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Angelim conta causos e sofre com eliminação do Fla; entrevista completa

Milton Medeiros
Milton Medeiros
Publicação: 21/04/2015
Nenhum comentário
Atualização: 21/04/2015
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Fonte: GE

A tranquilidade de Ronaldo Angelim parece ser intocável, mas o sorriso fácil que sempre o acompanhou está mais acanhado. Justamente na semana do reencontro com o Flamengo – que desembarca na tarde desta terça-feira em Juazeiro do Norte (CE) antes de seguir para Salgueiro (PE) para partida pela Copa do Brasil -, o herói do hexa está tendo que aprender a digerir uma dor que não viveu dentro de campo: perder para o Vasco em um duelo decisivo.

Campeão da Copa do Brasil de 2006 e do Carioca de 2011 com vitórias sobre o maior rival, o ex-zagueiro deu um tempo na calmaria de sua vida de aposentado para participar de uma partida exibição no Rio Grande do Norte no último domingo. Do estádio, ele correu para o hotel para acompanhar os minutos finais da semifinal do Estadual. E levou na bagagem de volta para o Ceará a frustração da derrota por 1 a 0 que colocou o Vasco na decisão do Carioca com o Botafogo.

Nada, porém, que atrapalhe sua rotina pacata, bem diferente do frenesi que provocou no Maracanã há quase seis anos.

– Eu fico só sentado do lado de cá da calçada de manhã. De tarde, só boto a cadeira do outro lado para fugir do sol. Minha vida é essa. É difícil o cara enjoar de não fazer nada. Minha vida é muito boa. Jogo futebol quase todo dia. Não tenho estresse – revelou Angelim.

A serenidade não impediu Ronaldo Angelim de expor sua insatisfação com o que acompanhou à distância do Campeonato Carioca. Fazendo questão de citar o gol impedido de Márcio Araújo, que deu o título ao Flamengo no ano passado, para reclamar da marcação do pênalti de Wallace em Serginho no último domingo, o ex-zagueiro lamentou o nível do estadual do Rio de Janeiro. E fez um alerta para que os cariocas não sofram novamente com briga contra o rebaixamento no Brasileirão:

– O nível do campeonato é baixo e quem aparece mais é a arbitragem. No ano passado, o Flamengo foi campeão com gol impedido. Preferia que não fosse, tem que ser campeão jogando bola. Agora, o Vasco foi para final com um pênalti que não houve. De que adianta? Não adianta tentar mascarar. Chega no Brasileiro e é aquele sufoco, porque as equipes não estão preparadas como as do Sul, São Paulo, Minas… Mas sigo torcendo e sofro. Estou dando a entrevista chateado porque não gosto de perder, principalmente para o Vasco.

Sofrimento à parte, Ronaldo Angelim tem muito mais motivos para se alegrar quando fala de Flamengo. Com 285 partidas, 17 gols e seis títulos pelo clube no currículo, o aposentado tem consciência que a tranquilidade que busca sentado na calçada é quase uma utopia diante do que fez em 6 de dezembro de 2009. A cabeçada que garantiu o sexto título do Brasileirão, com o 2 a 1 sobre o Grêmio, o colocou na eternidade, e diariamente sempre há um torcedor para lembrá-lo disso. Convidado de embaixadas do clube para exibições ao redor do país, já reviu incontáveis vezes o lance, e contou ao GloboEsporte.com uma história curiosa que acabou sendo decisiva para que invadisse a área gremista como elemento surpresa:

– Treinávamos muito essa jogada. O Pet batia entre a primeira trave e a marca do pênalti para eu chegar. Mas aquele atraso não foi por conta disso. Demorei porque estava reclamando com o Aírton, que estava inventando que sentia câimbras lá no meio-campo, querendo sair do jogo. Dei uma dura dizendo que ele não ia sair, que estava pipocando… Já tínhamos sido eliminados pelo América do México. Foi aquele xingamento, quando me atrasei e cheguei para o escanteio. Agora, você vê: depois que virou (o placar), o Aírton terminou o jogo correndo que só. Como que as coisas mudam.

Ainda refletindo se encara os 120km de estrada até Salgueiro para ver a partida de quarta-feira, pela Copa do Brasil, por conta do assédio, Ronaldo Angelim interrompeu o sono da tarde de segunda-feira para conversar sobre a vida no interior do Ceará. Sem a menor pretensão de mudar a rotina de quem não tem nada para fazer, relembrou momentos marcantes dos seis anos de Gávea, admitiu o temor por uma tragédia como a do América do México com o primeiro gol do Grêmio, em 2009, e garantiu nunca ter sido procurado para um jogo de despedida – como a diretoria cogitou em 2013. Confira a íntegra:

Já são quase dois anos de aposentado, como tem sido sua vida? Você sempre falou que ia voltar para Juazeiro. Deu para enjoar da rotina pacata, sem ter nada para fazer?

– Para falar a verdade, estou aposentado desde que saí do Flamengo (no final de 2011). Nos outros clubes, só passei. Foi um mês no Barueri, um mês e pouco no Fortaleza… Estou de férias totalmente. Meus investimentos são os aluguéis, os apartamentos, mas é minha esposa que toma conta. Eu fico só sentado do lado de cá da calçada de manhã. De tarde, só boto a cadeira do outro lado para fugir do sol. Minha vida é essa. É difícil o cara enjoar de não fazer nada. Minha vida é muito boa. Jogo futebol quase todo dia. Não tenho estresse.

Voltar a se envolver com o futebol não faz parte dos planos?

– Ser treinador é pior do que ser atleta. Como jogador, você tem a responsabilidade com você. Treinador ou dirigente tem que tomar conta de um monte. Estou feliz como estou. Voltar ao futebol só lá para frente e se for mesmo necessário.

Como você cultiva a relação com o Flamengo? Depois que saiu e passou a ter maior contato com o torcedor, mudou a sua percepção da importância do gol de 2009? 

– Na lembrança do torcedor, parece que o gol foi há bem pouco tempo. Vim de dois jogos agora na Paraíba e no Rio Grande do Norte. Um deles foi no domingo, na hora do jogo (da semifinal do Carioca) e foram 500 pagantes. Pessoas que abriram mão de ver o jogo do Flamengo para me ver. Em Juazeiro, jogo do Icasa com o Guarani não dá isso quando tem Flamengo na TV. Dá para ter uma noção da importância do gol, o clube estava há 17 anos sem ser campeão brasileiro. O grupo todo era muito bom, competitivo.

Na ocasião de sua saída do Fortaleza, a diretoria chegou a cogitar fazer um amistoso de despedida. Houve algum tipo de contato?

– Tenho pouco contato com a diretoria atual. Nunca me ligaram (para falar de jogo de despedida). Fiz um aqui em Juazeiro com o Zico. Estaria disponível para uma homenagem, mas já passou, já encerrei a carreira, trouxe o maior ídolo do Flamengo para Juazeiro. Estou tranquilo. Para o Flamengo, estou sempre à disposição.

E o lado torcedor? Você sempre frisou muito sua relação com o clube antes mesmo de jogar. A cabeça dói mais na semana seguinte de uma derrota para o Vasco? Você viu o jogo? 

– Assim que terminou a partida (exibição no RN), saí correndo direto para o hotel para ver o final do jogo. Fico triste de acompanhar o Carioca, já ficava quando jogava. Não quero dizer que ajudaram A, B ou C, mas acontecem coisas lamentáveis, posso falar com propriedade. O nível do campeonato é baixo e quem aparece mais é a arbitragem. No ano passado, o Flamengo foi campeão com gol impedido. Preferia que não fosse, tem que ser campeão jogando bola. Agora, o Vasco foi para final com um pênalti que não houve. De que adianta? Não adianta tentar mascarar. Chega no Brasileiro e é aquele sufoco, porque as equipes não estão preparadas como as do Sul, São Paulo, Minas… Mas sigo torcendo e sofro. Estou dando a entrevista chateado porque não gosto de perder, principalmente para o Vasco.

Você nunca perdeu para o Vasco em jogo decisivo. Como lida com a provocação dos rivais em uma situação dessas? 

– Jogo de decisão, nunca perdi. Perdi lá naquele negócio de festa de mil gols do Romário. Aqui no Ceará, ou o cara é Flamengo ou Vasco. Um monte de vascaíno já me ligou para tirar onda, mas eles sabem que não foi pênalti. Então, zoam sem zoar. Assim como no ano passado todo mundo viu o que aconteceu e eu também fiquei quieto.

Com a saída do Léo Moura, foi desfeita uma geração que ficou marcada pelas conquistas, que tinha você, Juan, Bruno, Toró… Vocês ainda mantêm contato? 

– Falei com Léo Moura tem uns dias, o Juanzinho falei há quase um ano… O Fábio Luciano é meu irmãozão, também tenho muito contato com o David Braz, que chegou depois. Sabemos que foi uma geração que venceu muito, são jogadores que deixaram saudade. Sabemos da nossa importância. Acho que o clube poderia ter aproveitado mais do Léo Moura. Agora, continuamos torcendo pelo Flamengo.

Mais de cinco anos depois quais as recordações que você tem daquela tarde de 6 de dezembro de 2009? O lance do gol ainda é algo que passa pela sua cabeça quando está sozinho, bota para ver na TV? 

– Para falar a verdade, acho que nunca coloquei para ver em casa. Já vejo tanto por aí, os torcedores colocam, mas já está gravado desde a hora do jogo, é algo que tenho em mente.

Aquela arrancada, que você entra na área até meio atrasado, era algo ensaiado? 

– Treinávamos muito essa jogada. O Pet batia entre a primeira trave e a marca do pênalti para eu chegar. Mas aquele atraso não foi por conta disso. Demorei porque estava reclamando com o Aírton, que estava inventando que sentia câimbras lá no meio-campo, querendo sair do jogo. Dei uma dura dizendo que ele não ia sair, que estava pipocando… Já tínhamos sido eliminados pelo América do México. Foi aquele xingamento, quando me atrasei e cheguei para o escanteio. Agora, você vê: depois que virou (o placar), o Aírton terminou o jogo correndo que só. Como as coisas mudam.

Você falou do jogo do América do México, que também marcou muito aquela geração. Quando o Grêmio faz 1 a 0, a lembrança passou pela cabeça de vocês? O temor por outra tragédia…

– Passa Santo André, Resende e, principalmente, América do México. Montamos um grupo muito forte para ganhar a Libertadores. Depois, pegamos o Santos, que seria nosso rival nas quartas, e vencemos com facilidade pelo Brasileiro. Dava para Libertadores ser nossa. Quando o Grêmio faz 1 a 0, bate aquele desespero, ansiedade. Estava muito quente, o Grêmio com garotada e nós com jogadores de idade avançada. Tínhamos dificuldade para acompanhar e ficamos preocupados. O empate no primeiro tempo foi bom para corrigirmos no intervalo, o Andrade falar o que tinha que falar.

Em 2013, pela Copa do Brasil, você encarou muitas horas de estrada para ver o jogo com o ASA, em Arapiraca. Está se programando para ir a Salgueiro torcer? 

– Fui a um jogo em Recife contra o Náutico e não tive como assistir. Peguei ingresso para ficar no meio do torcedor e a polícia teve que me retirar. Era muito torcedor, pessoal sufocando, e tive que sair para assistir em uma churrascaria. Peguei 600km para ver a partida, matar a saudade e fui para churrascaria, que aqui em Juazeiro tem várias. O campo em Salgueiro é acanhado e fico com medo de ir e passar pela mesma situação. Vou decidir ainda. Ainda estou chateado pelo resultado de domingo, mas Flamengo é Flamengo. Vou pensar.

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