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Estádio isolado na estrada, sem sinal de celular, quase sem torcida: o Carioca que ninguém vê

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 09/04/2015
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Atualização: 09/04/2015
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Espn – Um estádio no meio do nada. Só o farol do carro ilumina o lado de fora. O breu total só suavizado pelos refletores que apontam para dentro do campo. Ônibus? Sim, passa um, a cada hora e vinte minutos. Nem 3G, nem 4G, nem sinal de telefone. Uma arquibancada totalmente incomunicável que, por volta de meia noite, recebe quase 70 torcedores que veem os últimos instantes do time da região no Campeonato Estadual. Acreditem se quiser, estamos falando de uma partida de um campeonato disputado por Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Só que estamos falando de um Campeonato Carioca que ninguém vê.

Nem os jogos que decidiam vaga de Fluminense e Vasco, nem os que decidiam o título da Taça Guanabara entre Botafogo e Flamengo. Na rodada decisiva da primeira fase do Carioca, a reportagem do ESPN.com.br foi até a aprazível Xerém, distrito de Duque de Caxias, distante 50km do centro do Rio, para acompanhar a partida entre Tigres do Brasil x Barra Mansa, que valia a chance de escapar do rebaixamento para o time da casa. O fato de todos os jogos da rodada terem sido marcados no criticado horário de 22h fez com que fosse uma experiência peculiar.

Xerém, que já foi casa de Zeca Pagodinho, é movimentada na noite de quarta. Só que não é ali que fica Los Larios, o moderno estádio do Tigres do Brasil, com capacidade para 6 mil pessoas com um bom centro de treinamento acoplado. Pegando a Estrada Rio D´Ouro, por alguns minutos, se tem a impressão de que se viaja por um lugar muito isolado. Para chegar ao estádio, o farol do carro ilumina a estrada alguns metros a frente, é a única visão que se tem. Mais perto, o breu total só é quebrado pela forte iluminação do estádio. A foto do estádio no Google Maps dá a noção do isolamento. Na porta, a noção completa: na beira de uma rodovia estadual, o estádio fica quase no escuro. Bilheterias quase vazias, menor clima de que um jogo decisivo aconteceria por ali nas próximas duas horas.

“Hoje aqui vai ser fraco. O horário né? E também contra time pequeno. Só dá movimento quando vem Flamengo, vem Vasco”, conta “Seu Nevis do Cuzcuz”, figura conhecida dos jogos. O doce de tapioca, coco e leite condensado vendido por ele é a única iguaria vendida no estádio. E faz sucesso. Em jogo com 300 pagantes, Seu Nevis garante que vende pelo menos 150 doces por R$4 o copinho. Ele usa a bicicleta para pegar a estrada e chegar ao estádio, e chega cedo para pegar o movimento da partida de juniores e evitar o escuro da rodovia.

“Pedalo 35 minutos para chegar até aqui. Enquanto tem luz. Quando o jogo é tarde, igual hoje, depois que acaba meu filho vem me pegar aqui de carro porque não tem como. Não tem ônibus. E ir de bicicleta nessa estrada, de noite, é impossível. Muito escuro”, relata o comerciante.

Sem sinal de celular, e só um ônibus a cada 80 minutos

Na verdade, tem ônibus sim. Uma única linha do município de Duque de Caxias chega por lá. Sai da maternidade de Xerém, passa pelo estádio e termina no bairro Amapá, nome da linha. Só que só um carro faz o trajeto. Assim, o ônibus só passa a cada uma hora e vinte minutos. É usando este ônibus que o repórter Vitor Costa, do site FutRio, especializado nos times pequenos do Rio, vai até o estádio fazer o seu trabalho. Ele era um dos quatro jornalistas presentes na partida na noite de quarta.

“Venho de ônibus, mas na volta não dá para esperar. Tento alguma carona para qualquer lugar longe daqui e de lá vou pra casa. Já teve jogo de noite que acabou aqui chovendo e eu não conseguia ir embora. É muito longe mesmo”, relata o jornalista, que neste dia acabou sendo assaltado na madrugada quando voltava para casa após o fim do jogo.

Ele ainda conta das dificuldades de se fazer uma cobertura por lá: “Na primeira rodada viemos fazer a transmissão da rádio aqui. Pegamos o Wi-Fi que a assessoria de imprensa do clube libera, mas com 10 minutos o sinal caiu. Tivemos que correr para o alto da arquibancada atrás do gol (dos visitantes), único lugar onde pega celular, e fazer a transmissão pelo telefone. Depois a gente desistiu de fazer transmissão daqui”, conta, informando que só estava lá para passar o tempo real da partida. Gols e lances importantes para o site onde trabalha. Ainda assim, dificuldades. A mensagem de que o primeiro tempo acabou chegou para a redação 15 minutos depois do informado, justamente quando a segunda etapa já estava começando.

Sinal de celular é inexistente em Los Larios. Testamos três operadoras, nenhuma funcionou. Internet: impossível. Os torcedores que quiseram saber os outros resultados da rodada não tinham outra fonte de informação se não o sistema de som do estádio que informou os resultados de Nova Iguaçu, Cabofriense e Boavista, que não podiam vencer para o Tigres ficar na Série A sem depender do resultado de seu jogo.

Uma Kombi caindo aos pedaços faz o transporte informal que supre os moradores que moram entre o distrito e o estádio. No dia do jogo o motorista perguntava a quem descia no campo do Tigres: “vai ver o jogo dos juniores (19h30) ou do profissional (22h)?”. Se o passageiro falasse que era o dos juniores, tudo bem. Se fosse ver o jogo principal avisava.

“A última vez que vou passar aqui é 22h30. Se quiser vir, vê o júnior, um pouquinho do profissional e vem”. Os protestos de que o jogo duraria até meia noite não mudaram a ideia do motorista. “Não vou passar aqui tão tarde. Amanhã 7h tenho que estar de pé”, justificava.

Jogo dos juniores chama mais atenção: torcida vai embora antes do jogo dos profissionais
A arquibancada tinha cerca de 200 pessoas quando a reportagem chegou, no intervalo do jogo pelo Carioca sub-20, também entre Tigres e Barra Mansa. Grande parte da torcida presente era formada por parentes e amigos de jogadores. Como a família do atacante Nathan, autor do gol da partida. Orgulhosos do filho, pagaram ingresso para assistir a partida dos profissionais, mas foram mesmo para ver a preliminar. Após o fim do jogo, esperaram o filho sair do vestiário e zarparam rumo à Pavuna, bairro na zona norte do Rio onde moram. Como todos os presentes que a reportagem conversou (exceto o vendedor de cuscuz e o repórter), foram de carro devido a falta de transporte público.

Muita gente fez igual a família. O público diminuiu quase pela metade quando o jogo dos profissionais começou. A maioria da torcida não estava interessada na partida principal. Até um pai que levou os filhos para entrar junto com os jogadores profissionais do Tigres, foi embora aos 30 minutos do primeiro tempo. “As crianças não podem dormir tarde, tem escola amanhã e o caminho é longo”, justificou.

Quando a partida começou a reportagem contou 108 torcedores sentados nas cadeiras ou pendurados no alambrado. As irmãs Luciana Coutinho e Carolina Santana foram junto com a filha de Luciana, Manuela, de oito anos. Eram uma das poucas com camisa do time. Moradoras de Xerém, ficaram amigas de alguns jogadores que deram cortesia de ingressos para a partida. Não precisaram pagar, mas segundo confirmou funcionário da partida, as entradas entram na conta do público pagante. R$ 20 custava uma entrada inteira, R$ 10 o preço da meia entrada.

Segundo o borderô da Ferj (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro), foram 289 pagantes e 379 presentes, uma renda de R$ 5.370,00. No meio do campeonato, a federação passou a não divulgar algumas despesas no borderô, como ambulância, taxas de arbitragem, remuneração do delegado da partida e transporte, além de colocar a cota de TV como lucro do time no documento, algo bastante incomum. Tudo para disfarçar os prejuízos dos times em cada jogo. Em conversas com pessoas ligadas ao clube e à Ferj, a reportagem apurou que a conta real do borderô, se utilizada a maneira antiga de calcular, sem a cota de TV, daria, para esta partida, um prejuízo de cerca de R$ 6 mil para o Tigres e nada a dever ou a receber para o Barra Mansa. No borderô “maquiado” da federação, lucro de quase R$ 32 mil para o Tigres e de mais de R$ 21mil para o Barra Mansa.

Ao fim do jogo, conforme a meia noite se aproximava, mais gente indo embora. Em nova contagem feita faltando quinze minutos para o apito final, setenta almas resistiam no estádio. Detalhe: a partida não foi ruim e estava indefinida até o último minuto.

Quem sofre pelo Tigres do Brasil?
O jogo foi movimentado, e com o empate em 1 a 1, o Tigres se livrou do rebaixamento, garantindo permanência na Série A do Carioca em 2016, quando disputará o principal torneio da Ferj pela quinta vez em oito anos. Na torcida, um ou outro torcedor sofreu com a atuação irregular do time, pediu para que Marlinho, revelação do clube, saísse do banco e entrasse no jogo, e vaiou a má atuação de Fabiano Oliveira, atacante, ex-Flamengo. Mas não houve comoção, sofrimento, ou algo parecido com o que se espera ver em uma arquibancada.

Seria exagero também esperar uma torcida cheia e pulsante em um estádio escuro, isolado, incomunicável e sem muitas possibilidades de acesso. O que leva a pensar no sentido da existência de um clube como o Tigres, que não consegue movimentar a comunidade qual pertence.

“Ninguém entra no jogo para perder né? Eles querem ganhar aqui, mas querem ganhar é dinheiro.”, reclama Gilberto Souza, membro da Garra Jovem, única torcida organizada do Tigres, com duas faixas e sete integrantes no jogo. Nenhuma música foi cantada durante os 90 minutos. “Antes tinha uma torcida melhor e maior, mais gente vinha. A gente fazia uma festa bacana. Mas isso era na época do Miguel, porque ele dava ingresso para a gente, agora temos que pagar. Aí ninguém vem. Os caras só querem saber de dinheiro”, contesta o torcedor.

Miguel, é Miguel Larios, fundador do Tigres do Brasil. Nascido na Nicarágua, veio para o Brasil com 18 anos e prosperou, sendo dono de um conglomerado de empresas, a maioria, atuais patrocinadores do time (o único funcionário na bilheteria usava uniforme da Playvender, empresa de distribuição de um dos investidores atuais do clube). Miguel investiu mais de 20 milhões de dólares para construir o CT e o estádio, em 2004. Viveu dias de glória com acessos e títulos das categorias de base até 2010, quando o time caiu para Série B do Carioca. Os relatos dão conta que Miguel desanimou um pouco da empreitada futebolística e o destino do time ficou ameaçado.

A prefeitura de Itaguaí, cidade vizinha cujo prefeito é acusado de conhecidas denúncias de corrupção, quis comprar o time e levar para a cidade. Esbarrou na impossibilidade de trocar nome do time para o nome da cidade e desistiu do negócio. Assim, mesmo mantendo os filhos como presidente e vice, Miguel Larios passou a gestão do clube para as mãos de um projeto chamado “Universidade do Futebol”, que tem como um dos líderes o deputado federal do PMDB Washington Reis, investigado pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro por fraudes em licitações quando prefeito em Duque de Caxias. Em agosto do ano passado o deputado chegou a ser alvo de operação da Polícia Federal, tendo documentos apreendidos em sua casa.

Durante exageradas nove vezes em noventa minutos, o sistema de som agradeceu a presença do deputado, de seu irmão, o deputado estadual Rosenverg Reis, e dos filhos de Miguel Larios, presidente e vice do clube. Nos bastidores, circula a informação que a venda de Marlinho, jogador que é a revelação atual do time, é a esperança em 2015 para que o Tigres consiga o objetivo do ano, que não era se manter na Série A e sim lucrar com revelações do clube.

Em entrevista ao FutRio no ano passado, Miguel deixou claro que suas intenções com o Tigres não envolvem criar uma identidade com a torcida local:

“Não fiz o projeto do Tigres exclusivamente para Xerém. Sou estrangeiro e sempre vi no exterior clubes com este nome, como na Argentina e no México. Assim, escolhi o nome, o diferenciando como Tigres do Brasil. Mas nosso nascimento na verdade foi na Avenida Maracanã. Escolhemos Xerém para construir o nosso CT, mas o futebol é imprevisível”, declarou.

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