
Globo Esporte – Você gosta de comida japonesa? Já experimentou o torô, parte nobre de uma espécie de atum gordo, localizada em sua barriga? É considerado o filé mignon do animal, um dos mais procurados no mercado culinário. Além de saboroso, este pedaço do atum é rico em gordura e ômega 3 e 6. O preço é que é salgado: em um estabelecimento da zona sul do Rio de Janeiro, a dupla do sushi (pedaço do peixe com uma porção de arroz) custa R$ 23, e uma porção de cinco sashimis (a carne cru cortada em pequenas tiras) sai a R$ 36.
Não, o GloboEsporte.com não entrou no ramo da culinária. Mas há uma relação da comida citada com um jogador brasileiro. O volante Toró iniciou a carreira no Fluminense, foi campeão brasileiro e da Copa do Brasil pelo Flamengo, defendeu Atlético-MG, Figueirense e Bahia, e hoje disputa a terceira divisão do Campeonato Japonês em sua primeira aventura fora do Brasil. Na Ásia encontrou uma situação inusitada.
– Aqui tem um peixe famoso que o nome é torô, aí fizeram uma promoção: na compra de um ingresso você ganhava um card para ir ao restaurante comer um maravilhoso peixe. O peixe é bom demais. Legal, né? – divertiu-se.
A promoção feita não lotou o Sagamihara Gion Stadium, que leva o mesmo nome do clube e da cidade de origem, localizada a 47,9 quilômetros de Tóquio. Com capacidade para 11.808 pessoas, o estádio recebeu 2.632 no dia 16 de novembro do ano passado, pela penúltima rodada da J3 League – a promoção era válida até o dia 30 do mesmo mês. Toró fez um dos gols na vitória por 2 a 1 sobre o Blaublitz Akita. Apesar do triunfo, o time ficou em sexto e não conseguiu o acesso na temporada inaugural da terceira divisão japonesa.
Fundado em 2008, o Sagamihara joga um campeonato composto atualmente por 13 clubes. No ano passado eram 12, e a primeira formação tinha nove equipes promovidas da Liga Nacional Amadora (JFL), uma que chegou das ligas regionais, uma rebaixada da J2 e uma seleção de atletas com idade olímpica, chamado de J-League sub-22. O campeão automaticamente fica garantido na divisão superior, e o segundo precisa disputar um playoff contra o penúltimo da J2. Uma escolha igualmente surpreendente à promoção do peixe.
– Quando eu vim para o Japão estava sete meses sem jogar. Não queria vir para cá, bater e voltar. Queria construir uma história bonita, queria passar confiança para as pessoas que me levaram. Eu queria corresponder. Preferi me adaptar ao futebol japonês nessa liga. Sabe como futebol hoje em dia é “pá-pum”, né? Não dá tempo para se adaptar e fazer as coisas acontecerem só amanhã. Tem que acontecer na hora – explicou Toró sobre a sua opção.
A primeira partida oficial de 2015 será no próximo domingo, 1h no horário de Brasilía, no Sagamihara Gion Stadium. Ano passado, o volante atuou em oito oportunidades e fez dois gols, um deles no dia da promoção do restaurante.
– Aqui é bem organizado. Claro que tem suas dificuldades. Mas tem uma estrutura bem legal. Lógico que não é uma Série B ou Série A do Brasileiro, mas é bem disputado também. Sei que não é o que quero para mim, eu quero mais. Quero poder jogar na primeira divisão aqui, esse é o meu pensamento e das pessoas envolvidas nessa história.
Toró vive uma espécie de recomeço. Passou por uma cirurgia no tornozelo direito e ficou sete meses sem atuar em 2013. Quando saiu do Figueirense, fechou com o Bahia, disputou nove jogos apenas e, no meio do ano, optou por viajar para o Japão, levado pela BR1Sports. Sua família está adaptada, a língua ainda trava para falar japonês, e por isso conta com a ajuda do tradutor Shinji. Fala com carinho do presidente do clube, Shigeyoshi Mochizuki, e vive um momento zen.
– Botei na minha cabeça que as coisas não estavam acontecendo da forma que queria. Mas se estava ruim, poderia piorar se eu ficasse em casa largado, querendo curtir, ir para a farra. Não era isso que eu queria para mim. Queria jogar, poder voltar a dar alegria para os meus familiares e ficar feliz comigo mesmo.
Feliz, o volante espera que apareçam propostas de grandes clubes japoneses para subir de divisão no meio da temporada, quando abrir a janela. E curte a nova fase de modelo.
– Sou feio, mas estou na moda – brinca.
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