Fonte: República Paz & Amor
Meu pai ainda estava vivo. E eu gostava de pedir que ele me contasse histórias do Flamengo. De títulos, conquistas e de Maracanã lotado. Gostava também daquelas que transgrediam as regras, a ordem natural das coisas, o senso comum. Invasões de campo e vestiário, protestos na arquibancada e jogadores “malucos”. O Flamengo foi “meu príncipe encantado”, com castelos, dragões e muito final feliz. Nas histórias do Mais Querido que meu pai contava só valiam as que terminavam com “e foram felizes para sempre: Flamengo, Torcida, Diretoria e Jogadores”. Ele não saberia contar outras de Flamengo. Até que uma vez, eu quis acompanhá-lo num daqueles jogos de dia de semana, tarde noite, em uma época de provas escolares. O não foi categórico. E minha reação também. Soluçando, em prantos, e com o coração apertado, decretei: “Então não torço mais para o Flamengo, se não me levar pro jogo vou torcer pro Barcelona.” Lembro bem da reação dele. Morri e renasci com apenas um olhar. “Senta aí, Viviane, que eu vou te contar uma história.” 25 de Agosto de 1979. O Barcelona era o atual campeão da Recopa, com um time cheio de estrelas e já de cifras milionárias. O Flamengo chegaria em Cádiz, sede do jogo, quase na hora da estreia. Três dias antes, Zico, Carpegiani, Toninho, Tita e Junior (juntamente com o técnico Cláudio Coutinho) jogavam pela Seleção Brasileira, contra a Argentina, no Monumental de Nuñes, enfrentando quase 20 horas de viagem para disputar a 25ª edição do Torneio Ramon de Carranza. Todos eles entraram em campo. Aos DOIS minutos de jogo, Julio César Uri Geller mais que inspirado, abriu o placar. Em seguida, de falta, Zico marcou uma pintura. Eles ainda diminuíram, não sem antes ficarem uns bons minutos na roda. “O Flamengo, Viviane, VENCEU o Barcelona, avançou na competição e foi campeão”. Eu pedi desculpas ao meu pai, vesti o manto sagrado e fui dormir com a certeza que eu NUNCA trocaria o Flamengo por nada nesse mundo. Meu pai ainda estava vivo.
Nessa época nós não torcíamos com a CND debaixo do braço. Não levantávamos títulos de transparência financeira ou melhor executivo do ano. Vivíamos os bons tempos de taças, gols e campeonatos. Nesse tempo nós vencíamos o Barcelona sem Diretor Executivo de Futebol com salário de mais de CEM MIL REAIS/Mês. Fora o baile. Nesse período nós éramos apenas torcedores especialistas em…TORCER. E torcer SEM censura. Pois até aqueles exilados por NÃO poderem expressar e manifestar suas ideias, opiniões, sonhos, desejos e “torcida” por um país melhor, estavam voltando (alguns no mesmo voo do Flamengo campeão) anistiados para o Brasil. O Flamengo tinha Cantarelli, Toninho, Nélson, Manguito, Júnior; Andrade, Carpegiani, Adílio, ZICO, Reinaldo, Tita, Cláudio Adão, Beijoca e Júlio César Uri Geller. E meu pai ainda estava vivo.
Na primeira rodada do campeonato brasileiro vimos a mediocridade de um elenco limitado, um time mal treinado, uma escalação equivocada sustentada por um discurso fantasioso e por natureza, confuso. Precisamos contratar alguém para tirar as desculpas do Luxemburgo e do respectivo departamento de futebol da “confusão”. Se a diretoria faz um excelente trabalho na administração político e financeira do clube, alguém tem que fazer o trabalho “sujo” nos dias atuais: torcer. Pelo Flamengo, claro. O que parece, só parece, é que se na primeira rodada pós CINCO meses de treino, duas semanas de Atibaia, o Mugni e o Almir – a belíssima aposta do Caetano – em campo (fora os toques para trás, o medo de vencer, a falta de talento para marcar um gol, e do bom e velho TESÃO por estar defendendo as cores e a história do Flamengo), não podemos reivindicar o que nos é de direito: TIME. Pai, afasta de mim esse CÁLICE. [trecho da letra do Chico Buarque inserido aqui para livre interpretação]. Me parece pouco inteligente pensar que torce contra a gestão atual quem faz críticas ao trabalho desenvolvido no futebol. Se queremos que a vice-presidência de futebol tenha êxito, sucesso…RESULTADOS, estamos torcendo por ume gestão PERFEITA. Somando a tão sonhada “contas em dia” (ainda falta muito, lembrem-se) com os títulos. Uma coisa NÃO pode caminhar longe da outra. Ninguém falou que seria fácil conciliar falta de dinheiro com competência para contratar.
Tenho certeza que os responsáveis e envolvidos viram o MESMO jogo que eu. Mas duvido que – mesmo que em um momento de fúria e passionalidade – tivessem vislumbrado a superioridade do Barcelona, como eu vislumbrei, bem antes do Ferran Soriano, lá na minha infância. Mas, eu aprendi a lição. E nunca mais cometi aquela heresia. Com HUMILDADE reconheci minha ignorância. Ainda temos um campeonato inteiro pra chamar de NOSSO. Agora, o Lemininski me ensinou que os problemas tem família grande, e aos domingos saem todos a passear: o problema, sua senhora, e outros pequenos probleminhas. Justo aos domingos. Mas, eu cresci ouvindo finais felizes com o Flamengo. Pelo Flamengo. Para o Flamengo. E não aceito nada menos que isso. E o meu pai ainda estava vivo.
Pra vocês,
Paz, Amor & Liberdade de Expressão.
Vivi Mariano

A torcida tá abrindo o olho.
Antes, apoiando incondicionalmente, agora já começa a cobrar. Se os dirigentes quisessem vender a Gávea, pintar o Flamengo de verde ou contratar o maior destaque da série C, tudo bem, os blues sabiam o que estavam fazendo. Mas quando o clube cresce e o futebol, carro chefe dessa bodega toda, encolhe, alguma coisa está muito errada.
Será que só a Receita Federal e os credores vão sorrir com o Flamengo? E a torcida?