Fonte: Blog República Paz & Amor
Quando terminou a partida contra o Nova Iguaçu, Alecsandro disse que, mesmo se aquele jogo tivesse quarenta minutos a mais, a bola não entraria. Este é um dos chavões mais irritantes a que costumam recorrer jogadores e times que não cultivam o saudável hábito de botar a bola pra dentro, como se a pobre-coitada tivesse vontade própria.
O que ninguém jamais poderia supor é que os quarenta minutos de acréscimos citados por Alecsandro seriam esticados para mais de 180. Pois foi essa a proeza que o Flamengo conseguiu: além dos noventa minutos contra o poderoso Nova Iguaçu, ficamos mais 180 sem fazer um mísero golzinho – o que poderia ser até aceitável se os adversários fossem o Chelsea e o Real Madrid. Mas foi o Vasco.
Tá certo. A ausência de Flamengo e Fluminense na final era tudo o que a Ferj queria, e fez por conseguir. As suspensões de Luxemburgo e Fred foram arbitrárias. O Vasco ter oito pênaltis marcados a seu favor em dezessete jogos do Campeonato Carioca representa a mais deslavada sem-vergonhice. (Lembremos que, no Campeonato Brasileiro de 2011, naquele time que tinha Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves, em 38 rodadas nenhum pênalti foi marcado a favor do Flamengo.) Com exceção de Carlos Alberto Torres, que a cada participação no Troca de Passes parece assinar um autoatestado de insanidade mental, não vi um só comentarista achar que houve pênalti de Wallace em Serginho. Tudo isso é verdade, mas não é nada disso o que precisamos agora. (Arthur Muhlenberg tem razão: com a justa exceção da Nivinha, reclamar de arbitragem é para os fracos.)
Humildade, isso sim. É disso o que precisamos, para reavaliar o que não funcionou e por quê.
Optamos por dois laterais mais presos à zaga para seguir o padrão – desculpem, mas foi mais ou menos o que nos disseram – dos melhores times do mundo, que só usam no meio-campo gente que joga muita bola. No entanto, na partida de domingo entramos com Jonas, Márcio Araújo e Luiz Antônio. Ouvimos nosso treinador decretar o fim e a morte do centroavante fixo, para logo depois sermos brindados com a titularidade absoluta de Alecsandro. Diante da insistência dos repórteres, já vi Luxemburgo pedir que esqueçam o tal do 10, porque ele não existe mais no futebol brasileiro. Uma pinoia.
Independentemente do estilo, da qualidade e das críticas que podem ser feitas a cada um deles, o São Paulo tem um 10 (Ganso), o Santos tem um 10 (Lucas Lima), o Palmeiras tem um e meio (Clayton Xavier e Valdívia), o Inter se dá ao luxo de ter dois (Alex e D’Alessandro), o Corinthians chega ao cúmulo de ter três (Renato Augusto, Jádson e Danilo). É o tipo de jogador que precisa ser procurado de modo incansável, e até mesmo passando por cima de eventuais limitações e defeitos.
Nas treze últimas edições do Brasileirão, todos – eu disse todos – os clubes campeões tinham um 10 em campo. Diego no Santos de 2002; Alex no Cruzeiro de 2003; Ricardinho no Santos de 2004; Roger no Corinthians de 2005; Danilo no São Paulo de 2006; Jorge Wagner no São Paulo de 2007 e 2008; Petkovic no Flamengo de 2009; Conca no Fluminense de 2010; novamente Danilo, agora no Corinthians de 2011; Deco no Fluminense de 2012; Éverton Ribeiro no Cruzeiro de 2013 e 2014. É difícil argumentar contra os fatos.
Deixemos de lado Eurico Miranda e o triste destino que o risível respeito que ele prega – na verdade, uma infeliz mistura de autoritarismo, atraso e métodos escusos – reserva ao futuro do Vasco. Esqueçamos a inexpressiva figura de Rubens Lopes. Cuidemos da nossa vida.
Desde a primeira rodada, com aquela mal-explicada invasão do vestiário em Macaé, sabíamos que o carioca 2015 não deveria ser levado a sério, embora sejamos forçados a admitir que, se tivéssemos jogado bola, poderíamos superar as diversas armadilhas montadas. Perder nunca é bom, mas pode ter lá seus proveitos quando nos escancara algumas verdades.
Primeira: admitir que a preparação física não foi bem-feita. Nossos jogadores tiveram trinta dias de férias, fizeram uma pré-temporada cuidadosa e, no entanto, na reta final do carioquinha sempre tivemos vários deles sem condições de jogo. No Fla-Flu que vencemos por três a zero o Fluminense entrou completo, enquanto nós não contamos com Samir, Cáceres, Canteros, Everton e Nixon. Na partida de domingo o Vasco mandou a campo todos os seus titulares, enquanto nós não pudemos usar Samir, Cáceres, Canteros, Nixon e Paulinho. Além disso, Marcelo Cirino e Everton, mesmo com uma semana sem jogo e teoricamente dedicada a treinos e descanso, puseram a língua de fora.
Futebol é um esporte de contato, com pancadas e torções que a preparação física não pode evitar, mas nos casos de Samir, Everton e nessa última contusão do Paulinho, as lesões foram musculares. No Brasileirão, um campeonato com jogos duríssimos e longas viagens, compreende-se. No carioca, em que os adversários são ruins de doer e o estádio mais distante fica a menos de duzentos quilômetros, é inadmissível. Não discuto o currículo e a competência de Antônio Mello, mas não reconhecer que a coisa desandou é querer tapar o sol com a peneira.
Na segunda questão, faço uma pergunta bem objetiva ao pessoal que costuma aparecer aqui na caixa de comentários: na boa, gente, quem do nosso elenco merece o carimbo de “jogador do Flamengo”? Da mesma forma que o carioqueta não pode servir de parâmetro para coisa alguma, não adianta comparar com o que tem o Botafogo, o Vasco ou o Fluminense. E, nesse momento pouco inspirado do futebol brasileiro, tampouco vale olhar para os outros estados e afirmar, como eu mesmo já fiz, que não há nada muito melhor por aí. Sim, não há, mas dane-se. Precisamos pensar é no Flamengo. Quantos dos nossos jogadores estão à altura da história do clube?
Os trabalhos de responsabilidade fiscal e resgate da credibilidade que vêm sendo feitos são motivos de orgulho e merecem todos os aplausos possíveis, mas tão ruim quanto não ter dinheiro é gastar mal o pouco dinheiro que se tem. Onde estávamos quando alguém foi lá e levou Lucas Lima para o Santos? Será que negociações mais bem engendradas não teriam sido capazes de trazer o Jádson? A fórmula – seja qual tenha sido – que o Palmeiras usou para repatriar Clayton Xavier é exclusiva e secreta? E por que essa obsessão por Montillo, como se apenas ele resolvesse e só ele interessasse? Está me parecendo que não nos recuperamos do trauma causado por aquele gol de cobertura que ele fez em cima da gente, nas quartas de final da Libertadores de 2010. Qualé, Murtinho, vai dizer que não quer o Montillo? Quero sim, ainda mais perto do que há lá na Gávea, mas, justamente por isso, tenho certeza de que ele não há de ser o único.
A última edição da revista piauí traz um estupendo artigo do escritor americano Walter Kirn, sobre um impostor que se dizia ser Clark Rockefeller. Abrangente e muito bem construído, em determinado momento o texto se refere ao divórcio do próprio autor, e vem com uma pérola: “O que era sentimento se transformou em estatística.”
O trabalho realizado com disciplina e método pela diretoria do Flamengo é admirável. Todos reconhecemos a importância do controle dos números e nos orgulhamos da arrumação da casa. Mas, e o sentimento, onde é que fica? E para que ele sobreviva, é fundamental compreender que a bola precisa entrar.
Jorge Murtinho

Acredito que o Flamengo tem um elenco razoável e que pode chegar longe no Brasileirão com contrações mais pontuais e melhor preparação física. No ataque (na minha opinião junto com a zaga são os únicos setores com jogadores regulares) Cirino é um jogador que vai vingar, mas para isso Alecsandro tem que virar opção no banco para ele ter mais liberdade, assim como foram nos jogos que o Mengão jogou bem. Para tal, Paulinho e Everton precisam jogar, e não podemos dizer que a preparação física dessa pré-temporada foi boa, já que ambos vivem no DM junto com Samir. Quanto às laterais, até agora não entendi a questão de emprestar Léo 2° ao inter, já que a ideia era “se livrar” do Léo Moura… Pará e Pico são bons… reservas. Armero não sei não, vamos aguardar. Em relação ao famoso 10, não sei se Montillo vem (acredito ser difícil a liberação sem os chineses recuperarem dinheiro), espero que a comissão técnica venha trabalhando na contratação de outro do mesmo nível, pois Almir é boa opção e não o 10. Já Arthur Maia, esse tem futuro, mas demonstrou que ainda carece além de preparação, de mais rodagem por time grande. Canteros é o melhor volante (ofensivo) do time, enquanto Jonas e Caceres são outras boas opções para contenção, já os demais volantes (inclusive Márcio Araújo) devem ser considerados regra 3 no Flamengo. SDS Clever.