Fonte: Mauro Cezar Pereira
Os clubes brasileiros nunca ganharam tanto dinheiro. Se no passado a única fonte de renda era a bilheteria, hoje se fatura com venda de direitos de televisão, publicidade no uniforme, programas de sócios e… bilheteria.
Seria lógico imaginar que, diante de novas fontes de arrecadação, fosse possível depender menos do dinheiro deixado pelo torcedor a cada jogo. Mas não é o que acontece. Eles sempre precisam de mais e mais.
O nível do futebol aqui jogado não subiu na proporção do aumento da receita. Talvez nem tenha subido, embora seja até obrigação levar a campo times melhores, jogos melhores, tudo melhor se há mais grana circulando.
A realidade é que os cartolas contratam os jogadores de sempre pagando muito mais. O futebol argentino, por sua vez, vive uma crise econômica que reflete o duro momento vivido pelo próprio país.
O ESPN.com.br mostrou recentemente que o San Lorenzo gasta apenas 14,3% das despesas que o São Paulo tem com futebol. Mesmo assim, o time argentino é o atual campeão sul-americano e encarou os tricolores em igualdade.
Se a disparidade financeira espelhasse o campo de jogo, não teríamos os dois times com a mesma pontuação e o placar de 1 a 0 uma vez para cada lado nos dois recentes duelos. É evidente que aqui se gasta mal.
Seria perfeitamente possível termos no Brasil o mesmo nível de futebol, ou melhor, gastando menos. Mas quem tem interesse nisso? O negócio é torrar o capital que os clubes têm e o que não têm. Gastar mais do que se arrecada.
Neste cenário de péssima gestão, o olhar para o mercado é muitas vezes míope, o que acaba na supervalorização de atletas muitas vezes absolutamente comuns. E os cartolas alegam, sempre, precisar arrecadas mais.
Com isso, tentam esfolar o torcedor, repelem os mais pobres e muitas vezes mais apaixonados, restringido seus “convites” a quem pode pagar caro, caríssimo por um ingresso. Assim, mudam a cultura do estádio, da arquibancada.
Argumentos tacanhos como “é o mercado” ou “o produto tem que ser valorizado” são repetidos por tolos e pretensos especialistas. Futebol não é apenas um produto e se assim for visto, saibam que ele só existe devido à paixão.
Por que os cinemas, cujos ingressos tradicionalmente eram próximos dos tíquetes de futebol, não disparam seus preços? Pelo contrário, há promoções, descontos etc. E as salas são hoje bem mais modernas, confortáveis.
Embora também sejam apaixonantes, os filmes nos atraem, mas não da maneira que o esporte, o futebol. Não se sofre angustiado como horas antes de um jogo. Ninguém sai do cinema eufórico, comemorando, ou arrasado com o resultado do que viu.
E os que exploram tal negócio, a exemplo dos clubes, também ampliaram seu faturamento. Hoje, com mais estrutura, se vende mais pipoca, refrigerantes, balas, doces e até capuccinno para quem vai ver uma “película”.
Há publicidade nas salas antes de cada exibição (no passado passavam apenas trailers) e os filmes se reciclam. São mostrados nos cinemas, depois viram DVD, os exibem nas TVs em pay-per-view, televisão paga, depois aberta…
A cada estágio a indústria cinematográfica fatura mais, são receitas que no passado não existiam, e as produções se sofisticam, ficam mais caras. Mas não se cobra R$ 100, R$ 200 por um ingresso, mesmo na sala mais bacana.
Por que se fizerem isso, as pessoas as deixarão mais vazias, esperarão pela exibição na TV, pelo lançamento em DVD e alguns irão baixar na internet. E aí não se vende pipoca, os anunciantes fogem… É tudo muito claro e lógico
O futebol precisa ser também do povo, lugares nos estádios, novos ou velhos, modernos ou antiquados, devem ser disponibilizados para quem paga muito e quem desembolsa pouco. Para que a paixão que move isso tudo não morra.
O distanciamento de parcela significativa (a maioria) da torcida dos estádios é preocupante. Novas gerações crescerão vendo seus times apenas pela TV. Não por opção, mas pela impossibilidade de acompanhar o time “in loco”.
E aí virá outro risco que os cartolas e especialistas com mente elitista não pesam. Se o menino e a menina vêem futebol só pela TV, tanto faz ser Flamengo ou Chelsea, Corinthians ou Barça, Inter ou Bayern, Cruzeiro ou PSG.
O quadro não será alterado em curto prazo, mas é preciso olhar adiante e atrair mais pessoas de diferentes classes sociais às canchas. Ainda mais porque NENHUM estádio ou “arena” tupiniquim tem média de ocupação próxima a 100%.
Sobram espaços, mas os cartolas preferem assim. O presidente do Palmeiras, que despreza a presença do povo alviverde no seu novo estádio, demonstra ser contra torcida visitante. Uma lógica bizarra.
Pelas mentes de pessoas assim, palmeirenses jamais receberão rivais no Allianz Parque. Ao mesmo tempo, não poderão apoiar seu time no Maracanã, Mineirão, Beira Rio… Pois é óbvio que se for assim haverá reciprocidade.
Os coveiros do futebol ampliam suas garras e tentam transformá-lo num mero produto para as classes mais favorecidas. Contam com apoio da ala deslumbrada da mídia e daqueles que detestam andar no meio do povo.
É preciso lutar contra o que essa gente está fazendo. O futebol não é deles, os clubes não são deles ou apenas dos sócios que se dispõe a pagar um dízimo mensal. Quem não quer ou não pode assumir tal custo não é menos torcedor por isso.
As camisas valem muito em publicidade ou direitos de transmissão porque no barraco na favela ou numa mansão vivem pessoas que amam os clubes. E ligam a TV para vê-los. E eles formam o público que interessa aos anunciantes e às emissoras.
Se você não tem dinheiro mas dá audiência à rede de televisão que mostra os jogos do seu time, saiba que também está colaborando com o faturamento do clube. Não se iluda. Ele também te pertence. Da mesma forma que o futebol é de todos nós.
