoje é jogado de maneira diferente. Os técnicos usam formatação tática diferente, os jogadores são outros. Eu me recordo que o Flamengo era um time fantástico. Se hoje as pessoas chamam alguns times de galáticos, do que a gente chamaria o Flamengo daquela época? É o jogo da vida para os jogadores, para se consagrarem, fazerem história. O comportamento tem que ser outro. Mas eu acredito muito no espetáculo. Vai ser muito lindo. Vamos receber o Flamengo, disputar a Copa do Brasil, onde dois jogos que decidem tudo, e tentar o segundo jogo. E para isso temos que respeitar o adversário, receber bem o Flamengo e acima de tudo correr muito mais.
Como foi que o Brasil venceu o Flamengo em 1985?
A gente já vinha muito bem dentro da competição, eliminando grandes equipes do futebol nacional. A gente vinha classificando, mas as pessoas não davam importância para o Brasil. Só que a gente era muito feliz jogando futebol, não era como hoje. A gente jogava com prazer, e sabia que ia enfrentar os melhores do país. A concentração era muito grande. O Flamengo veio jogar mais um jogo, mas aquele era o jogo das nossas vidas. Esse respeito ao Flamengo foi que nos levou a vencer, com dois gols inusitados. Mas alguém tinha que estar ali para definir aquela jogada.
O jogo de 1985 está sendo muito lembrado. Isso pode ajudar ou atrapalhar os jogadores do Brasil?
O Brasil tem hoje a felicidade de ter um técnico muito centrado. O Rogério é um cara que trabalha muito, muito concentrado no que faz. É um técnico que em breve vamos ver no cenário nacional. Ele vem montando o time há dois, três anos, e vem encaixando de forma espetacular, ganhando títulos, subindo de divisão. O Rogério vem trabalhando essa equipe de tal forma que tenho certeza que eles não estão preocupados com o ambiente fora do campo de jogo. Mas o Rogério me falou hoje (segunda-feira) que usa muito o que nós fizemos em 1985, não só para esse jogo, para mostrar que nada se conquista por acaso. Ele está muito sossegado. É um jogo de extrema importância para o Brasil, mas é um jogo contra o Flamengo. É um jogo que pode colocar os jogadores no cenário nacional, como ocorreu comigo há 30 anos. Perder para o Flamengo é normal. Ganhar é completamente diferente. Mesmo que o Brasil perca no jogo da volta. Tudo que está acontecendo hoje em Pelotas, a culpa é do Flamengo. Imagina poder recebê-los no mesmo estádio, com a mesma proporção. É um alvoroço total. É sensacional. Eu estou vivendo esse momento de novo.
E está preparado para a homenagem que vai receber?
Tenho que estar no campo por volta de 21 horas, vai ter a inauguração de uma placa. Eu já estou me preparando para isso, dando entrevistas, contando histórias. Se eu deixar pra vir só na hora do jogo, não vai me fazer bem. Estou no ambiente do jogo, vou estar na concentração. Vou criar esse ambiente pra mim como se tivesse que entrar em campo na quarta-feira.
