Fonte: República Paz & Amor
O frustrante empate com os nossos genéricos mais sem vergonha em pleno Maracanã precipitou ondas de fúria e impaciência na esclarecida e pacífica torcida do Flamengo (coisa igual não há). Ainda que ponderemos que o Brasileiro apenas engatinha e que o esboço grosseiro de uma segunda rodada muito pouco terá a ver com a foto que estampará as capas dos jornais ao fim da 38a rodada, empatar com esses usurpadores é, sim, o fim da picada. O Mengão foi bizarro.
E ainda mais bizarra que a atuação do scratch rubro-negro foi o grotesco pleito do autoproclamado campeão do Módulo Amarelo da Copa União de 87. Porra, para tudo! Onde é que já se viu uma farandola de embusteiros, conhecidos nacionalmente por tentar surrupiar nas barras dos tribunais um título ao qual jamais fez jus, clamar por fair play? Em que país do mundo o fair play pode ser usado como álibi para timinhos fazerem cera? Certamente que não em nossa pátria educadora onde a Justiça é para todos. Some-se mais essa vergonha, tentativa de desvirtuação de um nobre conceito esportivo, à extensa lista de delitos dos marginais da Ilha do Retiro.
Como sempre me diz um amigo, e que eu sempre imito na maior cara de pau, “ sei que eu nunca serei porra nenhuma na Gávea mas, se eu fosse, baixava por lá a regra número #1 de que é proibido perder para essa porra desse time sob quaisquer circunstâncias. Tudo o mais – perda de título ou de clássico e briga com o rebaixamento – pode até fazer parte da vida. Perder para a corja setentrional, não ”.
Vou poupá-los de análises individuais sobre nossos jogadores para não quebrar a amizade, assim como vou poupá-los de resenhas táticas e técnicas que estão muito além do meu poder de análise. O jogo foi uma merda e não fosse a presença da massa inculta e bem vestida que embelezou as arquibancadas do bilionário estádio lindeiro ao Museu do Índio e o dia 17 de Maio teria garantido de antemão o título de pior domingo de 2015.
Mas foi justamente a atuação irreprochável da Magnética, sempre prenhe de razão, que meteu a boca na corneta na hora certa e acendeu o fogo sagrado sob o rabo de nossos formidáveis rapazes, que salvou a pele rubro-negra. Se não fosse pela torcida, ao invés de deixar 2 valiosos pontos no relvado maracanesco o Flamengo teria deixado 3. E não seria de todo imerecido o resultado adverso.
Ponto pra torcida, que além de fazer o seu trabalho ainda teve disposição pra fazer o trabalho que quem ganha uma baba pra motivar a nossa mulambada não está conseguindo fazer. Por outro lado, acho chato pra caramba essa cantilena de ôôô-queremos jogador, de autoria dessa mesmíssima torcida. Não acho que seja errado querer sempre o melhor pro Flamengo, o que implica, naturalmente, em qualificar o elenco e substituir qualquer pereba que tenha, por alguma falha no sistema de segurança, conseguido se enxertar em nosso elenco, por craques de qualidade indiscutível. O problema é achar que serão contratações que vão resolver nosso problema. Não se iludam, o que falta ao time do Flamengo o dinheiro não compra.
Já está comprovado pelos nossos próprios resultados que salário em dia não faz ninguém correr mais ou jogar melhor. De maneira análoga, verificou-se que comprar uma caralhada de jogadores tampouco transforma times em esquadrões. Está aí mesmo o Palmeiras com 200 milhões de orçamento e sua baciada de jogadores novinhos em folha levando calor de Joinvilles e Sampaios Côrreas da vida como se ainda habitasse as pestilentas divisões subalternas do futebol nacional. The best things in life are free. Pra todas as outras existe o cartão do Supermercado Guanabara pra parcelar em até 36 vezes.
Ninguém suporta ver o Flamengo jogar sem aquele brilho, sem aquela vontade, sem aquele élan que nos caracteriza. Jogar no Flamengo é uma enorme responsabilidade, o Manto Sagrado não é uma camisa que simplesmente se veste antes de entrar em campo. O Manto é uma farda, que apesar de sua beleza, é uma vestimenta bélica, criada exclusivamente para triunfar sobre todas as demais e afirmar a superioridade genética, anímica e moral dos rubro-negros.
O dress code do Manto Sagrado é rígido e não admite desvios: para envergar aquelas cores comme il faut é preciso incorporar a fúria santa dos que não desistem nunca, a legítima indignação de quem sabe que está lutando pelo lado certo. Uma energia que pode ser compartilhada tanto por perebas como por superastros, desde que tenham o coração puro. Nem sempre tem sido esse o comportamento de nossa mulambada. O que é grave, muito grave. Mas não é motivo para que nós, rubro-negros, que já estamos em um nível de desenvolvimento espiritual muito superior aos nossos rivais, nos transformemos em materialistas sem alma, que se deixam dominar por uma oniomania sem sentido.
Se pretendemos mesmo ser decisivos para o Flamengo, precisamos relativizar os resultados no curto prazo e aprender a projetar nossos anseios para o futuro. Queremos jogador, mas sem maluquices impagáveis. Vamos torcer, vamos cobrar, mas não percamos a essência da nossa alma vermelha e preta. Porque é o que temos de mais valioso em nosso patrimônio.
Mengão Sempre

Texto longo, mas muito bem escrito.