O Globo – Depois de Estácio de Sá expulsar os invasores, vieram os holandeses, que falavam flamengo, e aves da espécie dos flamingos para batizar o bairro e o clube mais popular da cidade. Na vizinhança, a fronteira com Botafogo é a mesma que divide o campo do Maracanã, amanhã, no clássico que celebra os 450 anos do Rio e o último jogo oficial de Léo Moura pelo rubro-negro.
Das mãos do assessor, Reyes de Sá Vianna do Castelo, que leva o sobrenome do primeiro governador da cidade, o técnico Vanderlei Luxemburgo pegou o microfone para anunciar a refundação do Flamengo a partir da saída do seu jogador mais experiente. Por trás da diplomacia que cobre o lateral de homenagens, houve um embate silencioso que precipitou sua saída quando o clube, seja por limites técnicos ou financeiros, não quis renovar o vínculo por mais de seis meses.
— O contrato é bilateral, foi consenso que era melhor assim — disse o técnico.
Nas voltas do mundo da bola, chegar ao fim é uma forma de voltar ao início. Clube onde Léo Moura se formou, o Botafogo também acolheu Vanderlei quando este trocou a companhia de grandes ídolos no Flamengo para tentar mostrar que tinha luz própria no alvinegro. No encontro dos rivais que se completam, Vanderlei surge como a estrela solitária de um Flamengo que não tem mais ídolos para dividir a responsabilidade e os holofotes com seu comandante.
— Estamos passando por uma mudança no elenco, a cobrança vai ser muito forte — disse o técnico, que não terá Éverton e Cáceres, machucados, e pode manter Alecsandro no ataque, com Marcelo Cirino e Nixon ou Gabriel pelos lados.
Sua convicção no esquema com três atacantes é um sinal dos tempos que anuncia a saída do último moicano. Léo Moura se caracterizou por pegar a bola na intermediária e avançar em diagonal na direção do gol. Em vez de fazer da linha lateral um trilho para subir e descer constantemente, repetiu o movimento da infância para chegar ao treino. De Vila Kennedy para Marechal Hermes, era melhor pegar um atalho de ônibus do que fazer o caminho mais longo de trem.
Nova ordem tática
A mudança do papel do lateral no últimos anos teve a ver com o congestionamento de volantes e a falta de meias para fazer ultrapassagens pelas pontas. De tanto afunilar em vez de alargar o campo no ataque, Léo Moura acabou reduzindo seus espaços.
— Hoje, com a tendência dos três atacantes, o lateral joga aberto à espera que alguém encoste para fazer dois contar um — analisou Vanderlei, que também enfrenta o desafio de encontrar novos caminhos para chegar ao mesmo lugar.
Maior vencedor do Brasileiro, o técnico ainda persegue uma conquista de expressão no Rio. Pelas mãos do parente distante de Estácio de Sá, chegou a hora de Vanderlei de demarcar o território que separa Flamengo de Botafogo.
