ESPN – Há quem defenda com discurso otimista de que nada muda na política interna do Flamengo com a saída de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, da vice-presidência de marketing. Mas há, também, quem diga que o desmonte da chamada Chapa Azul, vencedora do pleito de 2012 com a promessa de gestão profissional, poderá ser como um castelo de cartas a partir da saída de Bap. Por enquanto, o tom da Gávea de nada tem de azul. Mas, sim, de um nebuloso cinza.
Bap despertou amor e ódio. Apresentou resultados e mostrou ser intransigente em algumas decisões ao longo de pouco mais de dois anos. Bateu de frente, não fugia ao combate. Mas cansou. Responsável por formar o grupo de executivos bem sucedidos para tentar o poder no Flamengo, o dirigente se desligou do clube bastante irritado. Queria o choque com a Ferj, uma ruptura imediata. Diante de um acordo, feito de boca e à revelia de parte da diretoria, para o clube jogar no Maracanã contra o Barra Mansa nesta quarta-feira, o dirigente decidiu que era hora de deixar de remar no revolto mar rubro-negro.
A ideia vinha sendo amadurecida há algum tempo e com troca de pensamentos com pessoas próximas, como Zico. A postura do presidente do clube, Eduardo Bandeira de Mello, no combate à Ferj mesmo depois de ter sido xingado no Arbitral da última semana não lhe agradava. Reconhecia no mandatário uma liderança, mas sem o choque necessário para confrontar decisões que não agradavam ou desrespeitavam o clube. Ainda que gerasse desgaste. Confronto de ideias. Confronto de posturas.
Luiz Eduardo Baptista era o homem mais influente no Conselho Gestor que comanda os rumos da Gávea. Wallim Vasconcellos, ex-vice de futebol e atual de patrimônio, Rodrigo Tostes, de finanças, Rodolfo Landim, de planejamento, e o próprio presidente Bandeira completam a lista. Do escritório onde atua como presidente da operadora de TV Sky, em São Paulo, Bap comandava também ações no Flamengo. A distância de quase 500 quilômetros entre a capital paulista e o Rio, aliás, foi munição para os desafetos na Gávea, como Leonardo Ribeiro, o Capitão Léo. Longe do dia a dia do clube, atacavam, ele não teria discernimento para tomar decisões necessárias.
Visado, Bap tornou-se interna e externamente o ícone da Chapa Azul. Era o fio-condutor da gestão. No departamento de marketing rubro-negro, antes alvo de fortes críticas, comandou uma reestruturação e colecionou alguns de seus elogios. De um clube que ficara meses sem patrocinador master na última gestão, o Flamengo saltou para o uniforme mais valorizado do futebol brasileiro, com cerca de R$ 91 milhões arrecadados com a venda de propriedades. Era Bap o responsável pelos contatos inicial com empresas, vendendo a marca Flamengo e utilizando seu prestígio no meio em prol do clube.
Estrutura política e participação no futebol
Responsável pela estrutura formada para agir politicamente e vencer a eleição de 2012 diante da então presidente Patricia Amorim, Bap repetiu a dose em disputas internas, ampliando a influência da atual gestão em outros poderes do clube. Em eleições nos Conselhos Deliberativo e Fiscal, o ex-dirigente teve participações importantes, coordenando a estrutura necessária para ações efetivas, como o relacionamento com os sócios. No fim do ano passado, gravou um vídeo que foi espalhado nas redes sociais para rebater e ironizar críticas. O reflexo foi positivo para a Chapa Azul. Fora de campo, tudo bem. Mas residiu no futebol o maior tema para embates.
Carro-chefe do clube, o futebol rubro-negro foi o terreno pantanoso em que Bap encontrou problemas e encontrou discordâncias mais fortes. Homem-forte, Bap entrou em contato com técnicos e empresários para iniciar negociações em nome do Flamengo. Tarefa que, na teoria, caberia ao departamento de futebol. Mano Menezes, por exemplo, fechou sua contratação em reunião em São Paulo com a participação do dirigente, em junho de 2013.
Vanderlei Luxemburgo também foi contactado por Bap em sua chegada. Ficou famosa, também, uma passagem em 2013, quando, com o time em má fase, o vice de marketing chegou no vestiário após um jogo e teria se dirigido aos jogadores contratados no interior de São Paulo, casos de Paulinho, Diego Silva, Bruninho e Val, e dito: “quem contratou vocês fui eu”. Esse tipo de postura, com personalidade forte, causou rusgas e desagradava. Até culminar na precificação dos ingressos.
Defensor ferrenho do projeto de sócio-torcedor, Luiz Eduardo Baptista era partidário de ingressos mais caros e disputa de jogos em outras praças, como Brasília e Manaus, para maiores arrecadação, exposição da marca e valorização do programa. O confronto com os gestores do departamento de futebol foi inevitável. Os jogadores, por vezes, reclamavam de ficar tanto tempo longe da família e fora da cidade. Externavam a saudade da torcida local. O clima esquentava. Em outras ocasiões, Bap tentou exercer a liderança para evitar deserções, como ocorreu com dois vice-presidentes no ano passado. Mas foi também em 2014 que o clube viu uma forte discussão interna. Alexandre Wrobel, vice de futebol, e Vanderlei Luxemburgo defendiam publicamente a redução dos valores dos ingressos. Bap, contrariado, se irritou. Desejava manter os preços mais altos. Mas se rendeu aos apelos de um time que brigava arduamente contra o rebaixamento.
A posição de Luxemburgo, ao defender jogos no Maracanã com valores mais acessíveis, incomodou bastante. Entusiasta da contratação do técnico, Bap teve dúvidas sobre a permanência ainda que o contrato tivesse sido acertado até o fim de 2015. Publicamente, Luxemburgo garantiu a permanência e se antecipou ao clube. Com o copo da paciência já cheio, Bap viu a última gota d´água pingar sem uma ruptura clara diante da determinação da Ferj sobre ingressos baratos no Carioca. Há quem diga que se trate de uma saída temporária. Outros, mais ligados ao dirigente, garantem ser irreversível. A reportagem tentou contato com o ex-dirigente, sem retorno. Irritado, Bap deixou o clube e o panorama para a eleição presidencial em aberto. A oposição se anima. A situação recalcula os passos. E, de azul, a Gávea subitamente adotou a coloração cinza.
