
Fonte: ESPN
A terceira rodada da Série A do Campeonato Brasileiro se foi e o que vimos até aqui foram jogos e mais jogos de baixíssimo nível técnico, média de gols em queda livre – 2,8 na primeira rodada, 1,7 na segunda e 1,5 na terceira – e raríssimas jogadas bem pensadas e executadas.
Um olhar para os campos da “elite” do país e a pergunta inevitável: qual foi a preparação dos times nestes quase quatro meses completos de trabalho? De que serviram os estaduais?
Na prática, pouco ou quase nada. E desta vez apenas Cruzeiro e Internacional ainda estão envolvidos com a Libertadores que sempre tem enorme impacto neste início de competição nacional.
A indigência na forma de jogar das equipes passa diretamente pela cobrança de resultados imediatos. Já virou clichê porque ninguém encontra solução: o Estadual é visto como fase de preparação, quase uma continuação da pré-temporada que ganhou mais dias em 2015. Mas uma derrota para time de menor investimento já balança o treinador.
O raciocínio simplista: “Se está tendo dificuldades contra o time pequeno xxxx, imagine quando enfrentar o yyyy no Brasileiro”. Como se a evolução coletiva com a assimilação de um modelo de jogo fosse uma impossibilidade.
O mesmo vale em caso de título regional. Como o que conta são apenas os três pontos, os triunfos no Estadual não são relativizados. Se há vitória está tudo certo. Até as críticas no próximo revés.
Porque o dirigente não contrata com convicção. Tantas vezes o estilo do técnico nada tem a ver com o elenco do clube. A espera é pela “química” que em alguns casos parece mais uma busca de milagre mesmo.
O planejamento só dura até o jogo seguinte. As avaliações também. Tite já não é mais o melhor técnico brasileiro porque o Corinthians que se dissolve financeiramente não consegue repetir a campanha do início da temporada. Oswaldo de Oliveira é questionado no Palmeiras por não dar liga a um elenco remontado quase do zero. Luxemburgo, considerado o técnico brasileiro ideal para o São Paulo há um mês, está por um fio no Flamengo. Ricardo Drubscky demitido do Fluminense com dois meses de trabalho.
Sempre o resultado. Cobram os três pontos, nem tanto o desempenho. Duas vitórias jogando mal significam “boa fase”. Um empate e uma derrota atuando melhor que os adversários são o início da “crise”. Essa montanha-russa de emoções, ou transtorno bipolar, explica o perde e ganha da grande maioria nas 38 rodadas.
Para piorar, agora há também a obrigação de ser “moderno”. Não por filosofia, mas pela crença de que as chances de sucesso aumentam. Com isso, os treinadores tentam copiar conceitos da Europa, como compactar os setores e pressionar a zona do campo onde está a bola para recuperá-la.
A questão é: o que fazer com ela? Se os dois times trabalham para tirar os espaços, alguém tem que criá-los. Mas como, se mal há tempo de treinar os jogadores para destruir as jogadas? A construção do nosso jogo é deteriorada, incompleta.
Aí surge a “fórmula mágica”: “Falta o camisa dez!” Essa entidade que em um toque na bola vai fazer os setores se sincronizarem com perfeição. Todos vão passar certo, se deslocar no momento correto e finalizar com precisão. Será?
O problema por aqui é que ainda acreditam que se a defesa garantir atrás, um ou dois talentos vão resolver na frente. Isso era na época dos “latifúndios” – campos enormes que pareciam imensos com as equipes espaçadas e cinco marcando pelos outros cinco, mais o goleiro.
Sem espaço você tem que criar movimentos mais complexos, como, por exemplo, iniciar a jogada de um lado, inverter rapidamente e finalizar com um homem surpresa ou as tabelas com infiltrações em diagonal. Perto da meta adversária, o drible que desequilibra a defesa.
Só que isso exige qualidade nos fundamentos, especialmente o passe. A jogada precisa ser mais elaborada, não basta apenas esperar o erro do rival. No país que consagrou, pelos resultados, vários times de ligações diretas e bolas aéreas, com um ou outro craque para decidir, é um choque de realidade. Triste.
Sigamos, pois, entre uma pelada e outra esperando dias melhores, em que a pressão insana por vitórias não seja a maior derrota dos times brasileiros.
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