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Bota x Flamengo: duelo de clubes com nomes de bairros.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 01/03/2015
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Atualização: 01/03/2015
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Globo Esporte – Copacabana x Ipanema. Ipanema x Leblon. Copacabana x Leblon. Se no fim do século 19 o Rio de Janeiro já tivesse descoberto as belezas das até então desertas praias, poderia ser um desses o duelo de hoje no Maracanã entre dois dos maiores clubes. No dia em que a Cidade Maravilhosa completa 450 anos, o tradicional clássico Botafogo x Flamengo é o retrato de como o futebol andou junto e misturado na vida do carioca. Dá para fazer uma boa lista de clubes criados com nomes de bairros. Além do Rubro-Negro e do Alvinegro, que representam a Zona Sul, do outro lado do túnel tem Bangu, Madureira, São Cristóvão, Bonsucesso, Olaria, Campo Grande…

No caso de Botafogo e Flamengo, o destino quis que se reencontrassem nessa importante data para a cidade. E dos milhões de torcedores espalhados não só no Rio de Janeiro mas em todo o país, poucos sabem que um surgiu por causa do outro. Se no futebol o Flamengo se originou de uma cisão de jogadores do Fluminense, a sua criação, do remo, ocorreu por um fato curioso. E com a cara do povo carioca. Sim, o Rubro-Negro surgiu por causa de mulher. E numa mesa de bar. Em 1895, os remadores desfilavam na cidade como estrelas do esporte mais popular. O Botafogo já tinha sua equipe, que fazia muito sucesso com as meninas. Como os bairros eram vizinhos, os rapazes do Flamengo ficaram preocupados com a concorrência. Perder as mulheres mais bonitas para os botafoguenses era desesperador para os jovens moradores. Daí a ideia de formar um grupo de regatas – que depois se tornou clube – para ser o rival.

Esse mesmo rival Botafogo que incomodava tanto os garotos da vizinhança, criado em 1894 como Clube de Regatas Botafogo, na verdade era a cara-metade do que hoje é sinônimo também de paixão. Em 1904, por conta do interesse maior que o esporte novo despertava na garotada, surgiu o Botafogo Football Club. Em dezembro de 1942, os dois fundiram-se para se transformarem no Botafogo de Futebol e Regatas, alegria de muitos brasileiros.

Electro, não!

“Como vocês são sem imaginação! Escolher um nome tão feio! Morando aqui onde moram, o nome tem que ser…Botafogo.” Foi com um argumento tão simples, porém objetivo, que Dona Chiquitota reagiu ao saber que Electro fora o escolhido por seu neto e alguns amigos para nomear o clube de futebol que estavam criando no bairro carioca em 1904. Mal poderia imaginar aquela senhora, então com 54 anos, que sua sugestão se transformaria na gloriosa marca centenária tão ligada ao Rio de Janeiro, reconhecida em todo o mundo e, o mais importante, capaz de despertar um sentimento quase inexplicável de amor incondicional em milhões de torcedores, Aliás, bem mais do que torcedores, botafoguenses.

Francisca Teixeira Leite era avó de Flavio Ramos, então um rapazinho de 15 anos, que juntamente com Emmanuel Sodré e outros colegas do tradicional Colégio Alfredo Gomes fundou oficialmente o Botafogo Football Club em 12 de agosto de 1904, com o objetivo de poderem praticar o novo esporte que já atraía as atenções dos meninos da incipiente cidade no início do século passado. Nome decidido, Dona Chiquitota tomou outra decisão crucial: cedeu o chalé de um velho casarão da extinta Rua Conselheiro Gonzaga (esquina da Rua Humaitá com Largo dos Leões) para servir de sede ao novo grêmio e que se tornaria, para muitos jornalistas dos primeiros anos do futebol no Rio, o mais carioca de todos.

Para entender tal afirmativa, é necessário voltar no tempo, voltar muito no tempo, até o dia 1º de março de 1565, precisamente há 450 anos, quando o português Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Com o intuito de desenvolver a região, o capitão-mor e governador Estácio decidiu fazer doações de terras a colonos e agricultores, como a seu amigo Antonio Francisco Velho (que por 40 anos emprestaria inicialmente seu nome à região). Ainda de acordo com o professor e historiador Milton Teixeira no blog da Amab (Associação de Moradores e Amigos de Botafogo), em 1590 Velho decidiu vender todo seu lote ao também conterrâneo João Pereira de Souza, que, “por ter sido chefe da artilharia do galeão São João Baptista, era conhecido como Botafogo, pomposa alcunha que a poderosa embarcação de guerra ganhara devido a suas inúmeras conquistas e inigualável poder de fogo”.

Com o nome devidamente escolhido, os meninos fundadores trataram de reunir mais adeptos e bater suas primeiras “peladas” no Largo dos Leões, tradicional ponto de encontro do Rio antigo e, ao lado da Enseada, até hoje uma das principais referências históricas da cidade. Pois foi com as palmeiras imperiais como traves que Flavio Ramos e companhia utilizaram o local como campo e deram seus chutes iniciais como futuros “players” do Botafogo Football Club, que disputaria dois anos depois o primeiro campeonato oficial da cidade.

Pouco mais novo do que o Fluminense (surgiu em 1902), o Alvinegro era formado basicamente por meninos e jovens nascidos na cidade, enquanto o coirmão tinha em sua maioria de associados “homens feitos”, além de ingleses e descendentes, o que dava um ar aristocraticamente mais maduro ao clube das Laranjeiras. Mais um ponto que associa diretamente o Botafogo ao Rio e o coloca na vanguarda do futebol da cidade é ter sido o primeiro campeão oficial (1906), fato que ocorreu com a conquista do chamado torneio de segundos quadros, terminado antes da competição jogada pelos times principais e vencida pelos “marmanjos” do Fluminense. Sendo assim, a primeira equipe a conquistar uma taça de uma disputa de futebol nas terras de Estácio de Sá foi… o Botafogo.

De mãos dadas ao bairro, o clube foi rapidamente ganhando dimensões, que fizeram com que seus meninos fundadores procurassem um campo “de verdade” para que pudessem praticar melhor e enfrentar, quem sabe, o já experiente “team” do Fluminense. Usaram o da Rua Humaitá, depois o da Voluntários da Pátria e finalmente o da Venceslau Brás, sendo fundada em 1913 aquela que passaria a ser a histórica casa do Botafogo: a sede de General Severiano.

No aspecto social, o Alvinegro (que passaria a ser chamado também de o Glorioso após a conquista do campeonato de 1910) também está ligado diretamente ao Rio, já que os famosos encontros dançantes no palacete de General Severiano, assim como os concorridos bailes de carnaval, foram durante décadas arduamente disputados pela sociedade carioca e viraram momentos marcantes na história da cidade.

Além de ter sua imagem sempre relacionada ao Carnaval, o Rio de Janeiro também é praia, outro privilégio que o Botafogo teve na formação de muitos de seus times até os anos 1970. Vários jogadores alvinegros foram formados nas areias de Copacabana, berço de craques que brilhavam no então chamado futebol de praia e escolhiam o preto e branco como opção para tentar a sorte nos gramados. De fato, muitas são as evidências históricas que fazem a trajetória do Botafogo estar intimamente ligada à própria história do Rio de Janeiro, e neste domingo, quando a Cidade Maravilhosa completa 450 anos de vida, não será exagero algum afirmar que muitos de seus momentos marcantes tiveram ao lado um de seus filhos mais ilustres, o Botafogo.

Pherusa: tragédia inicia paixão

E a história do clube mais popular do país também tem relação direta com a cidade do Rio de Janeiro. Tudo começou numa noite de setembro de 1895. Quatro amigos ainda atordoados por perderem as meninas do bairro do Flamengo para o vizinho Botafogo, cujos remadores eram os “sarados” da época, se reuniram no tradicional Café Lamas, à época localizado no Largo do Machado, para pôr a ideia de recuperá-las em prática.

Era necessário ter também o seu grupo de remo. José Agostinho Pereira da Cunha, Mário Spindola, Augusto da Silveira Lopes e Nestor de Barros – mais especificamente, Zezé, Mário, Augusto e Nestor -, foram os “Beatles” rubro-negros. Mas não poderiam imaginar que, entre goles de cerveja e algumas risadas, dariam ali início a uma paixão nacional.

Primeira providência: fazerem uma vaquinha com outros moradores do bairro para comprarem uma baleeira – algumas meninas já eram convidadas para passear nas dos botafoguenses. E a casa de Nestor, na Praia do Flamengo, 22, virou o local das reuniões e a garagem para o barco, de nome Pherusa, de segunda mão, mas de boa qualidade.

A primeira empreitada quase terminou em tragédia. Num domingo de sol a pino, céu de brigadeiro, sete dos rapazes do bairro se aventuraram numa travessia que começava na ponta do Caju, Zona Norte, até a Praia do Flamengo. Na altura da Ilha do Bom Jesus, o tempo virou – coisas do Rio de Janeiro. Raios, trovões, forte chuva… naufrágio. Um dos remadores, Joaquim Bahia, conhecido como Baiano, era o melhor dos nadadores e resolveu arriscar-se sozinho a nado em busca de socorro.

À noite, dependurados no Pherusa virado, os outros seis, já contando com a morte, viram as orações darem resultado quando a lancha se aproximou para salvá-los. Joaquim Bahia, mesmo sem encontrar ninguém, chegou à Praia do Flamengo auxiliado pelas luzes da Igreja da Penha.

No dia seguinte, os seis integrantes do Pherusa foram para a casa-sede de Nestor achando que Baiano havia morrido. Baiano também pensou que os amigos não tinham sobrevivido ao naufrágio. O encontro acabou emocionante, e a aventura heroica de todos foi o assunto principal da cidade. Sem querer, os rapazes tiveram o destino conspirando a favor para ganhar popularidade, afastar os rivais alvinegros das meninas e darem o pontapé inicial a um clube que, do remo ao futebol, conquistaria uma legião de apaixonados e encontraria nos gramados um velho rival com histórias cheias de emoções.

Em 1912, o Clube de Regatas do Flamengo chegava aos gramados com nove jogadores vindos de uma cisão com o Fluminense. E o primeiro Fla-Flu foi vencido pelos tricolores, com o time que já fora reserva. O primeiro título chegaria dois anos depois, em 1914. Dali em diante, aumentaria a legião de fãs e popularidade, principalmente nos anos 1930, quando o clube contratou os jogadores negros mais populares do país: Leônidas da Silva, o Diamante Negro, Domingos da Guia, o Divino Mestre, e Fausto dos Santos, o Maravilha Negra. O clube deixava o bairro que dera origem a seu nome para habitar a Gávea, onde fora criada a sede junto com o estádio José Bastos Padilha, nome do presidente que revolucionou o clube.

A popularidade crescia também com a aproximação com a torcida. O time por várias vezes treinava na praia, aumentando o contato. E com o passar dos anos outros ídolos surgiam, como Zizinho, Vevé, Valido, Biguá, Bria, Jayme de Almeida, Rubens, Dequinha, Dida, Evaristo, Zagallo, Silva Batuta, Almir, Carlinhos, Fio Maravilha e o argentino Doval. Nos anos 1970 e 1980, a geração de Zico, Junior, Adilio, Andrade & Cia. fazia crescer a sala de troféus e as grandes rivalidades, como a com o Botafogo, que principalmente nos anos 1960 tinha em Garrincha o grande algoz rubro-negro nos confrontos e em 1972, sob o comando de Jairzinho, aplicara goleada de 6 a 0 sobre o Fla, só devolvida em 1981, ano em que o clube conquistou também a Libertadores e o Mundial. A decisão do Brasileiro em 1992, a rivalidade Romário x Túlio nos anos 1990 e as recentes finais estaduais no século 21 fizeram crescer a história desse clássico com a cara do carioca. Dos bairros para o Brasil.

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